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sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Os temas de Ciência & Tecnologia

Dois bons temas de ciência e tecnologia para discutir (clique aqui).

O primeiro, a questão do direito de patente. Há quem julgue que a patente é do instituto de pesquisa; há quem defenda que é do pesquisador.

Há alguns pontos a se considerar.

O primeiro, é que os institutos bancam as verbas, os laboratórios e têm direito à sua parte na descoberta. O segundo, é que os pesquisadores têm enormes dificuldades em negociar com as empresas. Além disso, sendo pessoa física, cria uma instabilidade natural nas negociações: pessoas morrem, parentes brigam por herança etc.

A minha opinião é que o ideal é uma agência da Universidade - ou o financiador, como a FAPESP - serem titulares da patente; o cientista ter a justa participação

O segundo ponto é a velha discussão sobre a repartição das verbas do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa). Há os que defendam que o melhor aproveitamento se dá onde há maior massa crítica de pesquisadores. E os que defendem a distribuição das verbas, para poder gerar mais centros de excelência.

No caso de verbas fartas, não haveria discussão. Mas na casa onde falta pão…

Enviado por: luisnassif

A crise e a pesquisa industrial


LUIZ EUGENIO ARAÚJO DE MORAES MELLO


Os cortes de curto prazo das indústrias no Brasil deveriam ser acompanhados de uma revisão nas suas estratégias de C&T no longo prazo

FOLHA

POUCOS SABEM , mas Basf e AGFA tem "anilina" no nome. Ambas surgiram como produtoras de corantes à base de anilina durante a revolução industrial, que teve origem no final do século 19 e que fomentou pela primeira vez no mundo a pesquisa na indústria.
No entanto, apesar de "anilina" constar do nome de ambas, é pouco provável que alguém que esteja lendo este texto tenha comprado anilina desses fabricantes. Como muitas outras indústrias, ao longo do tempo, Basf e AGFA se adaptaram aos novos mercados. Modificaram seu leque de produtos em consonância com as necessidades dos mercados e dos novos tempos.
Pesquisa industrial por si só não é garantia de sobrevivência para nenhuma empresa no mundo moderno. Mesmo ampla em termos de aporte financeiro e da qualificação de cientistas envolvidos, a pesquisa industrial feita pela RCA e pela Westinghouse não impediu que ambas fossem deslocadas por companhias mais eficientes e competitivas. Por outro lado, não foi a presença da pesquisa nessas empresas que as eliminou do mercado.
Já a ausência de pesquisa industrial parece ter sido um componente importante para a extinção da indústria siderúrgica norte-americana.
Em 1960, convidado a falar em uma reunião anual da indústria siderúrgica norte-americana, o assessor cientifico da Presidência dos Estados Unidos vaticinou: "Não entendo por que vocês me convidaram para falar sobre pesquisa, tendo em vista que vocês não fazem nada nesse sentido" (referindo-se a pesquisas de relevância).
"No ritmo atual e caso não ocorram mudanças, vocês estarão fora do negócio em 20 anos".
De fato, no início da década de 1980, cerca de 320 mil funcionários das companhias siderúrgicas norte-americanas (75% do total) haviam perdido seus empregos.
Não é fácil para uma empresa, entre ações de efeitos imediatos e palpáveis e investimentos em um futuro aparentemente incerto, decidir-se pelo último cenário.
Os cortes anunciados pelas diversas empresas no Brasil e no mundo são certamente uma parte necessária do ajuste essencial para sobrevivência em um cenário de diferentes níveis de demandas, preços e taxas de câmbio.
Ainda no caso norte-americano, não deixa de ser notável que uma das promessas da General Motors para se habilitar a novo aporte de recurso do governo dos EUA seja um carro híbrido elétrico/gasolina.
Nesse caso, fica claro que o fiador do empréstimo de US$ 25 bilhões é, em última análise, fruto do investimento da companhia em ciência e tecnologia (C&T) realizado em anos anteriores.
O investimento empresarial em ciência e tecnologia empreendido no Japão, na Coréia, em Cingapura e nos Estados Unidos é sempre significativamente maior que o investimento governamental. No Brasil, essa situação é invertida.
Aqui, como porcentagem do PIB, esse montante é três vezes menor que em Cingapura e quase sete vezes menor que no Japão.
Em virtude disso, não é estranho estarmos tão distantes em depósitos de patentes nos EUA quando comparados com esses países. Mesmo na sempre surpreendente China, o setor empresarial investe mais que o dobro em C&T do que o governo chinês.
Investir em C&T não é a garantia de sobrevivência para nenhum empreendimento. Não investir em C&T é certamente uma sentença de morte para qualquer empreendimento que pretenda manter-se ativo em longo prazo.
Os cortes de curto prazo das indústrias no Brasil deveriam ser acompanhados de uma revisão nas suas estratégias de C&T no longo prazo. As profecias do assessor científico de J. F. Kennedy parecem ser tão válidas hoje como há quase 50 anos.


LUIZ EUGENIO ARAÚJO DE MORAES MELLO , 51, graduado em medicina, mestre e doutor em biologia molecular, com pós-doutorado em neurofisiologia pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles (EUA), é pesquisador da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), presidente da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE) e membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo.

domingo, 23 de novembro de 2008

O fim do mestrado...


NAOMAR DE ALMEIDA FILHO


Quais os antecedentes dessa invenção da burocracia acadêmica brasileira? A que fins serviu? Servirá no futuro?

FOLHA

...TAL COMO introduzido no Brasil, durante a ditadura militar, parece próximo.
Na atualidade, praticamente todos os países com maior desenvolvimento econômico e social têm mestrado como formação profissional.
Entre nós, o grau universitário chamado mestrado foi instituído em 1965 pelo famoso Parecer Sucupira, que definiu diretrizes para a pós-graduação brasileira. Nesse contexto, o título foi criado como habilitação à docência em nível superior.
Quarenta anos depois, tal definição só existe no Brasil e, em menor escala, em alguns países latino-americanos. Quais são os antecedentes dessa invenção da burocracia acadêmica brasileira? A que fins serviu? Servirá no futuro?
O termo "master", "meister" (daí o tratamento plebeu -"mister"- na língua inglesa), "maître", mestre, em português, tem raízes profissionais. Na Europa medieval, designava o artesão experiente que dominava seu ofício e, autorizado pelas corporações, estava apto a formar aprendizes.
A universidade formava então apenas "doctors", senhores da "doctrina". Só na era moderna começou a titular profissionais. A Reforma Humboldt, instituidora da universidade de pesquisa em 1810, manteve o doutorado como láurea acadêmica maior. Mas acolheu o mestrado como grau acadêmico intermediário, em suplemento à láurea menor, o bacharelado.
A partir do século 20, em toda a América do Norte e nos países da "commonwealth", o título de "master" tanto se refere à formação pré-doutoral quanto implica designação direta da área profissional.
O administrador recebe o título de MBA ["master of business administration"]; o pedagogo, M.Ed. ["master of education"]; o sanitarista, M.P.H. ["master of public health"]; o psicólogo, M.Psychol. ["master in psychology"]; e assim por diante. Exceções são algumas profissões que seguem o padrão da medicina, em que graduação [M.D. -"medical doctor"] é sempre doutorado. E, em muitas universidades, o curso de direito concede grau de J.D. ["juris doctor"].
Na tradição mediterrânea, raiz da universidade brasileira (através de Coimbra e depois pela influência da Sorbonne e das "écoles polytechniques"), o título mestre nunca foi utilizado. Preferia-se licenciado (modelo francês e espanhol) ou bacharel (modelo lusitano).
Com o Processo de Bolonha, a partir de 1999, unifica-se o mestrado como diploma do segundo ciclo na maioria das universidades européias. Em Portugal, Holanda e Suíça, por exemplo, médico é agora mestre em medicina.
Na França, Alemanha e Itália, cursos em complemento às láureas profissionais são igualmente referidos como mestrado.
Neste contexto de crescente internacionalização da universidade, vale a pena continuarmos sucupiranos? Faz sentido manter no Brasil uma exótica licenciatura para ensino superior chamada mestrado? Não seria interessante "masterizar" a formação profissional, com soluções criativas para impasses e limites dos modelos internacionais?
Respostas a essas questões podem ser dadas pelo Reuni, pelo menos no âmbito da rede federal de ensino superior. No plano nacional, a Andifes avança na construção do chamado "Reuni da pós", que deve contemplar ampliação maciça de vagas e propostas de reestruturação dos ciclos pós-profissionais. No plano local, várias universidades desenvolvem modelos de pós-graduação compatíveis internacionalmente.
Assim é que vimos implantando na UFBA o modelo conhecido como Universidade Nova, que, além dos bacharelados interdisciplinares, prevê expansão dos mestrados profissionais (devidamente redesenhados) e equivalência entre essa modalidade e cursos de especialização. No marco legal superado da pós-graduação brasileira, mestres formados no exterior em graduação profissional têm sido oficialmente credenciados por colegiados e câmaras como docentes de nível superior. Haverá certamente reação às mudanças entre os que se beneficiaram do equívoco regulatório.
Mas, para recriar a pós-graduação brasileira, contamos enfim com os órgãos normativos e de coordenação da educação superior. O Conselho Nacional de Educação poderia rever o Parecer Sucupira, e todo o marco legal derivado, à luz das mudanças em curso em praticamente todos os países do mundo desenvolvido. E a Capes, formada por representantes das comunidades acadêmicas, poderia elaborar diretrizes específicas para os mestrados profissionais, fomentando propostas capazes de tornar a universidade brasileira mais integrada às redes internacionais de produção e circulação de ciência, arte e cultura.


NAOMAR DE ALMEIDA FILHO , 56, doutor em epidemiologia, pesquisador do CNPq, é professor titular do Instituto de Saúde Coletiva e reitor da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

domingo, 28 de setembro de 2008

Vergonha na USP

A Universidade de São Paulo, maior e melhor instituição pública de pesquisa e ensino superior do Brasil, faz 75 anos em 2009.
Quando ela ainda tinha 45 anos, formei-me em jornalismo na sua Escola de Comunicações e Artes, mas prossegui como aluno de filosofia (estudo que, infelizmente, nunca concluí).
Hoje me pergunto se ainda devo ter orgulho de ser ex-aluno da USP. No centro da preocupação com minha "alma mater" (mãe nutridora), como dizem os norte-americanos e os britânicos, está o caso de plágio em seu Instituto de Física.
Não pelo caso em si, que é menor, mesquinho mesmo. Briga de comadres por migalhas de micropoder institucional. Nem vem ao caso quem acusa quem, só que professores titulares admitem copiar trechos de artigos científicos de outros sem a devida referência bibliográfica.
Não só ex-alunos, mas todo contribuinte que sustenta a USP e qualquer pessoa que cultive valores intelectuais deve preocupar-se com o modo como o caso foi tratado pela reitoria. Se a instância máxima da universidade agiu com o propósito de resguardar seu prestígio, bem, escolheu a pior maneira de fazê-lo.
Causam perplexidade dois comunicados sobre o caso divulgados pela reitoria nos dias 22 e 23 deste mês (na internet: www.reitoria.usp.br/reitoria). O primeiro informava que a Comissão de Ética da USP havia concluído -uma semana antes...- "os trabalhos de apreciação do caso de suposto plágio envolvendo professores do Instituto de Física".
O qualificativo "suposto" indica a disposição clara de proteger os investigados, embora eles próprios tivessem admitido o deslize. O paternalismo corporativo (ou seria "maternalismo"?) vem explicitado a seguir: "Ressalte-se que o relatório da Comissão de Ética não é um documento público, uma vez que seu conteúdo envolve a avaliação de comportamento ético individual. Portanto, a divulgação de atos do processo só pode ser feita com a autorização dos investigados, conforme reza a Constituição Federal, em seu artigo 5º, [inciso] X".
Como assim? Se um professor e funcionário público foi investigado por má conduta acadêmica e inocentado, tem todo o interesse em que o relatório venha à luz. Se foi condenado, não tem cabimento dar-lhe o direito de veto sobre a divulgação.
A reitoria parece ter-se dado conta logo a seguir do atentado contra o princípio da publicidade, formulado por Immanuel Kant (1724-1804) em seu "Para a Paz Perpétua" (1795): "Todas as ações relativas ao direito de outros homens, cuja máxima não é suscetível de publicidade, são injustas".
Uma espécie de errata foi publicada pela reitoria no dia seguinte, com a satisfação negada ao público 30 horas antes: "Diante da conclusão dos trabalhos da Comissão de Sindicância e da Comissão de Ética, sobre a investigação de plágio, a Reitoria comunica que, no entendimento da Comissão de Ética, embora os trabalhos científicos, que foram objeto da investigação, contenham pesquisa original, houve um desvio ético na redação dos mesmos por uma inaceitável falta de zelo na preparação dos artigos publicados.
Isso resultou na consignação, pela Comissão, de uma moção de censura ética aos autores, pela não-observância dos preceitos éticos da Universidade".
Qual "desvio ético"? Que "preceitos éticos" deixaram de ser observados? É uma vergonha que a reitoria prossiga em sua recusa a dar uma explicação completa do caso.

MARCELO LEITE é autor de "Promessas do Genoma" (Editora da Unesp, 2007) e de "Brasil, Paisagens Naturais - Espaço, Sociedade e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros" (Editora Ática, 2007). Blog: Ciência em Dia (cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br).
E-mail: cienciaemdia.folha@uol.com.br

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

SP limita programa de bônus da USP para escola pública

Gestão Serra diz que prova que dá pontos extras será experimental e ocorrerá só no 3º ano

Aumento no número de estudantes da rede pública matriculados na USP é uma das principais bandeiras da reitora Suely Vilela

FÁBIO TAKAHASHI
FERNANDA CALGARO

DA REPORTAGEM LOCAL FOLHA

A Secretaria Estadual de Educação de São Paulo limitou um programa da USP que prevê bônus (pontos extras) no vestibular aos alunos provenientes das escolas públicas.
O programa anunciado pela USP previa a aplicação de provas aos alunos nos três anos do ensino médio público (avaliação seriada), que, somadas, renderiam bônus de até 3% na nota aos alunos no vestibular. A implantação seria gradativa até 2011, começando neste ano pelos alunos do 3º ano do ensino médio (antigo 3º colegial).
A gestão José Serra (PSDB), porém, decidiu que a edição deste ano será "experimental", ou seja, o programa poderá não se repetir já em 2009. Além disso, limitou o exame ao 3º ano.
Segundo a Folha apurou, a secretaria considerou apressada a forma como a universidade anunciou o programa -sem que estivesse totalmente definido com a pasta. Também houve discordância com relação a questões pedagógicas.
A divulgação foi feita em abril deste ano, mas a proposta só foi formalmente encaminhada à secretaria em julho.
A decisão do governo de não aplicar a prova nos três anos do ensino médio é apoiada pelo Conselho Estadual de Educação. Parecer do órgão elaborado pela professora da USP Eunice Durham diz que "a principal objeção (...) reside no fato de que fortalece a tendência a se organizar todo o ensino médio em função do vestibular, ignorando sua função de formação geral para a vida".
O parecer fala ainda em "tramitação tumultuada" da USP. O texto, aprovado no último dia 3, diz que as "iniciativas resultaram em grande pressão para a rápida tramitação do projeto, a fim de se convalidarem as iniciativas que já vinham sendo tomadas".
Procurada para comentar o assunto, a secretária da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, disse, por meio de sua assessoria, apenas que o programa será realizado em "caráter experimental".

"Quase insignificante"
O aumento da proporção de alunos de escolas públicas aprovados no vestibular é uma das principais bandeiras da reitora da USP, Suely Vilela. A rede estadual representa 85% das matrículas, mas menos de 26% dos aprovados no exame.
O argumento da USP para propor exames para o bônus nos três anos do ensino médio é o de diluir a pressão para a aprovação no vestibular.
A implantação do projeto de bônus, da forma como foi aprovado pelo governo, custará R$ 1,760 milhão, metade para o Estado, metade para a USP. À secretaria também caberá ceder as salas para aplicar a prova.
Apesar da decisão do governo de fazer a prova só neste ano, até ontem o site da USP sobre o programa dizia que "a partir de 2010 e 2011, o Pasusp [nome do programa] será implantado progressivamente nas outras séries [do ensino médio]".
O parecer do conselho de educação critica também a eficácia das medidas já implantadas pela USP para aumentar os egressos da rede pública na universidade, como um outro bônus, também de 3%, automático para todos da rede pública.
Segundo o relatório, 0,67% dos formados no ensino médio público foram aprovados no vestibular 2006/2007 da USP, proporção que caiu para 0,66% no ano seguinte. O texto diz que "a contribuição da USP para absorção do ensino médio público é quase insignificante".

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A terceira onda migratória

Clóvis Rossi aborda um tema importante na sua coluna: a terceira onda de migração de cérebros, a disputa entre países por profissionais de alto nível (clique aqui). A coluna mostra, aliás, que o Rossi correspondente internacional continua imbatível.

No entanto, o pessimismo militante acaba prejudicando um pouco o raciocínio do Rossi analista, fazendo-o colocar o Brasil como vítima dessa nova onda. Já foi. Desta vez, creio que o jogo será diferente.

Já está ocorrendo uma migração importante no agronegócio. No começo, parecia uma invasão estrangeira de grandes multinacionais adquirindo grandes extensões de terra. Quem visita as novas fronteiras agrícolas, como Luiz Eduardo Magalhães, ou mesmo pólos como Petrolina-Juazeiro, percebe que o jogo é outro: são imigrantes tecnicamente aparelhados, com capital e tecnologia, que estão vindo se tornar brasileiros.

Como energia, pré-sal, Amazônia, as oportunidades futuras globais estarão por aqui. O grande desafio será montar estratégias na área científico-tecnológica – juntando Ministério de Ciências e Tecnologia, Fapesp, universidades federais e as estaduais de excelência – para prospectar o mundo e identificar cérebros na área acadêmica.

Por Andre Araujo

Enquanto isso a migração no sentido inverso, de 4 milhões de brasileiros residentes no exterior, sofre sua pior repressão em todo o mundo. graços ao ciclo xenofóbico de uma direita burra e precocnceituosa que se recusa a enxergar os beneficios de uma mão de obra capaz e ordeira, como é o caso das comunidades de brasileiros no exterior.

Essa repressão deixou de ser um episódio consular ou policial para ser politico. O Brasil não se deu conta de seu peso geopolitico e economico e se humilha perante Governos prepotentes, sem ter-se registrado nenhuma atitude firme contra essa atitude insultuosa à dignidade de um Estado, que não está sabendo proteger seus cidadãos aflitos no exterior. A Espanha abusou sem freios, o Brasil humildemente realizou uma reunião dita de cupula entre altos funcionários consulares e não arrefeceu um milimetro a arrogancia espanhola. A Espanha mandou ao Brasil 550.000 cidadãos entre 1900 e 1960, a maioria esmagadora pobres. O Brasil é credor migratório e não faz uso de força moral ou diplomática.

Agora o Reino Unido começa perseguição pior, a reação brasileira é a habitual: choramingas, protestos indignados e fica por ai.

Retaliação imediata e silenciosa nem pensar. Uma simplicissima: suspender as rotas aereas. Porque não fazer? Eles entenderão ràpidamente. O Brasil cresceu e ganhou musculatora mas esqueceram de avisar o Itamaraty que por modéstia e preguiça prefere funcionar seus consulador das 12 às 14 horas com a placa " FAVOR NÃO INCOMODAR".

Comentário

Chamo a atenção: períodos de intolerância étnica ou religiosa são fundamentais para os países que praticam a tolerância e políticas inteligentes de migração. A Espanha da Inquisição perdeu milhares de judeus e árabes, que constituíam a parte mais dinâmica da sua economia. A Inglaterra se fez atraindo pessoas que fugiam dessas perseguições. Depois, os Estados Unidos e o próprio Brasil se fizeram através dos deserdados econômicos e perseguidos da Europa e Oriente Médio.

Aliás, as Olímpiadas estão uma festa para os olhos. Assistir o nipo-brasileiro no tênis de mesa, depois as nordestinas do vôlei, depois as negras do futebol, depois o arco-iris de todas as cores do vôlei.

Vamos recuperar nosso papel de polo de atração da migração mundial.

Luis Nassif

terça-feira, 12 de agosto de 2008

56% aprovam currículo de "curso ruim"


Já estudantes de instituições bem avaliadas costumam ser mais críticos em relação a currículo, instalações e projeto pedagógico

Para professor, análise está ligada à expectativa sobre o curso; "nas privadas, como a expectativa é menor, avaliam bem o que é oferecido", diz


Silva Junior/Folha Imagem

O calouro Álvaro Moreira da Luz (centro) e os colegas defendem o curso de medicina da Unaerp

FÁBIO TAKAHASHI
DA REPORTAGEM LOCAL FSP

Alunos de medicina que estão em cursos "sem condições de funcionamento" (segundo o próprio MEC) avaliam mais positivamente suas instituições do que os de escolas consideradas como "referência".
O levantamento, tabulado pela Folha a partir de questionário respondido pelos estudantes no Enade (antigo Provão), mostra que os estudantes de cursos com conceitos 1 e 2 têm uma opinião melhor sobre o currículo, as instalações e o projeto pedagógico do que aqueles de instituições com nota 5 (o nível mais alto).
No quesito currículo, por exemplo, a média de aprovação dos alunos no grupo de escolas com piores notas foi de 56%, ante 47,5% nas "tops".
"O que verificamos é que o nível de satisfação dos estudantes está muito ligado ao fato de ele ser de instituição pública ou privada", afirmou o presidente do Inep (instituto do MEC que aplica a prova), Reynaldo Fernandes.
"Ainda não sabemos por que, mas o aluno da escola pública avalia pior seus cursos, mesmo que tenham melhores notas nos exames", disse Fernandes -os quatro cursos de referência em medicina são públicos.
Para João Cardoso Palma Filho, membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo e professor da Unesp, os dados devem estar ligados ao nível de expectativa dos estudantes. "Aquele que entrou em uma universidade pública precisou se esforçar muito para passar no vestibular. Por isso, espera muito do curso, mas a expectativa nem sempre é correspondida", diz Palma Filho.
"Nas privadas, como a expectativa é menor, avaliam bem o que é oferecido. O problema é que o aluno só percebe que fez um curso ruim quando vai para o mercado de trabalho ou faz o Enade. A pressão para melhorar as escolas terá de vir do MEC, porque os alunos parecem não saber o que cobrar."
Já o membro do Conselho Nacional de Educação, Edson Nunes, afirma que o resultado do levantamento pode indicar problemas nos dados utilizados pelo MEC para construir o tal conceito preliminar, indicador criado pelo governo federal para avaliar os cursos.
O conceito preliminar é resultado da nota obtida pelos alunos no Enade, o questionário respondido pelos estudantes na provas e o perfil do corpo docente (titulação etc). O item que possui o maior peso é o resultado da prova (40%).
"Deveria haver uma forte correlação entre o desempenho dos alunos e suas avaliações dos cursos. Como os pesquisadores não tiveram acesso a todos os dados, não é possível identificar com precisão o que ocorreu", disse Nunes, que também é pró-reitor da Universidade Candido Mendes, no Rio -que não foi avaliada nessa edição do Enade.
Em resposta, o presidente do Inep afirmou que os especialistas receberão os dados assim que fizerem o pedido e que foram feitos estudos para identificar quais variáveis eram relevantes estatisticamente para se utilizar no conceito preliminar.
No questionário do Enade, o universitário responde, por exemplo, se considera o currículo de seu curso "bem integrado e com clara vinculação entre as disciplinas".

Vistorias
Pelos dados divulgados na semana passada, 25% dos cursos avaliados tiveram conceito 1 ou 2 ("sem condições" de funcionar). O governo diz que fará vistorias e, depois disso, poderá abrir processos que podem levar ao fechamento dos cursos.

Alunos da Unaerp dizem que colegas boicotaram e até já pediram desculpas

LUCAS REIS

DA FOLHA RIBEIRÃO

Boicote. Essa é a explicação dos alunos de medicina da Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto) para a aparente contradição entre o conceito 2 atribuído pelo MEC ao curso e a opinião positiva sobre a instituição expressada pelos estudantes que fizeram a prova do Enade. O currículo da escola recebeu aprovação de 67% dos estudantes, enquanto o planejamento do curso foi bem avaliado por 51%. "A boa avaliação do currículo e do planejamento do curso, feita pelos próprios alunos [no Enade], prova que houve o boicote", disse ontem Adriana de Oliveira, 22, aluna do terceiro ano. "Não há do que reclamar quanto à estrutura do curso. Os laboratórios e os professores são bons. Os estudantes do último ano, mesmo boicotando a prova, admitem isso. E já até pediram desculpas pelo boicote", afirmou Florence Rosa, 24, do quinto ano. Segundo as alunas, o boicote aconteceu porque os estudantes que fizeram a prova do Enade se revoltaram contra a mudança do método de ensino utilizado pela faculdade. "Eles disseram que boicotaram porque passaram por uma época de transição de curso. Eles são da última turma que se formou sob o sistema antigo", disse Florence. "Pelo preço [da mensalidade] que a gente paga, se não estivéssemos satisfeitos, é óbvio que pediríamos transferência. A gente vê que aqui tem resultado", disse Flávia. Os calouros, que freqüentam a universidade há apenas uma semana, também defendem o curso. "Nós sabemos que o curso não é perfeito, mas essa nota [CPC] não condiz com a realidade. Se a infra-estrutura é boa, os professores são bons, o desempenho dos alunos do Enade deveria ser melhor. Ou seja: houve boicote", disse Álvaro Moreira da Luz, 20.

Mudança curricular
Na Fundação Faculdade de Ciências Médicas de Porto Alegre, que alcançou a nota máxima (5), a visão crítica dos alunos ocorreu devido às mudanças nas diretrizes curriculares nos último cinco anos, dizem alguns estudantes ouvidos pela Folha. Entre os alunos que fizeram o Enade, 42,9% aprovavam o currículo e 37,1% concordavam com o planejamento do curso. A exceção está na infra-estrutura: a maioria (90%) a considera satisfatória.

sábado, 2 de agosto de 2008

USP é a 113ª melhor do mundo, diz pesquisa

FÁBIO TAKAHASHI
DA REPORTAGEM LOCAL FSP

A USP foi considerada a 113ª melhor universidade do mundo em um ranking divulgado ontem por um órgão de pesquisa do governo espanhol. A escola de São Paulo subiu 15 posições em relação a 2007.
Entre as 200 mais bem posicionadas do mundo, a instituição foi a única brasileira citada.
Um dos principais indicadores avaliados pelo ranking, chamado de "Webometrics Ranking of World Universities" (Ranking Mundial de Universidades na Web, em tradução livre), é o número de acessos, via internet, dos artigos produzidos pelas escolas.
Com o mecanismo, o Conselho Superior de Pesquisas Científicas -vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia espanhol- busca quantificar a relevância da produção das instituições universitárias.
Após a USP, as instituições brasileiras mais bem posicionadas são a Unicamp (212ª) e a UFRJ (federal do Rio de Janeiro, em 330º).
As 25 melhores da lista são norte-americanas. MIT, Harvard e Stanford ocupam as melhores posições.
Foram analisadas 15 mil escolas no mundo todo, e 4.000 foram ranqueadas.
A melhor latino-americana foi a Universidade Autônoma do México (51ª).
Diversas instituições fazem rankings de universidades. Os mais tradicionais são o da Universidade de Jiao Tong (China) e das publicações "US News & World Report" (Estados Unidos) e "Times" (Inglaterra).
Um dos objetivos dessas listas é indicar aos melhores alunos as melhores instituições para se estudar.

Internacionalização
A reitoria da USP atribuiu a subida no ranking à preocupação da universidade em se internacionalizar, por meio de intercâmbio de alunos e professores, além de convênios com instituições do exterior (atualmente, há 326 vigentes).
Segundo a pesquisadora da USP Elizabeth Balbachevsky, o ranking demonstra que as instituições brasileiras de ensino superior têm baixo grau de inserção na comunidade científica mundial (apenas a USP ficou entre as 200 da lista).
"O Brasil está produzindo mais cientificamente, mas de forma insular. É pequeno o número de pesquisadores brasileiros em redes internacionais. Assim, poucos conhecem as universidades brasileiras."
Segundo Balbachevsky, um dos problemas da baixa internacionalização da produção científica do país é a perda de investimentos estrangeiros.
"Temos mais doutores na área da ciência da informática do que a Índia. Porém, enquanto a Índia capta quase um quarto de todo o investimento internacional na área, a situação brasileira é quase pífia."

terça-feira, 29 de julho de 2008

Inovação tecnológica: realidade e miragem

ROBERTO NICOLSKY e ANDRÉ KOROTTCHENKO DE OLIVEIRA -


FSP


Reverter o quadro do baixo número de patentes do Brasil não é missão para as universidades, ao contrário da opinião de muitos

O BRASIL ainda está longe de gerar tecnologia competitiva o suficiente para garantir espaço entre os grandes players mundiais em setores estratégicos da economia.
Tal situação pode ser claramente percebida ao analisar as últimas três décadas do ranking de registros de patentes no escritório norte-americano, o USPTO. O país vem gradativamente involuindo quando comparado com os emergentes asiáticos. Conhecido por sua objetividade e assertividade, terá de aprender algumas lições com os parceiros do outro lado do globo.
Em países desenvolvidos, concede-se maior número de patentes a inventores nacionais que a estrangeiros, não sendo diferente nos EUA, líder em seu território.
Ao analisar, porém, os demais países, fica evidente a ocorrência no cenário recente de uma "dança das cadeiras", na qual o velho continente perdeu paulatinamente o lugar. O Japão ultrapassou a Alemanha em patentes concedidas nos EUA em 1975 e, desde então, as duas nações se mantiveram, respectivamente, nas segunda e terceira posições do ranking do USPTO. A grande mudança nos últimos dez anos é a ascensão de Taiwan e, principalmente, da Coréia do Sul.
Coréia do Sul e Taiwan, hoje em quarto e e quinto lugares, deixaram para trás países como Grã-Bretanha e França, ocupantes dessas posições por três décadas. Trata-se de um claro indício do declínio tecnológico dos tradicionais países europeus. Caso a tendência se mantenha, em menos de dez anos, os asiáticos ultrapassarão também a Alemanha.
O fato de os emergentes citados estarem patenteando fortemente no exterior indica que eles investem para dominar a tecnologia de produção e de processos.
O furacão asiático também atingiu o Brasil, que hoje está na 29ª posição do ranking, tendo sido ultrapassado, em 2007, pela pequena Malásia. Desde 1975, perdemos lugar para Taiwan, Coréia (1983), China (1986), Cingapura (1996) e Índia (1998), demonstrando pouca capacidade de absorver as tecnologias dos países desenvolvidos e de gerar inovações próprias.
O baixo número de patentes brasileiras está diretamente relacionado ao escasso investimento em pesquisa e desenvolvimento na indústria.
Essa situação, por sua vez, é reflexo da falta de incentivo público mais eficiente, que é o compartilhamento universal do risco tecnológico entre Estado e empresa, mecanismo que alavanca o crescimento dos outros emergentes e o mais usado pelos países desenvolvidos para manter as suas lideranças tecnológicas.
Reverter esse quadro não será uma missão para as universidades, ao contrário da opinião de muitos. Vale registrar que, historicamente, menos de 2% do total de patentes dos EUA são concedidos a universidades. Em nenhum país emergente bem-sucedido a inovação veio da academia, apesar da inestimável importância dessa instituição na sua missão de formar recursos humanos qualificados. Como as inovações atendem a necessidades dos consumidores e usuários, é natural que sejam geradas no pólo produtor, isto é, nas empresas.
O recente desenvolvimento tecnológico da Índia e da China reforça essa tese. Não existe nenhum produto novo lançado por esses países, mas as suas patentes crescem exponencialmente por meio de processos de engenharia reversa, ou cópia criativa, e, em um segundo momento, geração de inovações incrementais. Agregar valor por meio de inovações incrementais em tecnologias importadas é uma atividade que conta com fomento explícito na Índia (lei nº 44/95). Assim ocorreu no Japão do pós-guerra e, posteriormente, na Coréia do Sul e em Taiwan. E é isso que, entre nós, faz o sucesso de Petrobras, Embraer e outras empresas brasileiras que estão continuamente agregando pequenas inovações incrementais aos seus produtos e processos.
Em vez de dar toda a força às inovações incrementais, as políticas públicas no nosso país insistem há mais de 30 anos na estratégia equivocada de apostar no ineditismo, ainda que o insucesso desses projetos nos distancie cada vez mais dos emergentes orientais no ranking de patentes e na taxa de crescimento do PIB.
Isso se evidencia na fala repetida "ad nauseam" por algumas autoridades brasileiras: "O que nos falta é apenas saber transformar em patentes a ciência produzida nas nossas universidades". Como toda miragem, essa também se desmancha no ar quando nos aproximamos dela.


ROBERTO NICOLSKY, 70, físico, é diretor-geral da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica. ANDRÉ KOROTTCHENKO DE OLIVEIRA é engenheiro eletrônico e consultor em gestão de patentes.

sábado, 19 de julho de 2008

Para SBPC, empresas empacam inovação

Marco Raupp, presidente da entidade, diz que Brasil pode perder a liderança do etanol se iniciativa privada não ajudar

Matemático defende regra para desburocratizar pesquisa em biodiversidade e diz que briga por lei sobre cobaias não está ganha

Antônio Scarpinetti/Unicamp/Cortesia

Marco Raupp, presidente da SBPC, dá entrevista em Campinas

AFRA BALAZINA
RAFAEL GARCIA
ENVIADOS ESPECIAIS A CAMPINAS - FSP

Para o matemático Marco Antonio Raupp, presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), o atraso do Brasil em inovação tecnológica é legado da cultura empresarial brasileira que mostra aversão a investimentos de retorno a longo prazo e dialoga mal com a academia. Ele não isenta as universidades de culpa, mas diz que quem tem de agir agora são as empresas.
Raupp coordenou nesta semana a 60ª reunião anual da entidade, que terminou ontem em Campinas com participação estimada de 12 mil pessoas. O evento reuniu diversos cientistas de primeira linha para discutir assuntos estratégicos para o Brasil. Em entrevista à Folha, Raupp fala sobre alguns deles:

FOLHA - Como o senhor avalia a inovação tecnológica no país?
MARCO ANTONIO RAUPP
- A academia está com desenvolvimento razoável no que se refere a seus aspectos acadêmicos, mas têm de também participar do processo de inovação na empresa.
Não significa que será responsável pela inovação em empresas, quem é responsável é a própria empresa. Mas a academia tem de dar a sua parte.

FOLHA - O Brasil tem poucas patentes...
RAUPP
- É, 0,2% da produção de patentes no mundo. E a participação de produtos de pesquisa básica é 2%. Então, olha a diferença. Temos que fazer um esforço brutal. Agora, isso não é responsabilidade da academia, quem tem que puxar são as empresas. Elas têm que adotar a inovação como mecanismo fundamental para se capacitarem para a competitividade. A lei de inovação permite a parceria entre empresas e pesquisadores e a SBPC estimula isso.

FOLHA - Mas a lei não parece estar funcionando bem.
RAUPP
- Porque não temos tradição. O diálogo ainda é difícil.

FOLHA - A empresa ter uma base dentro da universidade funciona?
RAUPP
- Sim, há vários mecanismos que se deve adotar. É preciso ter parques tecnológicos, por exemplo, que são locais neutros, nem na empresa nem na universidade, onde há essa aproximação para desenvolver projetos visando a inovação.

FOLHA - A SBPC discutiu muito a política para o etanol. Alguns vêem risco de o biocombustível começar a derrubar floresta. Outros acham que o país pode ficar para trás na pesquisa e perder a liderança no setor. Qual é sua opinião?
RAUPP
- É evidente que o risco maior é ficar para trás: não fazer nada e ficar sem agregar tecnologia cada vez mais intensivamente ao produto. A cana não faz pressão na mata hoje, ainda. A Embrapa mostra que a área disponível para cultura fora da floresta é grande.
Metade das áreas agricultáveis ainda está disponível no cerrado, na região da mata atlântica e áreas tradicionais.

FOLHA - O senhor critica as desigualdades regionais, principalmente a situação da Amazônia, onde faltam pesquisadores.
RAUPP
- Sim, um dos pontos nessa questão é a justiça federativa. Todos os cidadãos pagam impostos federais e eles têm de retornar para a sua região proporcionalmente. Então, se você olhar a participação dos Estados da Amazônia no PIB nacional, é algo da ordem de 8% a 9%. E quanto é que eles têm recebido? Na faixa de 2,5% dos investimentos federais em ciência e tecnologia.
Isso significa que a Amazônia está ajudando a financiar a ciência no resto do país. E essa situação não pode ser permanente, porque desenvolver a Amazônia é estratégico.

FOLHA - Cientistas reclamam da legislação burocrática para coletar material biológico. Farmacólogos dizem não conseguir trabalhar. Como está o diálogo com o governo?
RAUPP
- A SBPC participa da proposta de um projeto de lei que o governo ainda quer mandar para o Congresso. Temos um grupo de trabalho e fazemos propostas. O Ministério do Meio Ambiente já discutiu isso diretamente com a gente, mas é um processo complexo. O problema é que a medida provisória que existe [para regulamentar a coleta] trata muito mal os pesquisadores, trata-os como quem trata um pirata, um camarada que quer pegar uma coisa para uso comercial.

FOLHA - Mas o que pode ser feito para diminuir a burocracia?
RAUPP
- Nós queremos que o controle seja feito pelas instituições, que são normalmente instituições públicas e universidades públicas. Por que não atribuir a elas uma responsabilidade de controle da destinação desses produtos que eles estão coletando lá [nas florestas]? Assim como na experimentação animal, isso tem que ter uma regra geral, mas a distribuição de responsabilidade pelo controle sobre se a coisa está sendo feita de acordo com a lei tem que ser distribuída.

FOLHA - Mas a questão da experimentação animal está bem mais avançada, não é?
RAUPP
- Sim. Mas nunca se sabe. As coisas mudam de repente. A gente achava, por exemplo, que o Supremo fosse se manifestar muito mais decisivamente em favor da constitucionalidade da Lei de Biossegurança, mas foi pau a pau.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Berimbaus, boicotes e avaliação

NAOMAR DE ALMEIDA FILHO


É inaceitável que um jovem de classe privilegiada seja incapaz de retribuir, de modo decente, para uma justa avaliação institucional
FSP

NOSSA FACULDADE de Medicina, no ano do seu bicentenário, fracassou na avaliação do Enade. O coordenador do curso, ao explicar o fiasco, culpou as cotas e a inferioridade intelectual dos estudantes. Para ilustrar seu argumento, alegou que o berimbau, símbolo da musicalidade baiana, tem só uma corda, o que comprovaria a suposta deficiência cognitiva dos baianos.
Considerei suas declarações discriminatórias, eivadas de insensibilidade cultural e ignorância antropológica. Infelizmente, o episódio contribuiu para ofuscar um tema chave para o futuro da universidade brasileira: avaliação.
Agora que a notícia saiu do foco da mídia, podemos refletir melhor sobre o caso. De pronto, descarto a hipótese de "contaminação pelas cotas". Mesmo porque a turma reprovada entrara na universidade em 2001, quatro anos antes do advento do programa de ações afirmativas.
Também não se vê falta de recursos docentes e pedagógicos. O curso de medicina da UFBA tem três alunos por docente e conta com 609 leitos em hospitais de ensino. Harvard, a melhor escola do mundo, não exibe tão vantajosa relação aluno/professor; nem a medicina da USP, com o complexo do Hospital das Clínicas, oferece possibilidades de prática docente-assistencial em tal proporção. Seria o caso, portanto, de gestão acadêmica incompetente.
Entretanto, há evidências de que essa reprovação no Enade se deve, em grande parte, a boicote. Vários órgãos de imprensa publicaram depoimentos de formandos que, protegidos pelo anonimato, reconheceram-se apressados em viajar para submeter-se a exames de seleção para residência médica ou concursos públicos.
Recuperamos a lista dos sorteados para o exame. São 86 graduados. Todos obtiveram excelentes resultados nos processos seletivos a que se submeteram. Não lhes faltam talento e capacidade: o coeficiente de rendimento médio do grupo é 85%.
A atitude deles revela egoísmo, descompromisso e deslealdade para com a instituição que os acolheu. Antes das cotas, por causa da perversidade do vestibular, o curso de medicina da UFBA era quase monopólio da elite. É inaceitável que um jovem oriundo de classes privilegiadas, ao receber formação profissional em carreira de alta valorização social e financeira -sem pagar um centavo, numa instituição pública mantida com o dinheiro dos contribuintes-, seja incapaz de retribuir, de modo decente, para uma justa avaliação institucional.
Além disso, o diretório acadêmico admite ter fomentado boicote à prova, atendendo a uma diretiva da sua entidade nacional. Essa possibilidade me revolta profundamente não só como gestor público, mas sobretudo enquanto cidadão que tem uma história de luta política, no movimento estudantil e nos movimentos da renovação médica e da reforma sanitária.
Todos nós que arriscamos as carreiras (alguns, a vida) atuando clandestinamente para reativar diretórios estudantis declarados proscritos pelo regime militar -e todos aqueles que, geração após geração, mantiveram acesa a chama do movimento estudantil na universidade- nunca imaginamos ver tal situação: agremiações estudantis aparelhadas para boicotar processos avaliativos públicos, contribuindo para depreciar o legado político da universidade brasileira.
Sinto-me frustrado como educador. Sei que não há inocentes. Os sabotadores são pessoas adultas e devem saber os danos que causaram a si próprios e à instituição.
Mas não acredito ser justo identificá-los como os únicos culpados. Também culpados são gestores e docentes, cúmplices de sabotagem da avaliação da universidade pública, que permitem que nossos cursos formem sujeitos que, mesmo tecnicamente competentes, mostram-se individualistas, alienados, arrogantes, capazes do mais vil desapreço para com sua instituição formadora.
Esse episódio atinge todos os estudantes e profissionais formados em escolas médicas públicas. Há uma mácula, indelével, para os que se graduarem em escolas reprovadas em avaliação oficial do MEC. E o que dizer da decepção para muitas gerações que se formaram nessas escolas?
Orgulho-me do meu curso de medicina, ainda no belo prédio do Terreiro de Jesus. Servi 15 anos de minha carreira na Faculdade de Medicina como professor de epidemiologia. Os professores atuais foram, em maioria, colegas e, muitos deles, alunos.
Esses são os motivos que me levam a expor, neste comentário, sentimentos de indignação, repúdio, frustração e vergonha, para além de minhas atribuições como reitor de uma universidade pública de tão rica história e tradição como a UFBA.


NAOMAR DE ALMEIDA FILHO , 55, doutor em epidemiologia, pesquisador do CNPq, professor titular do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA (Universidade Federal da Bahia), é reitor dessa universidade.

domingo, 25 de maio de 2008

Os dez mitos sobre as cotas

OS 10 MITOS SOBRE AS COTAS

Vamos ao ping-pong das cotas. Aqui o texto pedido por vocês para que fosse publicado. Coloco os mitos. No link se tem o texto na íntegra, discutindo cada ponto.

1- as cotas ferem o princípio da igualdade, tal como definido no artigo 5º da Constituição, pelo qual “todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza”. São, portanto, inconstitucionais.

2- as cotas subvertem o princípio do mérito acadêmico, único requisito que deve ser contemplado para o acesso à universidade.

3- as cotas constituem uma medida inócua, porque o verdadeiro problema é a péssima qualidade do ensino público no país.

4- as cotas baixam o nível acadêmico das nossas universidades.

5- a sociedade brasileira é contra as cotas.

6- as cotas não podem incluir critérios raciais ou étnicos devido ao alto grau de miscigenação da sociedade brasileira, que impossibilita distinguir quem é negro ou branco no país.

7- as cotas vão favorecer aos negros e discriminar ainda mais aos brancos pobres.

8- as cotas vão fazer da nossa, uma sociedade racista.

9- as cotas são inúteis porque o problema não é o acesso, senão a permanência.

10- as cotas são prejudiciais para os próprios negros, já que os estigmatizam como sendo incompetentes e não merecedores do lugar que ocupam nas universidades.



enviada por Luis Nassif

terça-feira, 13 de maio de 2008

Universidade pública se associa a shopping para ampliar câmpus


Federal de Pelotas receberá 15% do lucro de empreendimento coordenado uma das fundações que a apóiam

Elder Ogliari OESP

A Universidade Federal de Pelotas (UFPel), no Rio Grande do Sul, construirá a extensão de seu câmpus junto a um shopping center. Não se trata apenas de usar espaço do shopping, como já ocorre com algumas instituições particulares (mais informação nesta página). Por meio de uma fundação que apóia a universidade, a instituição federal receberá mensalmente parte dos lucros do empreendimento em troca da cessão de parte de um terreno para a construção das lojas.

A associação não foi contestada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), onde o processo foi parar, e é bem vista na cidade de 340 mil habitantes, localizada 250 quilômetros ao sul da capital Porto Alegre. Mas deixou parte da comunidade universitária apreensiva, tanto por misturar educação com comércio quanto por nunca ter sido exposta claramente a docentes e alunos.

Conhecido como Shopping do Porto, o projeto foi lançado em março deste ano e prevê a recuperação de prédios abandonados do antigo Frigorífico Anglo e a construção de novos edifícios num terreno de 12 hectares à margem do Canal São Gonçalo, região degradada da cidade.

O complexo abrigará as instalações da reitoria da UFPel e de algumas unidades acadêmicas e, em espaços contíguos, 152 lojas, 6 salas de cinema, supermercado e parque de diversões. A inauguração está prevista para abril de 2009.

O projeto é comandado pela Fundação Simon Bolívar (FSB), uma das três fundações de direito privado que apóiam a universidade. A FSB arrematou o terreno em um leilão judicial por R$ 700 mil no final de 2005. Cedeu parte dele para a UFPel, que já começou a reformar e construir suas novas instalações. Em seguida, procurou parceiros para o empreendimento comercial.

A Construtora Arce, de Curitiba, entrou como sócia investidora-incorporadora. A VS Planejadora e Administradora de Shoppings, do Rio, será a administradora.

REPASSE DE LUCROS

O custo do projeto, R$ 70 milhões, será bancado pelos investidores privados e pelos lojistas. A FSB ficará com 15% do lucro do empreendimento, estimado em R$ 500 mil mensais, com o compromisso de repassá-lo à UFPel.

“A universidade ganhou o espaço e se beneficiará da manutenção, vigilância e acessos aos prédios, além da receita transferida pela fundação”, informa Plínio Conter, assessor da reitoria. O TCU não fez objeção à doação do terreno de uma fundação de direito privado a uma universidade pública.

O empreendimento é questionado por parte da comunidade acadêmica, tanto por ter sido decidido sem debates, quanto por misturar educação e comércio. “Não dá para dizer que há irregularidades, mas também não há transparência”, comenta o professor de Ciências Políticas e ex-presidente da Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições do Ensino Superior (Andes), Luiz Carlos Lucas.

O professor aposentado Sérgio Barum Cassal, presidente da Associação dos Docentes da UFPel (Adufpel), considera “estranha” a mistura da universidade com um centro comercial. “Talvez seja interessante para a iniciativa privada, mas do ponto de vista educacional, o movimento de um shopping center não parece compatível com um ambiente de estudos”, avalia Cassal.

O reitor da UFPel, Antônio Cesar Gonçalves Borges, e a diretora-presidente da FSB, Lisarb Crespo da Costa, não responderam aos contatos do Estado solicitando entrevistas.

O Ministério da Educação informou que não comentaria o assunto.

PERFIL

Criação: 12 de dezembro de 1960

Cursos: 59 (53 de graduação, 3 técnicos e 3 de formação de professores)

Alunos: 8 mil (ensino médio e superior)

Corpo docente: 800 professores

Câmpus: Capão do Leão (reitoria), Palma, Saúde, Ciências Sociais, unidades dispersas, Conjunto Agrotécnico Visconde da Graça

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Universidade paga não segue lei de professor exclusivo

Menos da metade das escolas privadas tem um terço dos docentes em regime integral

Norma existe para incentivar a pesquisa e melhorar o ensino; até hoje, MEC não puniu nenhuma escola fora da regra

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

FÁBIO TAKAHASHI
DA REPORTAGEM LOCAL

Só 37 das 86 universidades privadas (43%) cumprem a exigência legal de ter um terço dos docentes trabalhando em regime integral, aponta o Censo da Educação Superior 2006 (mais recente). O prazo para adequação acabou há quatro anos, mas o MEC ainda não descredenciou nenhuma instituição.
A exigência é da Lei de Diretrizes e Bases, de 1996. De acordo com o MEC, as universidades ainda serão reavaliadas. As que não cumprirem a norma podem perder o título de universidade -o que tira delas o direito de ampliar e abrir cursos sem prévia autorização.
O objetivo de ter professores em tempo integral é incentivar a pesquisa e oferecer melhores condições de ensino (com horário remunerado para preparação de aulas e correção de provas, por exemplo).
Nesse regime, a carga horária é de 40 horas semanais, mas somente metade em sala de aula. O professor com dedicação exclusiva custa à instituição mais caro do que um pago por hora, já que este último pode ficar 100% do tempo em sala.
Nas 90 universidades públicas no censo, apenas seis não cumprem a lei -quatro delas cobram mensalidades.
O Enade (exame de alunos do governo federal) sugere que a proporção de docentes com dedicação integral influencia na qualidade. Nas dez instituições com menor proporção, as médias de cada universidade (feitas a partir de todos cursos avaliados) variaram entre 2,5 e 3,3 (escala de 0 a 5). Nas com mais docentes em regime integral, a variação foi de 3,5 a 4,4.
"A presença do professor o tempo todo na universidade e o envolvimento dos estudantes em outras atividades fora da sala de aula fazem diferença na formação", afirma Oscar Hipólito, professor do Instituto de Física da USP (São Carlos) e pesquisador do Instituto Lobo.
Professor da pós-graduação em Educação da PUC-SP, Marcos Masetto afirma que os docentes sem dedicação integral têm dificuldades para se atualizarem e planejar seus cursos.

Legislação
O decreto de 1997 que regulamentou a lei fixou prazos intermediários com metas a serem atingidas e acompanhadas. Previa ainda que o descumprimento resultaria na reclassificação da universidade em centro universitário, instituição com menos autonomia para abrir cursos. Isto, no entanto, nunca foi colocado em prática.
O diretor de Regulação e Supervisão da Educação Superior do MEC, Dirceu Nascimento, afirma que, no momento, o ministério levanta os dados para o recredenciamento das escolas: "Todas serão reavaliadas. Existe a exigência de que a avaliação seja feita ao longo de dez anos. Será exigida a adequação à lei".
O presidente da Associação Brasileira de Universidades Comunitárias e do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, Gilberto Garcia, afirma que a lei deixa claro que é preciso ter ao menos um terço dos docentes em regime integral. Segundo ele, no entanto, as comissões do MEC que visitam as universidades, em geral, colocam o item apenas como mais um entre outros aspectos a compor a avaliação final.
O presidente do CNE (Conselho Nacional de Educação), Edson Nunes, diz que o artigo da lei é frágil por dar margem a várias interpretações. Para ele, houve descuido do governo, "que criou suas próprias universidades sem produção intelectual e credenciou instituições com base em precária verificação de pesquisa".
"Mas não adianta culpar o MEC. Uma lei ruim, que define universidade por operação aritmética, só produz regulação ruim", afirma Nunes.
No ano passado, a pedido do MEC, o CNE enviou parecer, ainda não homologado, sobre a aplicação da lei e com outras sugestões para o setor. A mais rígida era a exigência de mais de cinco programas de pós-graduação stricto sensu, sendo ao menos um de doutorado.
Em 2006, 62% das universidades não cumpririam esse critério. O percentual era de 79% entre privadas, 64% nas estaduais e 28% em federais.

domingo, 11 de maio de 2008

'Não queremos roubar cérebros brasileiros'

Ao ‘Estado’, Siganos diz que governo francês quer acelerar processo de cumplicidade científica e cultural entre os países

Renata Cafardo OESP

A França acredita que o Brasil pode ajudá-la a se desenvolver em áreas como ambiente, telecomunicações, engenharia. Mas André Siganos, diretor-geral da Agência CampusFrance, órgão do governo francês responsável pela divulgação sobre estudos no país, garante que a França não quer roubar cérebros brasileiros. “Os estudantes brasileiros que vão para a França regressarão ao País, com certeza. É uma maneira de acelerar um processo de cumplicidade científica e cultural”, diz, em entrevista ao Estado.

Na semana passada, ele esteve no País participando de um evento que organizou encontros entre brasileiros e representantes de universidades na França. Hoje são cerca de 5 mil alunos do Brasil no país europeu, 50% em acordos de duplo-diploma ou parcerias institucionais. Para aumentar esse número, a CampusFrance passou recentemente a facilitar processos, permitindo que estudantes se inscrevam nas universidades por meio da agência, recebendo documentos em português e ajudando na obtenção do visto.

Siganos garante que os brasileiros são mais do que bem-vindos: “Seria hipócrita dizer que todos os alunos estrangeiros são iguais e que os estabelecimentos franceses recebem da mesma maneira. Quer dizer, no discurso, sim. Mas preferem receber um aluno brasileiro do que de outro país que não tenha a mesma habilidade para perceber rapidamente a cultura francesa, a maneira de trabalhar à francesa.”

Existe um interesse especial da França em estudantes brasileiros?

Claro. A Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ligada ao MEC) está dando bolsas para brasileiros irem para a França. Há áreas que os governos consideram estratégicas para os dois países: ambiente, desenvolvimento sustentável, telecomunicação, engenharia, certos campos da medicina. Estamos desenvolvendo uma série de duplo-diplomas, o melhor instrumento de intercâmbio científico e acadêmico, com grande igualdade. A França e o Brasil consideram o ensino superior como um bem público, não como um bem de mercado. A conseqüência disso é que não estabelecemos parcerias que não respeitem a igualdade do intercâmbio e não fazemos fuga de cérebros (brain drain). Os estudantes brasileiros que vão para a França vão regressar ao País, com certeza. E também os franceses, que vão conhecer bem o país do outro, a cultura, a língua, os valores. É uma maneira de acelerar um processo de cumplicidade científica e cultural.

Quantos estudantes brasileiros há na França atualmente?

Hoje há 2 mil bolsistas, em mestrado e doutorado, e um total de 5 mil estudantes brasileiros. Há 72 acordos de duplo-diploma com o Brasil. E há na USP cerca de cem franceses. Mas o interessante é que a porcentagem de estudantes brasileiros em acordos universitários, como duplo-diploma, é de 50%. Esse número é bem elevado - entre outros países o índice costuma ser de 10%. O restante dos alunos vai sem nenhum acordo. A porcentagem do Brasil é a meta que tentamos atingir para o resto do mundo em dez anos. A vantagem é que no Brasil tivemos há anos uma estruturação com a Capes, as relações são mais avançadas.

Entre estudantes internacionais, qual é a nacionalidade com o maior número de estudantes?

Se falarmos do estudante que não fica muito tempo, estuda seis meses e vai embora, os americanos são os mais numerosos, cerca de 10 mil. Eles vão para aprender francês, só uns mil alunos ficam e estudam seriamente. Já entre brasileiros são 2 mil. Mas o que mais temos são alunos de países europeus, principalmente alemães, além dos chineses, que já são 15 mil.

A França tem o mesmo tipo de política de educação com a China?

Não existe a mesma confiança entre França e China. Brasil e França trabalham na África, por exemplo, com a mesma filosofia. Há o respeito dos valores, do ambiente, da população. Os chineses não fazem isso, estão em busca de matéria-prima, para resolver os problemas deles. E eles não vêem o ensino superior como um bem público.

Todas as universidades francesas aceitam brasileiros?

O estudante brasileiro na França nunca teve nenhum problema. Seria hipócrita dizer que todos os alunos estrangeiros são iguais e que os estabelecimentos franceses recebem da mesma maneira. Quer dizer, no discurso, sim. Mas preferem receber aluno brasileiro do que de outro país que não tem a mesma habilidade para perceber rapidamente a cultura francesa, a maneira de trabalhar à francesa. Os brasileiros se acostumam rapidamente e vice-versa. Existe essa cumplicidade cultural. Nos sentimos bem mais perto dos brasileiros que dos americanos, por exemplo.

No que a CampusFrance pode ajudar os brasileiros?

É um espaço que pode dar todas as informações sobre instituições na França, da vida universitária, sobre como ingressar. Podem ser feitas pesquisas temáticas sobre o que querem estudar. Agora, também, antes de receber o visto, os alunos precisam mostrar para a CampusFrance o seu projeto acadêmico, dizer por que querem ir para a França, e a agência ajuda nisso. Todos os documentos que o aluno tem de oferecer são traduzidos. Isso tudo vai acelerar os processos no consulado para dar o visto o mais depressa possível. Esse sistema começou há três anos na China e agora está funcionando em 30 países considerados mais importantes para a França.

E o Brasil é um deles.

Sim, precisamos de acordos muito precisos com o Brasil. Há 10, 20 anos se fazia acordos muito gerais. Não vamos intercambiar estudantes de qualquer área, e sim seguir uma estratégia. Em certos campos científicos, o Brasil é melhor que nós - em telecomunicações, por exemplo. Em matemática, o Brasil já começa a ser um dos melhores do mundo. Em informática e química aplicada ao meio ambiente, também.

sábado, 10 de maio de 2008

MEC quer usar Sistema S para criar 1,5 milhão de vagas no ensino técnico

Em proposta polêmica, governo propõe reformular distribuição da verba; para setor, medida reduziria atendimento

Simone Iwasso OESP

De olho na maneira como são usados anualmente mais de R$ 8 bilhões, o governo federal finalizou um projeto de lei que propõe a reformulação da distribuição de recursos no chamado Sistema S, conjunto de entidades responsáveis por qualificação de mão-de-obra e oferta de cultura e assistência para funcionários da indústria e comércio, como Senai, Sesi e Sesc. A proposta, polêmica e alvo de discussões acirradas, cria um fundo nacional para o ensino técnico e impõe um mecanismo de competição entre as unidades regionais pela verba.

O objetivo do governo seria criar 1,5 milhão de vagas gratuitas de ensino profissionalizante de nível médio no País ao ano, um dos desafios atuais do setor. Mas, para isso, o projeto encampado pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, muda a lógica do sistema, criado há cerca de 70 anos. Hoje, 2,5% dos salários dos funcionários da indústria e do comércio de todo o País são retidos para manter o Sistema S. Desses, cerca de 60% vão para cultura e assistência - como todas as atividades do Sesc, por exemplo. Os outros 40% são distribuídos para atividades educacionais, como cursos de qualificação, formação industrial e tecnológicos - alguns gratuitos, outros pagos. Na prática, é uma verba pública administrada pelo setor privado, tendo como meta atender às demandas do setor produtivo.

A maior mudança proposta pelo ministério é o fim da remissão direta do dinheiro para o Sistema S. A verba passaria a ser concentrada em um fundo nacional de formação técnica e profissional. Dessa forma, cerca de 80% do recurso seria repassado para cada curso oferecido, conforme o número de vagas gratuitas que oferecerem no ensino profissional de nível médio. Com isso, cursos de menor duração, que hoje são a maioria, ficariam sem financiamento, e haveria estímulo para as unidades investirem em cursos mais longos e gratuitos.

“O sistema não foi criado para ser política pública”, rebate o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), deputado Armando Monteiro (PTB-PE). “É claro que é preciso investir mais em ensino médio e atrelá-lo à educação profissionalizante, mas não é nossa função fazer isso.” Segundo ele, programas educativos atendem a demandas da indústria.

“Foi investindo no atendimento à demanda da indústria que conseguimos competitividade internacional”, diz ele. A mudança de foco é criticada também pelo diretor regional do Senac-SP, Luiz Francisco de A. Salgado. “É um erro achar que curso de duração menor forma uma pessoa menos qualificada. Além disso, 51% das matrículas são gratuitas.”

Contrariando as expectativas do governo, que calcula que a mudança permitiria atender 1,5 milhão de jovens no ensino técnico de nível médio, eles estimam que haveria redução: dos atuais 2,1 milhões de pessoas que passam anualmente por algum dos vários cursos oferecidos nas entidades para 230 mil na modalidade.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

MEC deveria fechar escolas de medicina, diz ex-professor

Diretor do hospital A. C. Camargo diz que, se metade dos cursos fossem fechados, ainda sobrariam médicos

O MÉDICO E EX-PROFESSOR da USP Ricardo Brentani, um dos diretores do hospital A. C. Camargo (antigo Hospital do Câncer), de São Paulo, diz que o Ministério da Educação deveria fechar imediatamente todas as faculdades de medicina que se saírem mal em avaliações como o Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes). Na semana passada, 17 cursos foram reprovados no exame, e as faculdades agora serão monitoradas pelo MEC.
Confira trechos da entrevista de Brentani à Folha. (RICARDO WESTIN)

FOLHA - Por que existem tantas escolas de medicina de qualidade duvidosa no país?
RICARDO BRENTANI
- Todo mundo quer ser médico. Por causa dessa demanda, aparece uma porção de escolas de medicina ruins por aí, sem hospital-escola nem corpo docente qualificado, tomando dinheiro das pessoas. Nós ainda não entendemos que o diploma de médico não é um bem de consumo que fica disponível de acordo com a demanda. Não é porque você quer ser médico que você tem o direito de ser médico.

FOLHA - O Brasil deveria ter menos médicos?
BRENTANI
- Recomenda-se que haja um médico para cada grupo de mil pessoas. No Brasil, se fizermos as contas, temos um médico para 600 habitantes. É praticamente o dobro do número necessário. Isso quer dizer que, se fecharmos metade das escolas médicas, não vai faltar médico no país.

FOLHA - Mas há regiões onde faltam médicos...
BRENTANI
- Existe uma distribuição desigual. Isso tem a ver com remuneração, com dificuldade para chegar aos locais mais distantes, com segurança... Essa é outra questão. De qualquer forma, o número de médicos formados é mais do que suficiente. Nada justifica o Brasil ter mais de 170 escolas.

FOLHA - Há quem defenda a abertura de escolas de medicina nas regiões onde há poucos médicos.
BRENTANI
- Tudo bem. Mas se vai ser aberta uma escola lá, alguma tem de ser fechada aqui.

FOLHA - Como o senhor, no hospital A. C. Camargo, sente a má formação dos médicos?
BRENTANI
- Os médicos que chegam à residência do hospital são os melhores candidatos. Eles fizeram uma prova pública que é muito difícil. Mesmo assim, precisamos ensinar a eles os rudimentos, o bê-á-bá, coisas básicas que eles não aprenderam nem na escola nem em outra residência. Morre muito mais gente de câncer no Brasil do que no Primeiro Mundo.
Uma das razões é o médico sem formação, que não sabe fazer diagnóstico e não sabe tratar. O Ministério da Educação não deveria dar um ano de moratória às escolas de medicina ruins. Deveria fechá-las logo.

FOLHA - Isso resolve o problema?
BRENTANI
- Resolve. As escolas boas vão continuar funcionado e formando o número adequado de médicos. Veja o que ocorre com as pessoas que se formam em direito. Só 10% ou 15% deles conseguem passar no exame de Ordem. Os outros 85%, que tiveram uma formação deficiente, não vão ser advogados. Vão ser balconistas, motoristas de táxi...

FOLHA - O sr. citou como problemas a ausência de hospital-escola próprio e a falta de qualificação dos professores...
BRENTANI
- Várias vezes foi noticiado que essas faculdades particulares contratam professores com título de doutor às vésperas da avaliação do Ministério da Educação. Passada a avaliação, mandam todo mundo embora. Isso não pode acontecer. No caso do hospital-escola, está provado que os cursos de medicina com hospitais próprios são melhores. O aluno que vai para um hospital conveniado não tem a mesma formação. No hospital-escola, o corpo docente é o corpo clínico do hospital. A prioridade é o ensino, os pacientes são selecionados conforme a necessidade didática. Num hospital conveniado comum, o médico que está lá não é professor, não está preocupado em ensinar. E no hospital conveniado comum, a prioridade é atender aos pacientes. A estimativa é que metade das escolas médicas não tem hospital próprio. É uma aberração.

FOLHA - Por que ainda não foi tomada uma atitude concreta contra essas faculdades de medicina?
BRENTANI
- O ensino particular tem um lobby muito forte. É um negócio. As escolas privadas cobram muito caro por um ensino de baixa qualidade e, pelo visto, não falta trouxa [disposto a pagar].

FOLHA - Os médicos podem se beneficiar com o fechamento das escolas ruins?
BRENTANI
- A medicina é uma profissão mal remunerada, todo mundo sabe disso. Mas por quê? Porque há uma oferta enorme de médicos no mercado, sempre existe um médico disposto a trabalhar ganhando menos. Com menos médicos, o salário tende a melhorar. E, pelo fato de os salários serem baixos, os médicos precisam trabalhar em vários hospitais para ter uma vida decente. Isso não lhes deixa tempo para estudar.

FOLHA - Por que as escolas ruins ainda não foram fechadas?
BRENTANI
- Não é um problema só deste governo. O Paulo Renato [ministro da Educação do governo Fernando Henrique Cardoso] inventou o sistema de avaliação [do ensino superior]. Fez avaliações, mas não passou disso. Não culpo este ou aquele governo. Não é uma questão política ou partidária. É evidente que fechar uma faculdade de medicina é uma situação politicamente espinhosa. Se você fecha a única faculdade de medicina que existe numa cidade ou num Estado, você perde eleitor.

FOLHA - O sr. já viu o fechamento de alguma escola de medicina?
BRENTANI
- Nunca vi, mas adoraria ver.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Problema é a mercantilização, diz Lottenberg

DA REPORTAGEM LOCAL FSP

O médico oftalmologista Claudio Lottenberg, presidente do hospital Albert Einstein, de São Paulo, diz que um dos problemas das escolas médicas do Brasil é a falta de infra-estrutura. Segundo ele, que foi secretário municipal da Saúde na gestão José Serra (PSDB), os hospitais universitários funcionam mais como hospitais públicos do que como escolas. A seguir, trechos da entrevista. (RICARDO WESTIN)


FOLHA - O que o sr. pensa do mau desempenho dos cursos de medicina?
CLAUDIO LOTTENBERG -
Está havendo uma comercialização enorme da educação, com fusões e aquisições, todo um processo de mercantilização. E isso muitas vezes ocorre em detrimento da qualidade.

FOLHA - Como se pode ver essa falta de qualidade?
LOTTENBERG -
Para formar gente boa, é preciso ter uma estrutura especial, principalmente o hospital-escola. No primeiro e no segundo ano, o curso é teórico. No terceiro ano, passa a ser cada vez mais prático. O problema é que o hospital-escola de muitas faculdades não tem infra-estrutura. Funciona como se fosse hospital público comum. Os professores não estão lá orientando, e os médicos que estão lá trabalhando não têm como orientar os estudantes. Eu, por exemplo, sou um oftalmologista, mas isso não quer dizer que tenho condições de ensinar oftalmologia a estudantes de medicina. Além disso, os pacientes nesses hospitais não são os pacientes aos quais um aluno deve atender. O hospital-escola é para treinar, e o hospital público é para atender à população. São diferentes.

FOLHA - Como é a formação teórica dos estudantes?
LOTTENBERG -
Também tem problemas. O papel do professor está distorcido. Como é contratado com péssimas remunerações, está mudando o foco da atenção. Em vez de se concentrar nas aulas, o professor está mais preocupado com os protocolos de pesquisa. O médico sai mal preparado da universidade. Isso é uma decepção enorme para nós que acreditamos numa saúde melhor para o país.

Dos cursos médicos mal avaliados, 3 estão em SP

Unimar (Marília) teve pior resultado, seguida de Unaerp (Ribeirão Preto) e Unimes (Santos)

Unimar diz que alunos boicotaram Enade porque instituição antecipou formatura que fora marcada para a véspera do exame

RICARDO WESTIN
DA REPORTAGEM LOCAL FSP

Dos 17 cursos de medicina que serão vigiados pelo Ministério da Educação por causa de maus resultados, três ficam no Estado de São Paulo. São todos de universidades privadas.
A mais mal avaliada foi a Unimar (Universidade de Marília), que cobra mensalidade de cerca de R$ 3.500. Em seguida, vieram a Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto) e a Unimes (Universidade Metropolitana de Santos).
Tanto a reitoria quanto os alunos da Unimar dizem que seu curso de medicina foi injustamente classificado como o pior do país. O problema, dizem, ocorreu por causa da data da formatura dos estudantes.
O jantar, a colação de grau e o baile estavam marcados, respectivamente, para os dias 8, 9 e 10 de novembro de 2007. O Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), uma das bases para a avaliação do MEC, foi aplicado no dia 11.
Para evitar que os alunos fizessem a prova recém-saídos do baile -todos poderiam estar cansados e alguns, alcoolizados-, a reitoria decidiu adiantar as datas em uma semana.
A colação de grau foi, então, realizada no dia 2 de novembro, Dia de Finados. Os formandos não gostaram.
Como revanche, segundo a versão da reitoria, os estudantes boicotaram o Enade.
"O ministério deveria dar alguma responsabilidade ao aluno. O ônus é todo da escola. Por causa do boicote, quem sofreu a pena não foi o aluno. Ficamos tachados como uma universidade de qualidade inferior", diz o pró-reitor de graduação da Unimar, José Roberto Marques de Castro.
O presidente do diretório acadêmico do curso de medicina, Antonio Padron, 26, diz que o curso da Unimar tem qualidade. "Em relação à teoria, os alunos sabem até demais. O problema foram as datas", diz ele.

"Boicote"
Procuradas, a Unaerp e a Unimes informaram que se manifestariam só após a comunicação oficial dos resultados. "Acreditamos que possa ter ocorrido algum engano ou boicote por parte dos alunos", informou a Unaerp.
A Unimar dividiu o posto de pior escola médica com a Unig (Universidade Iguaçu), que também é particular e fica na região metropolitana do Rio. A Unig informou que só o coordenador do curso de medicina poderia se pronunciar, mas que ele já havia deixado a instituição no horário em que a Folha procurou a instituição, às 18h.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Reforma universitária - importância social

Charles Mady

OESP

Muito tem se discutido e pouco tem sido realizado no tema referente à reforma da universidade para melhor adaptá-la às nossas necessidades sociais e o quanto a atual estrutura inibe - e até impede - que ela sirva de maneira mais adequada à nossa população. Para quem vive dentro dela, e também para ela, fica uma desagradável impressão de que a universidade está isolada de nossa realidade, isolada da maioria que necessita urgentemente de uma atuação eficaz, saindo de baixo da redoma de vidro sob a qual ela vive.

Um grande problema está na visão de produção de profissionais por meio da rápida especialização, pois o assim chamado mercado o exige, conceito esse que se casa perfeitamente com a necessidade de sobrevivência dos recém-egressos dos cursos de graduação e pós-graduação. É uma corrida contra o tempo, abrindo-se mão da qualidade. Esses jovens profissionais serão apenas peças dessa máquina de produção e consumo, em que irão competir de forma selvagem por melhores resultados o resto de sua vida produtiva. Vão viver dentro de um curral intelectual, não dedicando tempo algum a nada além dos limites de seus campos de interesse, sem terem noção do que ocorre ao seu redor, perdendo a crítica sobre quase tudo o que acontece fora de seus limites, desumanizando-se.

Estamos formando técnicos de grande eficiência, esquecendo que as técnicas são um meio para se produzir grandes profissionais, e não um fim em si mesmo. Na medicina isso é devastador.

Num país como o nosso, extremamente necessitado de generalistas, observamos a grande migração de nossos alunos para áreas técnicas, em boa parte descomprometidos com as necessidades sociais. A sociedade, que mantém a universidade pública, não vê o adequado retorno desse empreendimento. Seus alunos irão servir às grandes empresas de saúde, de equipamentos e fabricantes de remédios, que seguramente têm outros interesses que não o bem-estar da população.

Não há a menor dúvida que é fundamental o desenvolvimento de tecnologias de ponta. Quando, porém, observamos que sabemos transplantar o coração de pacientes com doença de Chagas, mas não temos remédios para tratar a causa da moléstia, algo de profundamente errado está ocorrendo. Ou quando observamos os esforços mais que elogiáveis na pesquisa sobre células-tronco, com todos os recursos técnicos e financeiros disponíveis, ocorrerem paralelamente a um mortal surto de dengue, somos obrigados a refletir a respeito. E a perguntar se a universidade não estaria isolada do povo. Fica a impressão de que os desenvolvimentos tecnológicos e científicos são realizados sem se levarem em consideração os interesses da maioria da população.

A nossa parcela de responsabilidade por esse processo é grande. Quando se discutem itens fundamentais de uma reforma universitária, as questões ficam muito mais centradas em estruturas e organogramas do que na reforma de mentalidades de seus componentes. Quantos de nós estão realmente comprometidos com a universidade? Quantos de nós enxergam a universidade como um fim, e não como um meio? Quantos de nós têm na universidade um projeto institucional, e não pessoal? E quanto desses projetos privilegia uma minoria, em detrimento da maioria? Quando discutimos, devemos abordar os problemas maiores com grande objetividade, sem medo, para não corrermos o risco de realizar reformas apenas cosméticas. Devemos perguntar, por exemplo, quanto tempo cada qual de nós dedicou às aulas de graduação e pós-graduação. Devemos perguntar, sem medo, por que aulas em outras cidades e outros Estados, devidamente patrocinadas pela indústria, são tão disputadas, enquanto muitas vezes há enorme dificuldade em agrupar alguns professores para ministrar os cursos oficiais.

Será que a universidade realmente se tornou meio, e não fim? Será que estamos perdendo a paixão pela universidade, que tanto nos deu? Se a paixão pela atividade acadêmica desaparece, desaparece a qualidade, com alto prejuízo para a atividade intelectual. Para piorar, o ensino está sendo marginalizado em benefício das atividades de pesquisa. Hoje em dia há inúmeros índices para avaliar os méritos da produção científica, produção essa que determina a evolução na carreira universitária, gerando como conseqüência uma enormidade de publicações, boa parte delas repetitivas, redundantes, com ampla valorização dos métodos, em detrimento das idéias.

Que índices há para avaliar atividades didáticas? Digo com freqüência que valorizo muito aulas em ambientes acadêmicos, a presença do professor em enfermarias e ambulatórios e discussões com internos e residentes. É o chamado 'currículo oculto', difícil de ser avaliado por qualquer índice. Mas essa é a nossa função mais nobre. Infelizmente, hoje escrevemos muito mais do que ensinamos. Nós nos preocupamos muito com quem vai entrar na universidade, mais do que como esses alunos vão sair. O compromisso maior deverá ser com uma reforma de mentalidades, portanto, cultural, muito mais do que com uma reforma estrutural. Qualquer reforma deverá compatibilizar a pesquisa e a assistência ao ensino, de forma equilibrada. Caso contrário, não terá sentido e estará fadada ao fracasso. E a universidade perderá a oportunidade de atuar de forma profunda na elaboração de novas condutas sociais.

Esses temas merecem longas e árduas discussões. Devemos ter como uma das missões mais importantes atingir conclusões que possam beneficiar a universidade, para que esta possa participar, da melhor forma possível, da realização de um projeto social maior.

Charles Mady, professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, é diretor da Unidade de Miocardiopatias do InCor-HC-FMUSP