quinta-feira, 10 de julho de 2008

Estudo vê porta de entrada do vírus da gripe das aves


Cientistas identificam proteínas que "ajudam" o patógeno a infectar células

Pesquisa pode abrir nova frente de combate ao H5N1, foco de risco de pandemia; mídia esqueceu o perigo diz manifesto de cientistas


France Presse/Arquivo

Imagem de microscópio mostra o vírus da gripe aviária, o H5N1

RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCAL FSP

Cientistas dos EUA, do Japão e da Indonésia anunciam hoje a descoberta de três proteínas humanas aproveitadas pelo vírus da gripe das aves, o H5N1, para infectar células. O resultado da pesquisa veio de um estudo com moscas-das-frutas geneticamente modificadas para se tornarem suscetíveis à doença, de forma semelhante ao que ocorre com os mamíferos. Usando uma técnica especial para "desligar" os genes que produzem essas proteínas nos insetos, os animais de laboratório se tornaram imunes.
"O conhecimento existente sobre esses genes sugere o envolvimento em estágios particulares de infecção", disse à Folha Paul Ahlquist, virologista da Universidade de Wisconsin (EUA), um dos autores do estudo. "Com o acúmulo de trabalhos como este, passamos a entender mais aspectos sobre como é a integração total do vírus com a célula infectada."
O trabalho dos cientistas -publicado na edição de hoje da revista "Nature" (www.nature.com)- lista a descoberta de cem genes usados pelo vírus como porta de entrada das células das moscas. Três deles são aqueles que têm correlatos em humanos.
Apesar de o H5N1 ainda ser essencialmente um vírus de aves, mais de 500 casos de infecção em humanos já foram relatados mundo afora, com 243 mortes. Cientistas temem que o acúmulo de mutações do patógeno possa chegar a um ponto em que ele seja capaz de se transmitir de pessoa para pessoa, desencadeando uma pandemia catastrófica.
"Isso [a identificação dos genes] pode acelerar o desenvolvimento de novas classes de drogas (...), que serão necessárias com urgência frente aos obstáculos para o desenvolvimento rápido de uma vacina efetiva contra a gripe pandêmica", escrevem os cientistas.
Conhecer proteínas dos hospedeiros que "ajudam" o vírus na infecção é difícil, em parte, porque os genomas de mamíferos são grandes e repetitivos (há muitos genes diferentes com função semelhante). Além disso, a estratégia de desligamento de genes em camundongos, diz Ahlquist, ainda é bem trabalhosa. Desenvolvendo uma maneira de infectar as moscas com o H5N1, os cientistas conseguiram acelerar um bocado o trabalho, mas ainda não existe certeza sobre se os genes descobertos poderão ser alvos diretos para drogas.

O risco esquecido
A "Nature" também publica hoje dois manifestos assinados por cientistas, que reclamam de obstáculos para a pesquisa de técnicas contra a gripe.
Alice Dautry, diretora do Instituto Pasteur, de Paris, afirma em texto assinado com outros dois colegas que o desinteresse da mídia sobre o tema tem alimentado o desinteresse de governos. É preciso mais empenho, diz, em estocar vacinas para a gripe comum, que seria uma ajuda indispensável numa eventual epidemia de H5N1.
"Vacinas contra uma linhagem pandêmica podem levar até seis meses para serem produzidas e distribuídas", escreve. Isso é tempo demais em uma pandemia. "Modelos recentes baseados em dados da gripe pandêmica de 1918 prevêem que de 50 milhões a 80 milhões de pessoas poderiam morrer", diz, "sobretudo em países em desenvolvimento".
Outro artigo, publicado por Steven Salzberg, da Universidade de Maryland (EUA), conclama cientistas a compartilharem mais os seus dados. Segundo ele, as vacinas contra gripe comum da temporada 2007/2008 falharam por razões que eram previsíveis. O problema teria sido evitado, diz, se cientistas da linha de frente tivessem disponibilizado seqüências de DNA à comunidade.

Nature 454, 177-182 (10 July 2008) | doi:10.1038/nature07082; Received 21 February 2008; Accepted 14 May 2008

Structure of the Ebola virus glycoprotein bound to an antibody from a human survivor

Jeffrey E. Lee1, Marnie L. Fusco1, Ann J. Hessell1, Wendelien B. Oswald1, Dennis R. Burton1 & Erica Ollmann Saphire1

  1. Department of Immunology and Microbial Science, The Scripps Research Institute, 10550 North Torrey Pines Road, Mail Drop IMM-2, La Jolla, California 92037, USA

Correspondence to: Erica Ollmann Saphire1 Correspondence and requests for materials should be addressed to E.O.S. (Email: erica@scripps.edu).

Ebola virus (EBOV) entry requires the surface glycoprotein (GP) to initiate attachment and fusion of viral and host membranes. Here we report the crystal structure of EBOV GP in its trimeric, pre-fusion conformation (GP1+GP2) bound to a neutralizing antibody, KZ52, derived from a human survivor of the 1995 Kikwit outbreak. Three GP1 viral attachment subunits assemble to form a chalice, cradled by the GP2 fusion subunits, while a novel glycan cap and projected mucin-like domain restrict access to the conserved receptor-binding site sequestered in the chalice bowl. The glycocalyx surrounding GP is likely central to immune evasion and may explain why survivors have insignificant neutralizing antibody titres. KZ52 recognizes a protein epitope at the chalice base where it clamps several regions of the pre-fusion GP2 to the amino terminus of GP1. This structure provides a template for unravelling the mechanism of EBOV GP-mediated fusion and for future immunotherapeutic development.


sexta-feira, 4 de julho de 2008

Projeto vai "desconstruir" a cana atrás de energia verde

EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL FSP

Três programas científicos anunciados ontem darão R$ 173 milhões até 2013 para armar cientistas brasileiros na guerra da bioenergia. Eles se destinam a "desconstruir" geneticamente a cana-de-açúcar, uma planta que é estratégica, mas cujas entranhas ainda não são bem conhecidas pelos cientistas -apesar de um projeto genoma dela já ter sido feito.
Os programas foram lançados na sede da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Serão liberados R$ 73 milhões até o fim deste ano e outros R$ 100 milhões entre 2009 e 2013.
Os recursos sairão dos cofres paulista, federal, mineiro e também da iniciativa privada. A gama de assuntos, em todos os casos, é grande. Até o impacto social da cultura da cana, cada vez mais hegemônica, será estudado. "Acredito que teremos projetos também nesse campo, não apenas do lado tecnológico", afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp.
O programa principal, no entanto, visa soletrar todo o DNA da planta. "Agora, vamos fazer o genoma completo", disse Marie-Anne Van Sluys, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. O projeto genoma anterior, encerrado em 2003 e comemorado pela comunidade científica, na verdade, revelou só as chamadas seqüências expressas da planta (pedaços de genes transcritos em moléculas de RNA).
"A pergunta importante é: Qual a diferença entre a cana e o arroz?", diz Van Sluys. Se for contado apenas o número de genes, tanto a cana quanto o arroz e até mesmo o homem estarão mais ou menos próximos. Todos têm entre 40 mil e 43 mil genes.
"O que faz da cana ser a cana?", pergunta a cientista. A resposta, disse ela, está também no desconhecido, nos 13% dos genes da cana que não foram ainda estudados.
A cana é considerada um grande "frankenstein" genômico porque muitas variedades foram cruzadas entre si.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Hospitais não estão preparados para lidar com a tuberculose

Falta política para setor que notifica cerca de 30% dos casos, alerta rede de pesquisadores

Fabiane Leite oesp

Cerca de 30% dos casos de tuberculose dos grandes centros urbanos do Brasil só são detectados quando o paciente tem sintomas agravados e chega aos hospitais, mas parte das unidades não está preparada para atendê-los. O resultado são índices maiores de mortalidade - 30%, quase 5 vezes o registrado onde a detecção é precoce -, além de taxas preocupantes de tuberculose resistente a antibióticos.

O quadro foi descrito durante o 3º Encontro Nacional de Tuberculose por Afrânio Kritski, presidente da Rede-TB, que reúne pesquisadores da doença. Segundo Kritski, estudos demonstram que hospitais tratam a tuberculose sem atender adequadamente às medidas de biossegurança, isto é, ações para proteger trabalhadores de saúde e por conseqüência o restante da comunidade da tuberculose, doença que registra cerca de 85 mil novos casos por ano no Brasil, além de 5 mil óbitos. O País é o 16º com o maior número de casos no mundo.

Inquérito inédito sobre tuberculose em 63 hospitais brasileiros localizados no Rio, Bahia, Rio Grande do Sul, Pará, Maranhão, Ceará, São Paulo, Pernambuco, Amazonas e Minas verificou que 14,3% não adotavam medidas administrativas de biossegurança e que 36,5% não atendiam a normas de engenharia para evitar que doentes contaminassem outras pessoas.

“Falta controle sobre casos que representam 30% do notificado pelos grandes centros. Necessitamos de uma diretriz nacional e, depois, de um plano para a tuberculose nos hospitais”, defendeu Kritski pouco antes do encerramento do encontro nacional sobre tuberculose, no último sábado, em Salvador.

Segundo o pesquisador, formas praticamente incuráveis da tuberculose têm surgido no mundo justamente em locais em que não há ações adequadas de controle da doença, como hospitais e prisões. São exemplos surtos ocorridos em hospitais da África do Sul, entre pacientes que também eram portadores do HIV. Também em países asiáticos, como a China, e no Leste Europeu a tuberculose resistente aos medicamentos tem surgido nesses locais.

Os primeiros casos de multirresistência no mundo, por exemplo, foram registrados no Hospital Muñiz, de Buenos Aires, entre 1991 e 2000.

De acordo com Kritski, estudo realizado entre 2004 e 2006 em seis hospitais do Rio, com avaliação de 595 pacientes, verificou taxa de resistência às drogas de 3,9% em pacientes tratados pela primeira vez, maiores do que o resultado atual para o Brasil. Só como alerta, o pesquisador lembrou que o inquérito sobre resistência a medicamentos contra a tuberculose que o Ministério da Saúde realiza já verificou taxa de 1,3% em pacientes virgens de tratamento - o estudo, em seis Estados, avaliou diferentes serviços de saúde.

HOSPITAIS ISOLADOS

Outro dado destacado pelo presidente da Rede-TB durante o encontro, demonstra que os hospitais trabalham isolados dos programas municipais de controle da tuberculose.

No mesmo inquérito realizado com 63 hospitais, foi verificado que em 55% não há fluxo de resultados de testes em pacientes com tuberculose para autoridades de saúde dos municípios - a tuberculose é uma doença de notificação compulsória, o que obriga as unidades a informarem as secretarias municipais de saúde. Segundo Kritski, o histórico recente da luta contra a tuberculose ajuda a explicar os resultados nos hospitais - programas centrados em postos de saúde e sob responsabilidade das prefeituras “esqueceram” dos pacientes internados. O governo concorda com a análise e busca solução.“Estamos trabalhando para a criação de manual para o atendimento da tuberculose em hospitais”, afirmou o coordenador do programa nacional de combate à doença, Draurio Barreira. “Os hospitais precisam de uma política.”

A repórter viajou a Salvador a convite do Ministério da Saude, Rede-TB e Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia







segunda-feira, 23 de junho de 2008

Biólogos buscam na natureza receita do etanol de celulose

Cientistas vasculham plantas e animais à procura das enzimas necessárias para tornar a tecnologia viável

Herton Escobar

Quando se formou em biologia, 20 anos atrás, Alexandre Rosado não imaginava que um dia daria entrevistas sobre o futuro energético do planeta. Naquela época, o aquecimento global era quase um mito, o preço do petróleo não chegava nem perto dos US$ 100 o barril e o programa de álcool brasileiro parecia sem futuro. Agora, a história é outra.

A “redescoberta” do etanol e a busca por novas fontes de energia renovável a partir de plantas está transformando completamente o cenário científico da indústria de combustíveis. O líquido energético que antes precisava ser extraído de rochas profundas agora é plantado na superfície, colhido, e plantado de novo. Em vez de brocas, sonares e capacetes, os especialistas agora usam pinças, microscópios e jalecos brancos. As plataformas de petróleo viraram colheitadeiras. A geologia cedeu lugar à biologia. E Alexandre Rosado ganhou uma nova função.

Enquanto a Petrobrás anuncia a descoberta de reservas petrolíferas milhares de metros abaixo da superfície, ele e outros biólogos ao redor do mundo vasculham o intestino de peixes, vacas e cupins à procura de micróbios capazes de digerir celulose e produzir os biocombustíveis do futuro. “É um momento muito interessante, a área está super quente”, diz Rosado, professor há dez anos do Instituto de Microbiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e chefe do Laboratório de Ecologia Microbiana Molecular.

Mais especificamente, os cientistas estão à caça de enzimas com ação celulolítica - ou seja, capazes de quebrar as moléculas longas e duras de celulose em moléculas menores e mais “digeríveis” (do ponto de vista de uma levedura), que possam ser aproveitadas nos processos clássicos de fermentação para produção de etanol. E não há lugar melhor para isso do que o intestino de animais herbívoros, fundos de lagos e outros ambientes exóticos onde matéria vegetal é naturalmente degradada.

A falta dessas enzimas, chamadas celulases, é um dos principais entraves à produção de etanol de celulose. “As enzimas que temos hoje são muito ineficientes e caras”, diz Paulo Arruda, biólogo molecular da empresa Alellyx, de Campinas. “Precisamos digerir mais bagaço com menos enzima. Esse é o gargalo.”

Os especialistas em produzir celulases na natureza são microrganismos. Na UFRJ, os cientistas estudam o arsenal enzimático de micróbios que vivem no intestino de peixes cascudos da mata atlântica. Dentre as centenas de bactérias identificadas, duas novas espécies já foram isoladas e caracterizadas. “São tipos tão diferentes que talvez sejam até gêneros novos”, diz Rosado, que orienta a pesquisa em parceria com a cientista Elba Bon, do Instituto de Química. O trabalho compõe a tese de mestrado do aluno André Castro.

Outro projeto do laboratório é o estudo de comunidades microbianas da água de bromélias - aquelas “piscininhas” que se formam na base das folhas e estão recheadas com microrganismos. Cerca de 500 espécies já foram isoladas e 80%, segundo Rosado, têm ação celulolítica. “A motivação inicial era apenas estudar a biodiversidade microbiana desses ambientes. Quando vimos o potencial que isso tinha para os biocombustíveis, porém, iniciamos a busca por enzimas também”, conta o cientista.

Ele exalta o potencial biotecnológico da biodiversidade brasileira: “Temos reservatórios enormes de genes, enzimas e microrganismos que não são explorados”, diz.

CUPINS

Nos EUA, um dos líderes nessa área é o microbiólogo Jared Leadbetter, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), que trabalha em parceria com a empresa Verenium. Em 2007, ele e vários cientistas da empresa publicaram na revista Nature Biotechnology uma análise de genes e proteínas de bactérias do intestino de cupins. Os insetos foram coletados na Costa Rica, com autorização do governo e participação de cientistas locais, que também assinam o estudo.

A escolha faz sentido: se o objetivo é digerir biomassa, ninguém sabe fazer isso melhor do que um cupim. O intestino do inseto está recheado de bactérias e outros micróbios que secretam celulases. Os cientistas querem isolar essas enzimas e testá-las na produção de etanol. E depois, quem sabe, isolar os genes responsáveis pelas enzimas e transferi-los para outros microrganismos que possam ser incorporados ao processo produtivo.

“Não há dúvida de que a solução para os biocombustíveis está nos micróbios”, disse Leadbetter ao Estado. “É neles que vamos encontrar o software que precisamos para fazer o etanol de celulose funcionar.”

Entender como funciona esse software genético, porém, não será fácil. O mais provável, diz Leadbetter, é que milhares de genes e enzimas participem do processo. “Todos os resultados indicam que se trata de sistema muito complexo”, diz. A “receita mágica”, portanto, deverá ser um coquetel de enzimas selecionadas de vários organismos e misturadas sob medida para cada tipo de biomassa.

sábado, 14 de junho de 2008

O caso da febre amarela

Por Eduardo Guimarães

Prezado Nassif, quero relatar a você e - se for de seu entendimento - pedir sua repercussão de um fato importante nas relações da sociedade com a dita grande mídia.

O ministério Público Federal acatou o pedido de investigação da ONG que presido - Movimento dos Sem Mídia - contra Folha, Globo, Estadão, Veja, Correio Brasiliense, Jornal do Brasil, Época, IstoÉ na questão do alarmismo sobre pseudo epidemia de febre amarela urbana no Brasil, que causou até a morte de uma pessoa e adoecimento de dezenas, em número superior ao dos que adoeceram por suspeita de febre amarela.

Esses adoecimentos extra-febre amarela se deram por conta de reações adversas à vacina em pessoas que se vacinaram sem necessidade movidas apenas pelo alarmismo dos meios de comunicação. O MPF deliberou que irá notificar os meios de comunicação da investigação e que está requerendo ao Ministério da Saúde dados sobre a febre amarela no Brasil nos últimos 20 anos, bem como estudos desse ministério sobre o comportamento da mídia no período.

O material está todo no meu blog e peço que você dê uma olhada.

enviada por Luis Nassif

sexta-feira, 13 de junho de 2008

USP pesquisa remédio contra dengue

Estudo em laboratório inibiu a replicação do vírus, o que poderia impedir avanço para forma mais grave da doença

Brás Henrique, RIBEIRÃO PRETO oesp

Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, traz perspectivas para a criação de um medicamento capaz de controlar a infecção pelo vírus da dengue. O estudo, iniciado há quatro anos, conseguiu inibir a replicação do vírus, protegendo as células contra a infecção.

Ou seja, a metodologia usada não previne a doença, mas poderá servir para controlar a dengue, impedindo a sua progressão para formas mais graves, como o tipo hemorrágico, que pode levar a pessoa à morte. Hoje, para tentar amenizar os sintomas da dengue são usados antitérmicos para diminuir a febre e analgésicos, além da hidratação com soro.

A dengue é uma doença infecciosa febril aguda que provoca também dor de cabeça e no corpo, náuseas e manchas vermelhas na pele. É transmitida pela picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti. Somente entre janeiro e abril deste ano foram registrados mais de 230,8 mil casos suspeitos da doença, sendo 1.069 confirmados de dengue hemorrágica, sendo que 77 pacientes morreram. A epidemia com o maior número de casos no País foi a de 2002, quando cerca de 800 mil brasileiros contraíram a doença.

TESTES

O estudo do medicamento, desenvolvido pelo Laboratório de Virologia da Faculdade de Medicina da USP, foi realizado com o sorotipo 2 da doença. A meta é chegar a uma droga antiviral que poderá impedir a progressão da doença para as formas mais graves. Nos próximos passos, a pesquisa será feita com os sorotipos 1, 3 e 4 do vírus e, possivelmente até o final deste ano, iniciar a experiência com macacos.

A bióloga Alessandra Cristina Gomes Ruiz, responsável pela pesquisa e orientada por Benedito Antônio Lopes da Fonseca em trabalho de doutorado, acredita que agora as pesquisas serão mais rápidas, pois já tem a molécula “desenhada” (sintetizada) quimicamente em laboratório. “Demoramos quatro anos para construir esse mecanismo, e isso torna a seqüência do estudo mais rápida”, disse Alessandra.

Essa molécula foi desenhada para três diferentes regiões do genoma viral e clonadas num vetor, para que pudessem ser expressas dentro das células. Na pesquisa, as células usadas foram as hepáticas (devido à importância do fígado na patogênese da doença) e as monocíticas (alvos da infecção pelo vírus da dengue).

Mas, para a aplicação em humanos, ainda são necessários outros estudos. Alessandra diz que, em 2004, houve um primeiro estudo com essa metodologia em humanos para uma doença chamada degeneração macular relacionada à idade (AMD), com resultados promissores.

“Para doenças virais, alguns estudos estão sendo realizados em pacientes com hepatite aguda e com HIV. Para o vírus da dengue, há pouquíssimos estudos”, diz a bióloga. “Assim, nossos resultados são bastante promissores e inéditos no Brasil”, afirma ela.

PREVENÇÃO

No início deste mês, o Instituto Butantã, de São Paulo, anunciou que vai acelerar os ensaios para a primeira vacina contra a dengue. A previsão é iniciar os testes da imunização em humanos já no próximo ano. Com isso, as doses estariam prontas para serem aplicadas em 2010.

Com parceiros internacionais - Instituto de Saúde Pública dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês) e Fundação Path, chefiada pelo empresário Bill Gates -, o Butantã informou que já foram realizados testes em macacos infectados com a doença e também em humanos, com alguns voluntários.

NÚMEROS

17 Estados

tiveram aumento no número de casos de dengue nos primeiros quatro meses deste ano em relação ao mesmo período de 2007

94,3 mil
casos de dengue foram registrados apenas na cidade do Rio, onde houve a pior epidemia neste ano, entre os meses de janeiro e junho

quinta-feira, 12 de junho de 2008

To thwart disease, apply now

Translational medicine is a key addition to the biomedical research enterprise. Policy-makers and research leaders now must build the infrastructure to take discoveries from the bench to application.

To thwart disease, apply now

Molecular biology is a victim of its own success. Seemingly overnight, it has changed from a science of one gene, one protein, one molecule, one at a time, to all genes, all proteins, all molecules, all at once. Everything is now 'ome-sized. The generation and exploration of these data has become a massive, all-consuming discipline.

And yet the expected pay-off — the new therapies and diagnostics that will improve human health — has not kept pace. Researchers and funding agencies recognize this inequality and are working on a solution: translational research. The name encompasses the strategies by which the intellectual riches flooding from biomedical discovery can be converted into practical riches from which humanity can benefit. Nature strongly encourages this effort, which is highlighted in a number of articles in this issue (see page 839).

It is clear, however, that the success of translational research requires new experts, infrastructure and incentives. This is perhaps best explained from the perspective of a basic researcher who has a discovery that is ripe for translation. A common and mistaken assumption is that this scientist will have the motivation — and somehow acquire the luck and skill — to make translation happen with little help. In practice, this is often a recipe for failure. The relative handful of scientists who have found applications for their discoveries frequently say they did so despite the system, not because of it.

Team work

Instead, imagine that the researcher enters seamlessly into a team that is ready-made for translation. That team features experts in all aspects of clinical research, including medicine, pharmacology, toxicology, intellectual property, manufacturing, clinical-trial design and regulation. The basic researcher now has the back-up from those who can do the jobs for which he or she is unqualified.

The scientists who have found applications for their discoveries often say they did so despite the system, not because of it.

The team has immediate access to the necessary infrastructure for toxicology testing, for instance, or to facilities that meet 'general manufacturing practice' standards for making compounds for use in human trials. The sole aim of the team is to ensure that the researcher's discovery will help the most people possible — not to ensure that it fetches the best price when it is licensed. And, absolutely crucially, all the team members are rewarded in terms of pay and promotion just as richly as if they had produced a string of publications.

In this ideal world, translational research becomes a welcome and satisfying pursuit for all concerned, rather than a distraction or a burden. It would receive much more than the lip service that it is sometimes afforded on grant applications.

Such an overhaul of infrastructure and reward systems will take commitment and money. For example, the US National Cancer Institute's Rapid Access to Intervention Development programme, which provides such a service (massively oversubscribed), spends between US$2 million and $7 million to take a discovery through to its first clinical trial. The cost of performing those trials is even more. But institution heads and policy-makers should not baulk at the price: it is small compared with the potential benefits of more discoveries being put into practice, and more illness being treated or averted.

Two-way process

Some researchers complain that an emphasis on translation swings the pendulum too far towards applied science at the expense of basic research, but this concern has little foundation. In fact, what is worrying is the extent to which biomedicine in the past few decades has swung so far towards pure science. One attempt to stem that tide is noted in the first of a series of Commentaries on innovation (see page 853). Yes, many of the most successful medical advances came from serendipitous discoveries. But money should also be spent on creating the mechanisms to translate those findings when they are made.

This distinction between basic and applied research dissolves under close scrutiny. Translation is not a one-way progression in which research findings enter a production line and emerge at the end as drugs or diagnostics. The whole process is more fluid: experiments on human tissues and clinical trials can inspire fascinating new questions back at the bench that will, when answered, improve the human experiment in its next iteration (see page 843). That is why efforts at translation should focus on training personnel to be comfortable in this eddy of information as it circulates between the bench and the clinic.

Under the direction of Elias Zerhouni, the US National Institutes of Health is spending several hundred million dollars to set up translational research centres across the United States (see page 840). At this early stage, it's not clear whether this represents a game-changing commitment by the agency and the receiving institutions, or an attempt to mollify tax-payers who want a return on their heavy investment. Many of the aims are the right ones, and anything is better than the current situation in which an individual's publications trump real medical needs. But Zerhouni's successor in the next presidential administration must make it a priority to continue or surpass these efforts. Because translational research is a new and unproven discipline, with no 'how-to' manual, it is also important to evaluate each attempt at translation as the field takes shape.

What would a scientist looking back on a long career be most proud of achieving? For some it might be the solution to a fundamental cellular mystery, such as the way a cell's division is usurped by cancer. Better still might be that solution, and the knowledge that thousands of cancers were no longer dividing because of it.

Nature 453, 823 (12 June 2008) | doi:10.1038/453823a; Published online 11 June 2008

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O sistema S

06/06/2008 18:54:03 Delfim Netto - Carta Capital

Talvez a maior infelicidade histórica do Brasil é não termos dado a ênfase necessária à educação. Nunca faltou promessa, faltou compromisso. Já no artigo 250 do Projeto de Constituição do Império, elaborado pela Comissão da Assembléia Constituinte (20/10/1823), afirmava-se: “Haverá no Império escolas primárias em cada termo, ginásios em cada comarca e universidades nos mais apropriados locais”. E no artigo 252, reconhecia-se a liberdade do ensino privado: “É livre a cada cidadão abrir aulas para o ensino público, contanto que responda por seus abusos”.

Tais dispositivos foram liofilizados no projeto elaborado pelo Conselho (artigo 179, XXXII): “A instrução primária é gratuita a todos” e acolhidos na mesma forma na Constituição outorgada por dom Pedro I (25/3/1824). Puro palavrório. Em quase dois séculos, avançamos muito lentamente e hoje o panorama geral da educação no Brasil resume-se a algumas pequenas ilhas de excelência, onde competimos com o melhor conhecimento mundial, cercadas por um imenso oceano de qualidade deplorável.

Agora a sociedade e os administradores eleitos – diante da mediocridade do nosso ensino revelada por testes objetivos – são obrigados a encarar com maior seriedade o problema. Começa a ser visível, felizmente, um movimento (ainda ligeiro) da placa tectônica do setor público. Começa a se revelar que o problema não é tanto de falta de recursos, mas da absoluta ausência de disposição política de enfrentar, com uma administração eficiente, o poderoso corporativismo encastelado no setor.

O ponto importante desse ligeiro tremor, que todos esperamos possa se tornar um robusto terremoto, é que ele hoje vem de fora (da sociedade) para dentro (do governo), mas foi provocado inicialmente de dentro (do governo, por sua insistência no aperfeiçoamento da avaliação dos resultados) para fora (a sociedade). Transformou-se em um importante assunto na mídia nacional. Esta mostra, diariamente, a tragédia que continuamos a impor ao nosso futuro, fingindo que a escola pública educa os jovens cujas famílias não têm condições de fazê-lo privadamente.

O epicentro desse movimento é, sem dúvida, o próprio Ministério da Educação, mas começa a ganhar maior musculatura em alguns estados (São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco, notadamente). A sua reverberação só será sentida daqui a alguns anos, porque se trata de um processo e não existe catálise enzimática capaz de acelerá-lo. Nessa matéria, o maior inimigo é a neofilia que ataca nossos pseudopedagogos.

Diante de tanta tragédia e do embaraço a que o País é submetido a cada teste internacional, de onde saímos chamuscados e envergonhados, não é possível deixar de saudar e chamar a atenção para um resultado que nos deve orgulhar. O Brasil classificou-se em segundo lugar no concurso internacional Worldskills. Trata-se do maior concurso de educação profissional do mundo, promovido anualmente pela International Vocational Training Organisation (IVTO), ao qual, em novembro de 2007, compareceram quase mil jovens provenientes de 48 países.

A que ou a quem se devem tão bons resultados? A 24 estudantes dos vários departamentos regionais do Senai: aquele mesmo que transformou um sobrevivente da seleção natural em torneiro-mecânico e preparou-o para a Presidência da República. Nossos jovens conseguiram duas medalhas de ouro, três de prata e quatro de bronze. Por último, mas não menos importante, houve sete certificados de excelência (obtiveram mais de 500 pontos dos 600 possíveis).

Fomos vencidos pela Coréia, mas superamos 46 países, inclusive o Japão, país onde se realizou o evento. Não é possível ignorar que, dos dez competidores fornecidos pelo Senai de São Paulo, nove foram contemplados, mas que as medalhas de ouro couberam a participantes de Pernambuco (Tecnologia da Informação) e do Rio Grande do Sul (Mecânica de Refrigeração). No momento em que se pensa em interferir no que se chama o “Sistema S” (que inclui Senai, Sesc, Senac e Sebrae, entre os mais conhecidos), é preciso deixar claro que sugestões para controle e transparência de seus gastos são bem-vindas, mas que a intromissão na organização e na administração do ensino, não. São 13 bilhões de reais ao ano arrecadados, provenientes de 2,5% das folhas de salários das empresas. As confederações empresariais dizem ser contra a suposta intromissão do governo. Haveria? Por quê?

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Berimbaus, boicotes e avaliação

NAOMAR DE ALMEIDA FILHO


É inaceitável que um jovem de classe privilegiada seja incapaz de retribuir, de modo decente, para uma justa avaliação institucional
FSP

NOSSA FACULDADE de Medicina, no ano do seu bicentenário, fracassou na avaliação do Enade. O coordenador do curso, ao explicar o fiasco, culpou as cotas e a inferioridade intelectual dos estudantes. Para ilustrar seu argumento, alegou que o berimbau, símbolo da musicalidade baiana, tem só uma corda, o que comprovaria a suposta deficiência cognitiva dos baianos.
Considerei suas declarações discriminatórias, eivadas de insensibilidade cultural e ignorância antropológica. Infelizmente, o episódio contribuiu para ofuscar um tema chave para o futuro da universidade brasileira: avaliação.
Agora que a notícia saiu do foco da mídia, podemos refletir melhor sobre o caso. De pronto, descarto a hipótese de "contaminação pelas cotas". Mesmo porque a turma reprovada entrara na universidade em 2001, quatro anos antes do advento do programa de ações afirmativas.
Também não se vê falta de recursos docentes e pedagógicos. O curso de medicina da UFBA tem três alunos por docente e conta com 609 leitos em hospitais de ensino. Harvard, a melhor escola do mundo, não exibe tão vantajosa relação aluno/professor; nem a medicina da USP, com o complexo do Hospital das Clínicas, oferece possibilidades de prática docente-assistencial em tal proporção. Seria o caso, portanto, de gestão acadêmica incompetente.
Entretanto, há evidências de que essa reprovação no Enade se deve, em grande parte, a boicote. Vários órgãos de imprensa publicaram depoimentos de formandos que, protegidos pelo anonimato, reconheceram-se apressados em viajar para submeter-se a exames de seleção para residência médica ou concursos públicos.
Recuperamos a lista dos sorteados para o exame. São 86 graduados. Todos obtiveram excelentes resultados nos processos seletivos a que se submeteram. Não lhes faltam talento e capacidade: o coeficiente de rendimento médio do grupo é 85%.
A atitude deles revela egoísmo, descompromisso e deslealdade para com a instituição que os acolheu. Antes das cotas, por causa da perversidade do vestibular, o curso de medicina da UFBA era quase monopólio da elite. É inaceitável que um jovem oriundo de classes privilegiadas, ao receber formação profissional em carreira de alta valorização social e financeira -sem pagar um centavo, numa instituição pública mantida com o dinheiro dos contribuintes-, seja incapaz de retribuir, de modo decente, para uma justa avaliação institucional.
Além disso, o diretório acadêmico admite ter fomentado boicote à prova, atendendo a uma diretiva da sua entidade nacional. Essa possibilidade me revolta profundamente não só como gestor público, mas sobretudo enquanto cidadão que tem uma história de luta política, no movimento estudantil e nos movimentos da renovação médica e da reforma sanitária.
Todos nós que arriscamos as carreiras (alguns, a vida) atuando clandestinamente para reativar diretórios estudantis declarados proscritos pelo regime militar -e todos aqueles que, geração após geração, mantiveram acesa a chama do movimento estudantil na universidade- nunca imaginamos ver tal situação: agremiações estudantis aparelhadas para boicotar processos avaliativos públicos, contribuindo para depreciar o legado político da universidade brasileira.
Sinto-me frustrado como educador. Sei que não há inocentes. Os sabotadores são pessoas adultas e devem saber os danos que causaram a si próprios e à instituição.
Mas não acredito ser justo identificá-los como os únicos culpados. Também culpados são gestores e docentes, cúmplices de sabotagem da avaliação da universidade pública, que permitem que nossos cursos formem sujeitos que, mesmo tecnicamente competentes, mostram-se individualistas, alienados, arrogantes, capazes do mais vil desapreço para com sua instituição formadora.
Esse episódio atinge todos os estudantes e profissionais formados em escolas médicas públicas. Há uma mácula, indelével, para os que se graduarem em escolas reprovadas em avaliação oficial do MEC. E o que dizer da decepção para muitas gerações que se formaram nessas escolas?
Orgulho-me do meu curso de medicina, ainda no belo prédio do Terreiro de Jesus. Servi 15 anos de minha carreira na Faculdade de Medicina como professor de epidemiologia. Os professores atuais foram, em maioria, colegas e, muitos deles, alunos.
Esses são os motivos que me levam a expor, neste comentário, sentimentos de indignação, repúdio, frustração e vergonha, para além de minhas atribuições como reitor de uma universidade pública de tão rica história e tradição como a UFBA.


NAOMAR DE ALMEIDA FILHO , 55, doutor em epidemiologia, pesquisador do CNPq, professor titular do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA (Universidade Federal da Bahia), é reitor dessa universidade.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

'Distrações digitais' emburrecem a juventude, afirma especialista

Professor dos EUA diz que muitas horas de Orkut e MSN levam jovens a só conviverem entre si

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON

Uma série de pesquisas realizadas nos últimos anos mostra que a ignorância dos jovens americanos é epidêmica. Em levantamento de 2002, 52% dos jovens escolheram Japão, Alemanha ou Itália como aliados dos Estados Unidos na 2ª Guerra Mundial. Em uma pesquisa de 1998, só 41% sabiam apontar os três poderes do governo (Executivo, Legislativo e Judiciário), enquanto 59% sabiam identificar os Três Patetas pelo nome. Mais de 64% sabiam o nome do último vencedor do American Idol, mas só 10% sabiam o nome da presidente da Câmara dos EUA. E 25% não sabiam que Dick Cheney é o vice-presidente do país.

Para Mark Bauerlein, professor da Universidade Emory, em Atlanta, e ex-diretor de Pesquisa e Análise na Fundação Nacional para as Artes, são as “distrações digitais” como mensagens instantâneas, sites de relacionamento como Orkut, MySpace e Facebook, e mensagens de texto pelo celular que estão emburrecendo a juventude. Em seu livro The dumbest generation: How the digital age stupefies young americans and jeopardizes our future (A mais burra das gerações: como a era digital esta emburrecendo jovens americanos e ameaçando nosso futuro), que acaba de ser lançado e vem causando polêmica, Bauerlein argumenta que o excesso das chamadas “distrações digitais” está por trás da crescente falta de cultura dos jovens.

“Os jovens de hoje são tão mentalmente competentes quanto os de 20 anos atrás, e têm muito mais oportunidades de adquirir conhecimentos, mas eles estão deixando de lado os hábitos intelectuais e se dedicando cada vez mais à comunicações ‘peer to peer’ (compartilhamento de arquivos online)”, disse Bauerlein ao Estado. “Se você entra no quarto de um jovem de 15 anos vai encontrar o iPod, TV, computador, videogame, e tudo isso vem antes do livro na escala de prioridades.”

De acordo com o Panorama de Aplicação dos Estudantes, 55% dos alunos de ensino médio estudam ou lêem menos de uma hora por semana. Em contrapartida, passam nove horas navegando em sites de relacionamento. Estudo de 2005 da Kaiser Foundation mostra que, em um dia, em média, jovens de 8 a 18 anos assistem à TV durante 3 horas e 4 minutos, passam 48 minutos navegando na internet, 14 minutos lendo revistas, 23 minutos lendo livro, 49 minutos jogando videogame, 32 minutos assistindo a DVD. “Eles tiraram toda sua concentração de livros, revistas, jornais ou museus e transferiram para diversões virtuais.”

Mas será que todos esses instrumentos digitais não trazem conhecimento também? “Se eles usassem a internet para entrar no site da Galeria Nacional de Artes, seria maravilhoso; mas nove dos dez endereços de internet mais visitados por jovens são de sites de relacionamento, segundo a Nielsen.”

O problema, alerta Bauerlein, não é a tecnologia, mas o uso que se faz dela. “Os adolescentes de 15 anos só se importam com o que outros adolescentes pensam. Isso sempre foi assim. Mas hoje a tecnologia permite que os adolescentes estejam em contato entre eles, excluindo os adultos, 24 horas por dia.” Os jovens ficam em contato o dia inteiro, por meio do celular, páginas da internet, mensagens instantâneas. “A tecnologia ligou os jovens de uma forma tão intensa que os relacionamentos com adultos estão diminuindo. Eles estão cada vez menos maduros, prolongando a adolescência até os 30 anos.”

E como lidar com essa onipresença de distrações digitais? “Não se trata de eliminar esses instrumentos da vida dos jovens, não se pode fazer isso; mas é preciso chegar a um equilíbrio”, diz. “Os pais deveriam estabelecer um determinado período, por exemplo, uma hora por dia, em que jovens e adultos precisam estar totalmente desconectados de qualquer coisa, e se dedicam a ler.”

E nada de fazer mais de uma tarefa ao mesmo tempo - falar no celular e mandar e-mail, ouvir música e navegar. Para ele, essa é uma das pragas modernas. “Uma pessoa não consegue ler enquanto faz outra coisa.”

domingo, 1 de junho de 2008

Droga que mudou comportamentos completa 1 década

Viagra é considerado uma das 5 descobertas mais importantes da história da indústria farmacêutica

Simone Iwasso OESP

A pílula azul que se tornou mais conhecida - e mais vendida - do que a Aspirina completa hoje dez anos. Uma das cinco drogas mais importantes da história da indústria farmacêutica, ao lado da penicilina e da pílula anticoncepcional, o Viagra mudou comportamentos, devolveu a vida sexual a casais, alavancou boa parte das pesquisas de medicamentos nos anos 90 e fez com que a disfunção erétil acabasse se tornando um indicador de saúde do coração.

“É como se o pênis fosse a janela do coração”, resume a cardiologista Gisele Rodrigues, médica do Incor e chefe do Centro de Referência do Idoso da zona norte de São Paulo. “A disfunção erétil tem o componente psicológico,pois muitas vezes o homem pára de achar que é capaz, e o vascular, que são as alterações circulatórias”, explica ela.

Não por acaso, mais de 70% dos homens com dificuldades para ter ereção apresentam colesterol alto, diabete, hipertensão, síndrome metabólica ou algum outro problema. E os que ainda não apresentaram nenhuma doença do tipo, têm o dobro de chance de desenvolvê-las no futuro, segundo pesquisas.

É simples de entender o motivo: o endotélio, um tecido que recobre os vasos sanguíneos de todo o corpo, está também nas artérias do pênis. Quando o homem recebe um estímulo sexual, o cérebro envia uma mensagem ao organismo para que libere óxido nítrico, o que relaxa o tecido e permite a expansão dos vasos.

Então, um grande volume de sangue entra no pênis e ele aumenta de tamanho. Até poucos anos, quando havia um número menor de pesquisas sobre a disfunção erétil (chamada, até 1992, de impotência), os mecanismos envolvidos nesse processo ainda eram pouco conhecidos.

Quando o homem tem algum problema no endotélio, os vasos sanguíneos do pênis são os primeiros a serem danificados, pois são muito pequenos e bastante frágeis. “É problema médico. Sintoma de que alguma coisa não está bem”, diz Luiz Otávio Torres, presidente da Sociedade Latino Americana para Estudo da Impotência e Sexualidade.

Por isso, segundo ele, quando o homem compra o remédio na farmácia sem consultar um médico pode até resolver provisoriamente a dificuldade de ereção, mas vai continuar sem identificar a origem do problema. “Uma hora o remédio vai parar de fazer efeito, é tratar o sintoma sem tratar a causa”, sintetiza a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). “Esses medicamentos nos ajudaram a entender que o homem começa a cuidar do coração cuidando do pênis.”

Além disso, os remédios trouxeram a sexualidade para dentro dos consultórios. “Há dez anos não me lembro de perguntar aos meus pacientes sobre a vida sexual. Hoje, junto com as perguntas sobre hábitos, fumo, doenças, pergunto se eles têm problemas para ter ereções”, afirma Carlos Da Ros, da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

NOVO PARADIGMA

Foi em 1998 que a Pfizer lançou o Viagra no mercado, após 13 anos de pesquisas - originalmente, a substância era estudada para angina e ereções eram um efeito relatado pelos pacientes em teste. Com uma campanha agressiva de marketing, divulgação pela mídia e entre os médicos, o remédio, com poucas contra-indicações e fácil uso, logo virou líder de vendas. Reinou sozinho por cinco anos até que a Eli Lilly surgiu com o Cialis - que tem a diferença de ter efeito por até 36 horas desde que haja estímulo sexual. Pouco depois, a Bayer desenvolveu o seu, chamado Levitra - que começa a funcionar em 15 minutos e tem duração de até 8 horas. No Brasil, a Cristália desenvolveu o Helleva, que também está à venda no mercado brasileiro.

Perfil genético melhora combate ao câncer

Biomarcadores identificam caracteristicas específicas de tumor para usar medicamento de maior eficácia no tratamento

Precisão sobre tumor e tratamento com terapias-alvo auxiliam médicos a escolher quais pacientes podem ser beneficiados

CLÁUDIA COLLUCCI
DA REPORTAGEM LOCAL FSP

O tratamento do câncer está se tornando cada dia mais individualizado, tendo como base o perfil genético de cada tumor e de cada paciente. A chave para essa nova realidade está no desenvolvimento de biomarcadores -agentes que reconhecem substâncias ou características específicas do tumor e se ligam a ele- já disponíveis no Brasil.
Esses testes, associados a drogas chamadas de terapias-alvo -que permitem que apenas as células cancerígenas sejam alvo do remédio- estão tornando os tratamentos mais eficazes, e a expectativa dos médicos é que sua utilização também tenha impacto no custo social dessas novas terapias.
Na prática, em vez de usar drogas oncológicas caras -que chegam a custar R$ 30 mil mensais- para todos os pacientes com um determinado tipo de tumor, os médicos terão ferramentas para escolher quais pacientes vão se beneficiar com o tratamento e descartar o uso nos demais.
"Em vez de utilizar um remédio em cem pessoas para que só dez delas se beneficiem, você vai usar apenas nas dez em que ele funciona", diz o médico Auro Del Giglio, coordenador do programa de oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein.
"As terapias-alvo são caríssimas e a alternativa mais esperta é definir o perfil de quem deva recebê-las", diz Giglio.
Estudos que serão divulgados hoje em um congresso mundial de câncer em Chicago (EUA) vão mostrar que a presença da mutação de um gene (K-ras) em um grupo de pacientes com câncer de colorretal provoca resistência ao uso de uma dessas terapias-alvo, o cetuximabe (Erbitux).
"Você não expõe metade dos pacientes que receberia a medicação sem benefício. Você tem uma economia financeira e de efeitos colaterais em alguém que tomaria o remédio sem chances de benefícios", diz Paulo Hoff, que dirige áreas de oncologia do Hospital Sírio Libanês e do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Segundo ele, o K-ras como biomarcador está sendo utilizado experimentalmente no Brasil. Outros testes, para tumores de mama e do sistema gastrointestinal, já são usados como rotina em centros oncológicos de ponta do país.
Conhecer o perfil genético do tumor é importante porque um mesmo tipo de câncer pode se comportar e reagir aos tratamentos de modo diferente. Além disso, o câncer é mutável e pode fazer o paciente deixar de responder a uma terapia.
As terapias-alvo têm ação específica: algumas, por exemplo, agem nas moléculas responsáveis pela divisão das células cancerosas, impedindo que elas se multipliquem de forma desordenada, e outras agem para o tumor parar de crescer.

Custo
Grande parte dessas terapias-alvo não está disponível no SUS e nem é coberta pelos planos de saúde. O recurso cada vez mais freqüente para a aquisição dessas drogas tem sido ações judiciais, que comprometem o orçamento da saúde de Estados e municípios.
O cirurgião oncologista Benedito Mauro Rossi, do Hospital AC Camargo, diz que em razão do custo e da alta especificidade desses tratamentos, a indicação deve ser restrita a casos com comprovação do benefício. "Não podemos perder o foco no custo-benefício e nas evidências científicas publicadas."
Auro Del Giglio, do Einstein, cita um exemplo de dilema sofrido no serviço público -ele também atua no setor de oncologia da Faculdade de Medicina do ABC.
"Eu, com R$ 100 mil, consigo pagar a quimioterapia ambulatorial de todas as crianças que a gente trata. Aí a gente tem um teste [genético do tumor] que custa R$ 5.000. Eu faço 20 testes e não dou quimioterapia para as crianças?", questiona.

E vamos nessa

RIO DE JANEIRO - A decisão do Supremo sobre pesquisas com embriões mantém a Lei de Biossegurança e está sendo encarada como um passo importante para a ciência. Não serei eu que ficarei à beira do cais do Restelo amaldiçoando as caravelas que partiam com o grande Vasco em busca de novos caminhos para a humanidade.
Mas faço parte daqueles que, como alguns ministros do STF, mesmo votando a favor das pesquisas, fizeram algumas restrições. Nada entendo de genética, mas entendo o pessimismo que não leva a nada, mas sempre acende dentro de nós aquela luzinha vermelha de que alguma coisa pode ser inútil ou dar errado.
Lembro um debate na Câmara Municipal ao tempo em que o Rio era ainda Distrito Federal. Na tribuna, um vereador, Manuel Blasques, dono de uma rede de lojas de ferragens, fazia um discurso sobre não lembro mais o quê. O vereador R. Magalhães Jr., um intelectual, acadêmico, aparteou-o com alguma ferocidade, classificando o orador de "taylorista".
Manuel Blasques estancou. Olhou para cima, para os lados, para dentro de si mesmo, e com voz pausada, educadíssima, respondeu: "Vossa Excelência me chama de alguma coisa que não entendo. Se isso é um elogio, eu agradeço e retribuo. Se é uma ofensa, fique sabendo que isso é a mãe de Vossa Excelência!".
Penso sempre nesta sábia resposta do Manuel Blasques quando não estou muito seguro das coisas -o que é freqüente e, no meu caso, bastante antigo. Penso nos aviões se houvesse lei proibindo as tentativas dos pioneiros. Leonardo foi quase condenado por dissecar corpos para compreender a anatomia que o tornou o maior escultor da história.
Não ficarei como o velho do cais do Restelo, amaldiçoando aquele que colocou uma vela num frágil lenho.
CARLOS HEITOR CONY

Estudos feitos com embrião são só uma "aposta", diz biólogo

Para Stevens Rehen, país tem de seguir tendência mundial de pesquisa em células-tronco, mas sucesso não é certeza

Pesquisadores brasileiros têm de colaborar mais entre si, afirma neurocientista, que critica a "sonegação de informação científica"

EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL FSP

Com a anuência do Supremo Tribunal Federal, o Brasil pode agora, enfim, "apostar" nos estudos com células-tronco embrionárias. Essa é perspectiva para grupos de pesquisa nacionais de biologia molecular, diz o neurocientista Stevens Rehen, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Ele é um dos dois pesquisadores que tentam, dentro do país, cultivar células-tronco retiradas de embriões humanos.
Não há certeza ainda, porém, de que elas renderão novas terapias. "É uma aposta, mas uma aposta fundamentada. E pode ser que todo mundo dê com os burros n'água daqui a alguns anos", disse o pesquisador à Folha. De acordo com Rehen, depois de o Supremo ter validado a Lei de Biossegurança, o que vem agora chega até a "assustar", por ser muito novo.
"Mas a ciência avança assim. Que bom que podemos apostar nisso. O Brasil sempre fica a reboque, como ocorreu com o Projeto Genoma, quando entramos tarde no processo", diz o cientista, que calcula que o Brasil terá sua linhagem de células próprias em até dois anos.
O fato de as pesquisas com células embrionárias estarem liberadas para embriões congelados antes de 2005 traz um certo alívio, mas está muito longe de resolver o problema. Segundo o cientista carioca, esse material congelado há alguns anos, "falando friamente", não é o ideal. "Não quer dizer que seja impossível [retirar as células desses embriões], mas o desafio passa a ser maior".
Além das complicações intramuros na bancada dos laboratórios, diz Rehen, no campo político o Brasil tem de escolher um modelo estratégico que não desperdice recursos financeiros para gerar os insumos de pesquisa necessários.
"Não precisamos de 50 laboratórios no Brasil produzindo células-tronco embrionárias. Se tivermos um ou dois que gerem linhagens celulares suficientes para pesquisadores de qualquer parte do Brasil está bom", afirma. "Não dá para querer gerar um cultura de célula em cada esquina."
Em paralelo à ação orquestrada do governo, o neurocientista da UFRJ também defende uma postura diferente da própria comunidade científica.

Gente em falta
Para Rehen, os cientistas brasileiros precisam colaborar mais. "Não tem de ter sonegação de informação científica. É o momento de abrirmos as portas do laboratório para que mais pessoas possam trabalhar. Se não houver um esforço coletivo, nada vai avançar", diz.
O número relativamente reduzido de cientistas atualmente no Brasil, apesar de muitos dos biólogos serem bem qualificados, é outro gargalo que precisa ser resolvido, diz o neurocientista. Rehen trabalha especificamente tentando fazer com que o material celular embrionário possa ser diferenciado em neurônios. As células dele vieram dos EUA.
"O mais importante agora, também, é formar mais gente. Nem adianta fazer como a Califórnia, investir até US$ 3 bilhões em projetos de pesquisa, porque não teremos grupos para usar todos esses recursos".
Segundo Rehen, os R$ 21 milhões anunciados pelo governo federal para todos os estudos com células-tronco, inclusive as adultas, é razoável. "A idéia do trabalho em rede é boa porque permite investir com profissionalismo", diz.
Mesmo ainda sem muitos grupos envolvidos diretamente com as células-tronco embrionárias - projetos de ponta existem em locais como a UFRJ, USP (Universidade de São Paulo), Unesp (Universidade Estadual Paulista) e UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)- o Brasil, segundo Rehen, não pode ser rotulado como atrasado. "Principalmente se formos comparar com todo o hemisfério Sul, com exceção da Austrália", diz.
O atraso em relação aos EUA e a alguns países da Europa, como a Inglaterra, é histórico, afirma o pesquisador.
No Reino Unido, por exemplo, a discussão nos tribunais também está mais avançada. A Corte, lá, acaba de liberar o uso de embriões híbridos, que têm material humano e de vaca. "Aqui nós estamos discutindo coisas anteriores ainda", diz Rehen, que já antecipa uma dor de cabeça legal que pode surgir no futuro para os ministros do STF resolverem.
"Imagine se nessas pesquisas com células reprogramáveis um material de pele se transformar em um espermatozóide. Será possível gerar um filho sem que o pai saiba, ou seja, a partir da pele de alguém."
No caso brasileiro, Rehen não tem dúvida de que o componente religioso e conservador surgiu nos debates do STF pois no imaginário coletivo existe uma ligação entre as células-tronco e o aborto. "Diretamente, não tem nada a ver."
Para resolver isso, diz o cientista da UFRJ, a solução é aumentar a cultura científica da população. "É mais uma questão de formação básica mesmo, que precisa melhorar."

domingo, 25 de maio de 2008

'Nossa saúde depende da biodiversidade'

Aaron Bernstein: Pesquisador de Harvard; Em livro lançado nos EUA recentemente, médico diz que cura de doenças no futuro está ligada à preservação da natureza

Herton Escobar OESP

A cura do câncer pode, sim, estar escondida em alguma planta da Amazônia. Ou da mata atlântica. Ou do cerrado. Ou de qualquer outro ambiente selvagem. Cerca de metade dos medicamentos mais importantes da medicina foram desenvolvidos a partir de moléculas da natureza, e é provável - ou quase certo - que outras serão descobertas no futuro, segundo uma dupla de pesquisadores da Universidade Harvard. Elas podem estar na seiva de uma planta, na pele de um sapo, no veneno de uma aranha ou nas enzimas de uma bactéria. São segredos que só a natureza pode revelar, e que só a pesquisa científica pode desvendar.

“A maioria das drogas que você compra na farmácia não existiria se não tivesse sido inventada pela natureza”, diz o médico Aaron Bernstein, co-autor do livro Sustaining Life: How Human Health Depends on Biodiversity (Sustentando a Vida: Como a Saúde Humana Depende da Biodiversidade, em tradução literal), lançado recentemente nos Estados Unidos pela Oxford University Press.

Assinado também pelo bioquímico Eric Chivian, diretor do Centro para a Saúde e Ambiente Global da Faculdade de Medicina de Harvard, o livro faz uma avaliação sistêmica dos serviços prestados pela biodiversidade em benefício da raça humana, desde os mais fundamentais, como a purificação de água e a polinização de lavouras, até os mais complexos, como a produção de medicamentos.

É um tema que remete diretamente à Convenção da Diversidade Biológica (CDB), acordo internacional que está sendo discutido esta semana em Bonn, na Alemanha. Lançada na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, em 1992, no Rio de Janeiro (a chamada Rio 92), a CDB tem como objetivo proteger a biodiversidade global, estimular o desenvolvimento sustentável e resguardar a soberania dos países sobre a utilização dos recursos biológicos contidos em seus territórios.

Aaron Bernstein conversou por e-mail com o Estado sobre a importância econômica, ambiental e social da biodiversidade. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Nanotubos, amianto e câncer

Um chamado de alerta para os riscos da nanotecnologia

A nanotecnologia, ao lado da biotecnologia, é a tecnociência da hora. Engenheiros do mundo todo estão de olho comprido em materiais projetados na escala do bilionésimo de metro (ou milionésimo de milímetro). Sua estrela são os nanotubos de carbono, mas ela foi mais uma vez embaçada pela suspeita de que possa vir a causar câncer.
Nanotubos são folhas enroladas de átomos de carbono arranjados numa geometria de hexágonos encaixados, similar à de uma tela de galinheiro.
Um material leve como plástico, mas resistente como aço. Estudam-se múltiplas aplicações, de veículos para remédios a eletrônica avançada, com mercado potencial de US$ 2 bilhões dentro de 4 a 7 anos.
Há vários tipos de nanotubo. Um dos mais usados tem várias camadas concêntricas (tubos dentro de tubos) e é longo. Em inglês, recebeu como apelido a sigla MWNT (de "multiwalled nanotubes").
Não é de hoje que se investiga a hipótese de que nanomateriais causem dano à saúde. Por conterem partículas diminutas, são mais facilmente assimiláveis por estruturas como células. Para o bem (se forem remédios) ou para o mal (se forem tóxicas).
As fibras de MWNT se assemelham às de amianto, material mineral da natureza vinculado a um tipo de câncer (mesotelioma) no pulmão. Células de defesa do corpo, como os macrófagos, não conseguem tirar da superfície interna do órgão todas as minúsculas fibras de amianto aspiradas. Segue-se eventualmente uma reação inflamatória, que pode dar origem ao tumor.
Dada a semelhança entre fibras de MWNT e de amianto, pesquisadores dos EUA e do Reino Unido decidiram investigá-las. Liderados por Kenneth Donaldson, da Universidade de Edimburgo (Escócia), injetaram fibras longas e curtas tanto de amianto quanto de MWNT na cavidade abdominal de camundongos, que tem uma camada de revestimento (mesotélio) similar à do pulmão.
O trabalho saiu nesta semana na edição online do periódico especializado "Nature Nanotechnology" (www.nature.com/nnano). Constatou-se que os nanotubos longos, assim como as fibras idem de amianto, desencadeiam a reação inflamatória precursora do mesotelioma. Não ficou provado, portanto, que MWNTs causem câncer, mas o resultado recomenda com ênfase que se façam mais pesquisas para avaliar melhor esse risco.
"Ainda não sabemos se os nanotubos de carbono se tornarão aerossóis e serão inalados, ou se, caso de fato alcancem os pulmões, poderão encontrar o caminho até o revestimento sensível mais externo", ressalva Donaldson em comunicado do Projeto sobre Nanotecnologias Emergentes (www.nanotechproject.org). "Mas, se acabarem chegando lá em quantidade suficiente, há uma chance de que algumas pessoas venham a desenvolver câncer -talvez décadas depois de respirar a coisa."
A boa notícia, do ponto de vista da promissora nanotecnologia, é que a reação pré-tumoral não ocorre com fibras MWNT mais curtas, ou curvas.
Para Donaldson, conhecer essas propriedades dos nanotubos facilitará também a pesquisa sobre como evitar seus danos à saúde humana.
"[O artigo] é um chamado de alerta para a nanotecnologia, em geral, e para os nanotubos de carbono, em particular", afirma Andrew Maynard, consultor científico do projeto e co-autor do trabalho. "Não podemos nos permitir não explorar esse material incrível, mas tampouco podemos nos permitir usá-lo erradamente -como fizemos com o amianto."


MARCELO LEITE é autor de "Promessas do Genoma" (Editora da Unesp, 2007) e de "Brasil, Paisagens Naturais - Espaço, Sociedade e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros" (Editora Ática, 2007). Blog: Ciência em Dia (cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br). E-mail: cienciaemdia.folha@uol.com.br

Os dez mitos sobre as cotas

OS 10 MITOS SOBRE AS COTAS

Vamos ao ping-pong das cotas. Aqui o texto pedido por vocês para que fosse publicado. Coloco os mitos. No link se tem o texto na íntegra, discutindo cada ponto.

1- as cotas ferem o princípio da igualdade, tal como definido no artigo 5º da Constituição, pelo qual “todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza”. São, portanto, inconstitucionais.

2- as cotas subvertem o princípio do mérito acadêmico, único requisito que deve ser contemplado para o acesso à universidade.

3- as cotas constituem uma medida inócua, porque o verdadeiro problema é a péssima qualidade do ensino público no país.

4- as cotas baixam o nível acadêmico das nossas universidades.

5- a sociedade brasileira é contra as cotas.

6- as cotas não podem incluir critérios raciais ou étnicos devido ao alto grau de miscigenação da sociedade brasileira, que impossibilita distinguir quem é negro ou branco no país.

7- as cotas vão favorecer aos negros e discriminar ainda mais aos brancos pobres.

8- as cotas vão fazer da nossa, uma sociedade racista.

9- as cotas são inúteis porque o problema não é o acesso, senão a permanência.

10- as cotas são prejudiciais para os próprios negros, já que os estigmatizam como sendo incompetentes e não merecedores do lugar que ocupam nas universidades.



enviada por Luis Nassif

Genômica pessoal chega antes da hora ao mercado

Já é possível comprar pelo correio mapeamentos de DNA de utilidade duvidosa

Há duas classes de serviço, com enormes diferenças no preço e na qualidade; uma sai por cerca de US$ 1.000 e a outra, por US$ 350 mil

MARCELO LEITE
COLUNISTA DA FOLHA

Genômica pessoal, ou medicina personalizada, é o assunto do momento em biotecnologia. Há um ano, não passava de promessa. Agora se tornou objeto de consumo, mas há quem avise que tem gente comprando gato por lebre.
Só existem dois tipos de produto na praça, com uma gama de preço e qualidade similar à que separa uma bicicleta de uma BMW. No primeiro caso, o consumidor pode escolher entre três fornecedores de testes para verificar se tem risco aumentado para no máximo umas 30 "condições" (nem todas são doenças).
A opção mais barata sai na faixa de R$ 1.700 (US$ 1.000). São empresas de comércio eletrônico, como 23andMe, deCODEme e Navigenics. Paga-se com cartão de crédito. O kit para cuspir dentro vem e volta pelo correio.
Todas se limitam a fazer análise de SNPs. É a sigla em inglês de "polimorfismos de nucleotídeo único", um tipo de erro de digitação durante o processo de cópia do DNA durante a evolução das espécies. O genoma de uma pessoa pode ter até 1 milhão de SNPs diferentes do de outra. Cada uma dessas trocas de letras pode ou não estar associada com um risco maior de doença ou... "abobrinhas".
A expressão é de Sergio Pena, geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais e dono do laboratório GENE. Ele encomendou uma análise dos próprios SNPs à deCODEme. "Dos SNPs que eles reportam, alguns são "abobrinhas': calvície, intolerância à lactose, identificação de compostos amargos", critica. "Dos SNPs associados com doenças, em apenas dois casos há riscos relativos altos: trombose venosa e doença de Alzheimer. Estes já são conhecidos há anos e já são oferecidos por muitos laboratórios, inclusive o GENE", alerta Pena. Para ele, é "questionável" se o risco para Alzheimer deveria ser comunicado a consumidores sem intermediação médica.
"O impacto de cada variante genética usada nesses testes é muito pequeno", ressalta Marcelo Nóbrega, geneticista da Universidade de Chicago. Ele cita o caso do diabetes, que tem prevalência de 5% na população: "Um aumento de 20% significaria que o risco passa a 6%. Quem vai mudar drasticamente seu estilo de vida porque tem 6% em lugar de 5% de chance de desenvolver diabetes?"

Primeira classe
A opção mais cara de genoma pessoal chega a quase R$ 600 mil. Só há um provedor, a Knome. O slogan da empresa de Cambridge, Massachusetts (EUA), é "Know thyself" (conhece-te a ti mesmo), frase usada como divisa do oráculo de Delfos, na Grécia, séculos atrás. Mas poucos se lembram de uma máxima inscrita no templo de Apolo: nada em excesso.
A Knome oferece transcrever todos os 6 bilhões de caracteres do genoma de seus 20 primeiros clientes por US$ 350 mil (só anunciou dois até agora). Promete mostrar ao cliente suas chances de ser portador das variantes genéticas ligadas a cerca de 2.000 doenças.
A maioria é de síndromes genéticas raras, comos as de Tay-Sachs, Turner e Huntington. A última equivale a uma condenação: após os primeiros sintomas, quase nada se pode fazer para adiar a morte, que vem 10 a 15 anos depois. Muita gente prefere não saber se a terá.
"Não há quase nada que eu não gostaria de saber. Esse é o meu tipo de pessoa", diz Church. "Mesmo quando não há tratamento, você pode querer agir em benefício de sua família, (...) levantar fundos, conscientizar, fazer pesquisa..."
O geneticista de Harvard já soletrou o próprio genoma -por exigência do comitê de ética que analisava o Projeto Genoma Pessoal. O estudo acadêmico prevê seqüenciar 100 mil pessoas (qualquer um pode se inscrever pela internet: www.personalgenomes.org).
"A maioria das coisas que eu gostaria de não conhecer eu já sabia antes de olhar o meu genoma. Eu gostaria de não saber que posso ter doença cardíaca e câncer de pele (por causa da minha pele clara)." A Knome afirma que não foi procurada por nenhum brasileiro, ainda.


Leia entrevista com George Church no blog Ciência em Dia
http://cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br

sexta-feira, 23 de maio de 2008

EUA vão testar terapia de DNA contra a hemofilia

Estudo tem participação da Unicamp e poderá contar com voluntário brasileiro

Nova técnica, que usa vírus alterado para corrigir gene de pacientes, pode trazer uma melhora parcial com duração de alguns anos

EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL

O primeiro teste em humanos da eficácia de uma terapia de DNA contra a hemofilia começará nos Estados Unidos no mês que vem. O ensaio clínico contra a doença genética, que deve iniciar com nove pacientes, tem a colaboração da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e poderá contar com voluntários brasileiros.
A técnica, desenvolvida pela Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia, já passou em testes de segurança. O método consiste em "dar uma cópia sadia do gene defeituoso [para o organismo]", disse à Folha o brasileiro Valder Arruda, que há uma década trocou a Unicamp pelos EUA.
Nos portadores de hemofilia tipo B -a variedade contra a qual a nova terapia de DNA foi criada-, uma mutação impede a produção do "fator 9", uma proteína fundamental para a coagulação sangüínea. O gene que a codifica é o alvo de ataque da nova terapia.
A ausência do fator 9 é que ocasiona, em diferentes níveis, os problemas típicos da doença. O hemofílico grave pode ter complicações hemorrágicas que iniciam com um simples sangramento na gengiva, por exemplo. Estima-se que uma de cada 30 mil pessoas do sexo masculino em todo o mundo seja portadora dessa variedade de hemofilia.

Crise no transporte
Para criar a nova técnica, os pesquisadores tiveram que superar um dos maiores desafios enfrentados pelas terapias gênicas experimentais: levar o gene sem defeito até o alvo.
A estratégia usada por Arruda e colaboradores, como mostrou a primeira fase do estudo, é segura. Mas só agora, nos novos testes, é que ela será testada em relação à sua eficiência.
"Nós usamos o adenovírus associado [um vírus que não causa doença em humanos] como vetor", afirma o médico brasileiro. Segundo Arruda, essa ferramenta é o que levará a cópia do gene sadio para dentro do organismo. "Esse vírus é inócuo para os seres humanos. Ele tem um poder contaminante tosco", diz o pesquisador.
Por meio de engenharia genética, o material sintético capaz de imitar o gene humano e produzir o fator 9 é montado dentro do vírus, o chamado "vetor", que será depois injetado. O próprio processo de reprodução do vírus é que entrega para as células os novos genes. Se tudo der certo, as células então começam a trabalhar sem a disfunção que os hemofílicos herdam de seus pais.
A hemofilia é bastante rara no sexo feminino exatamente pela sua característica genética. Os tipos mais comuns da doença (A e B) são ligados ao cromossomo X, de uma forma recessiva. Uma menina nasce incapaz de produzir fator 9 apenas se ela tiver um pai hemofílico e uma mãe portadora do mesmo problema. Muitas mulheres têm a disfunção genética, mas sem sintomas.

Efeito limitado
No caso do estudo em curso nos Estados Unidos, diz Arruda, a primeira fase dos testes, entre outras contribuições, serviu para que a dose da terapia fosse calibrada. Agora, os nove pacientes serão testados com novas doses. Cada conjunto de três pessoas vai receber quantidades diferentes. Os cientistas esperam que os níveis de fator 9 aumentem em todos eles.
Mas há outro problema pendente. Na primeira fase dos testes, o sistema imune de um paciente teve reação adversa ao vírus. "Por isso, agora aplicaremos um imunossupressor nos primeiros meses da pesquisa."
Com base em resultados preliminares, os pesquisadores estimam que a melhora obtida com esse primeiro modelo de terapia gênica será parcial e terá uma duração limitada a alguns anos. A palavra cura ainda não chega a ser mencionada.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Grupo identifica gatilho da dengue hemorrágica

Dado pode ajudar no combate de outras doenças

DA REDAÇÃO FSP

Uma descoberta de pesquisadores de Taiwan pode ajudar a combater a dengue e outros tipos semelhantes de vírus, como a febre do Nilo Ocidental e a encefalite japonesa.
Cientistas da Universidade Nacional Yan-Ming (Taiwan) identificaram uma molécula, chamada CLEC5A, que ao interagir com o vírus da dengue em camundongos ocasiona a febre hemorrágica -versão mais letal da doença. Os pesquisadores descobriram que o vírus da dengue "seqüestra" essa molécula das células imunológicas, o que desencadeia uma liberação em massa de citocinas -que são poderosos agentes inflamatórios. Os cientistas já sabem que são eles que causam a inflamação na dengue.
A pesquisa, publicada na revista "Nature", demorou três anos para ser concluída e foi realizada em animais. Os cientistas notaram que, quando a interação do vírus e da molécula é bloqueada com anticorpos, é possível evitar a inflamação sem prejudicar a resposta imunológica do organismo. Além disso, a medida permitiu que 50% das cobaias se livrassem do vírus completamente.
A dengue infecta pelo menos 50 milhões de pessoas por ano em mais de cem países e é uma grande preocupação no Brasil.
Ainda é preciso que esse tratamento passe por diversos procedimentos de validação antes de poder ser aplicado em humanos. Os pesquisadores acreditam que deve levar entre três e cinco anos para o método entrar em teste clínico.
Há quatro tipos de vírus da dengue. Normalmente, as pessoas infectadas pela primeira vez pelo vírus (qualquer um dos tipos) têm a versão mais "leve" da doença. Já no segundo contato com a dengue, há aumento do risco de o paciente desenvolver a versão hemorrágica.
O mecanismo desse tipo mais grave de desenvolvimento da doença ainda não é claro. Pesquisas recentes, por exemplo, mostram que a dengue hemorrágica também ocorre em pacientes infectados pela primeira vez.
Os pesquisadores afirmam que o maior obstáculo atualmente para o tratamento de muitas infecções virais agudas é saber como controlar a inflamação sem atenuar a imunidade contra o vírus.

Sintomas
No Brasil, são observados usualmente três tipos de vírus. Um estudo feito por pesquisadores no Estado do Amazonas, no entanto, mostrou que a dengue tipo 4 voltou ao Brasil, mais de duas décadas após ser registrada em Roraima, em 1982.
O Ministério da Saúde, porém, nega que tenham havido casos recentes.
Os sintomas da dengue clássica são dores de cabeça, cansaço, dor muscular e nas articulações, indisposição, enjôos, vômitos, manchas vermelhas na pele e dor abdominal. Eles duram até uma semana.
Já a dengue hemorrágica inicialmente se assemelha à dengue clássica, mas depois do terceiro ou quarto dia de evolução da doença podem surgir hemorragias, dores abdominais intensas, dificuldade respiratória -que podem levar à morte.

CLEC5A is critical for dengue-virus-induced lethal disease

Szu-Ting Chen1, Yi-Ling Lin2,3, Ming-Ting Huang1, Ming-Fang Wu1, Shih-Chin Cheng1, Huan-Yao Lei4, Chien-Kuo Lee5, Tzyy-Wen Chiou6, Chi-Huey Wong3 & Shie-Liang Hsieh1,3,7

1. Department and Institute of Microbiology and Immunology, National Yang-Ming University, Taipei 112, Taiwan

Nature , | doi:10.1038/nature07013; Received 29 February 2008; Accepted 18 April 2008; Published online 21 May 2008

Dengue haemorrhagic fever and dengue shock syndrome, the most severe responses to dengue virus (DV) infection, are characterized by plasma leakage (due to increased vascular permeability) and low platelet counts1, 2. CLEC5A (C-type lectin domain family 5, member A; also known as myeloid DAP12-associating lectin (MDL-1))3 contains a C-type lectin-like fold similar to the natural-killer T-cell C-type lectin domains and associates with a 12-kDa DNAX-activating protein (DAP12)4 on myeloid cells. Here we show that CLEC5A interacts with the dengue virion directly and thereby brings about DAP12 phosphorylation. The CLEC5A–DV interaction does not result in viral entry but stimulates the release of proinflammatory cytokines. Blockade of CLEC5A–DV interaction suppresses the secretion of proinflammatory cytokines without affecting the release of interferon-alpha, supporting the notion that CLEC5A acts as a signalling receptor for proinflammatory cytokine release. Moreover, anti-CLEC5A monoclonal antibodies inhibit DV-induced plasma leakage, as well as subcutaneous and vital-organ haemorrhaging, and reduce the mortality of DV infection by about 50% in STAT1-deficient mice. Our observation that blockade of CLEC5A-mediated signalling attenuates the production of proinflammatory cytokines by macrophages infected with DV (either alone or complexed with an enhancing antibody) offers a promising strategy for alleviating tissue damage and increasing the survival of patients suffering from dengue haemorrhagic fever and dengue shock syndrome, and possibly even other virus-induced inflammatory diseases.