quinta-feira, 3 de abril de 2008

Gene aumenta risco de câncer de pulmão

Fumantes portadores de variação comum no DNA têm risco até 80% maior de desenvolver doença que não-fumantes

Resultado é de três estudos independentes, que fizeram varredura no DNA de fumantes; variações de risco estão no cromossomo 15

DA REDAÇÃO FSP

Três grupos internacionais de cientistas identificaram pela primeira vez um conjunto de variações genéticas -todas no mesmo trecho do DNA humano- que aumentam o risco de câncer de pulmão nos fumantes. A descoberta mostra que algumas pessoas têm predisposição hereditária ao câncer, o que as torna mais vulneráveis aos efeitos danosos do tabaco.
A descoberta foi feita de forma independente por grupos na França, na Islândia e no Reino Unido. Eles usaram novos métodos para vasculhar o genoma humano e chegaram ao mesmo resultado, o que aumentou a confiança nas conclusões. As descobertas foram publicadas nas revistas "Nature" e "Nature Genetics".
No total, foram analisadas 300 mil mutações no DNA de mais de 12 mil fumantes e ex-fumantes na Europa e na América do Norte. Os pesquisadores chegaram a duas regiões do cromossomo 15 que parecem abrigar os genes ligados à predisposição ao câncer. É aí também que estão os genes que codificam os receptores da nicotina, princípio ativo do cigarro.
"Esse gene é como uma praga dupla", disse Christopher Amos, professor de epidemiologia no M.D. Anderson Cancer Center, nos EUA, e co-autor de um dos estudos, referindo-se a uma das variações genéticas descobertas. "Também torna você mais suscetível a ser dependente de cigarro e menos suscetível a parar de fumar."
Um fumante que herda duas cópias de uma dessas variações genéticas (do pai e da mãe) tem uma chance 80% maior de ter câncer de pulmão do que um fumante sem a variante.
As descobertas podem levar a uma melhor forma de prevenir e tratar o câncer de pulmão, o tipo de tumor mais comum no mundo, que deve atingir só no Brasil 27.300 pessoas em 2008, segundo dados do Inca (Instituto Nacional do Câncer).
"Abre-se a possibilidade para que tratamentos que bloqueiem esses genes possam ser benéficos no tratamento estratégico contra o câncer de pulmão e também contra o vício", disse Paul Brennan, da Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer, em Lyon, França.
O fumo causa nove de dez casos de câncer. Entretanto, apenas cerca de 15% dos fumantes desenvolvem realmente a doença, e os médicos há tempos suspeitam que um elemento genético estivesse envolvido.
Os cientistas salientam que a descoberta não equivale a uma "licença para fumar" para as pessoas sem as variações genéticas. "O que interessa ao indivíduo é o risco absoluto de ter câncer de pulmão", disse Brennan. "Se você fumar a vida inteira, ele é de 15%, e se você não tem nenhuma cópia do gene variante, é um pouco menos. Mas, se você tem as duas cópias, será de cerca de 25%. Obviamente, mesmo em quem não tem nenhuma cópia, ainda há um risco alto para quem fuma."
"Mesmo que um subgrupo de pessoas seja tido como "resistente" aos efeitos do fumo no desenvolvimento do câncer de pulmão, é improvável que essas pessoas também estejam protegidas contra doenças cardíacas e obstrução pulmonar", escreveram Stephen Chanockis, do Instituto Nacional de Câncer dos EUA, e David Hunter, da Universidade Harvard. Eles comentaram os estudos na "Nature" de hoje.
Pessoas que nunca fumaram e que portam essas variações genéticas no cromossomo 15 -cerca de 50% da população possui uma cópia do gene- também podem ter um risco aumentado de desenvolver o tumor, embora os três estudos não estejam de acordo sobre isso. Os genes podem aumentar o risco de câncer simplesmente ao aumentar a dependência, já que a ação cancerígena da nicotina é conhecida.

A variant associated with nicotine dependence, lung cancer and peripheral arterial disease

Nature 452, 638-642 (3 April 2008) Thorgeirsson et al.
Smoking is a leading cause of preventable death, causing about 5 million premature deaths worldwide each year1, 2. Evidence for genetic influence on smoking behaviour and nicotine dependence (ND)3, 4, 5, 6, 7, 8 has prompted a search for susceptibility genes. Furthermore, assessing the impact of sequence variants on smoking-related diseases is important to public health9, 10. Smoking is the major risk factor for lung cancer (LC)11, 12, 13, 14 and is one of the main risk factors for peripheral arterial disease (PAD)15, 16, 17. Here we identify a common variant in the nicotinic acetylcholine receptor gene cluster on chromosome 15q24 with an effect on smoking quantity, ND and the risk of two smoking-related diseases in populations of European descent. The variant has an effect on the number of cigarettes smoked per day in our sample of smokers. The same variant was associated with ND in a previous genome-wide association study that used low-quantity smokers as controls18, 19, and with a similar approach we observe a highly significant association with ND. A comparison of cases of LC and PAD with population controls each showed that the variant confers risk of LC and PAD. The findings provide a case study of a gene–environment interaction20, highlighting the role of nicotine addiction in the pathology of other serious diseases.

A susceptibility locus for lung cancer maps to nicotinic acetylcholine receptor subunit genes on 15q25

Nature 452, 633-637 (3 April 2008) Hung et al.
Lung cancer is the most common cause of cancer death worldwide, with over one million cases annually1. To identify genetic factors that modify disease risk, we conducted a genome-wide association study by analysing 317,139 single-nucleotide polymorphisms in 1,989 lung cancer cases and 2,625 controls from six central European countries. We identified a locus in chromosome region 15q25 that was strongly associated with lung cancer (P = 9 times 10-10). This locus was replicated in five separate lung cancer studies comprising an additional 2,513 lung cancer cases and 4,752 controls (P = 5 times 10-20 overall), and it was found to account for 14% (attributable risk) of lung cancer cases. Statistically similar risks were observed irrespective of smoking status or propensity to smoke tobacco. The association region contains several genes, including three that encode nicotinic acetylcholine receptor subunits (CHRNA5, CHRNA3 and CHRNB4). Such subunits are expressed in neurons and other tissues, in particular alveolar epithelial cells, pulmonary neuroendocrine cells and lung cancer cell lines2, 3, and they bind to N'-nitrosonornicotine and potential lung carcinogens4. A non-synonymous variant of CHRNA5 that induces an amino acid substitution (D398N) at a highly conserved site in the second intracellular loop of the protein is among the markers with the strongest disease associations. Our results provide compelling evidence of a locus at 15q25 predisposing to lung cancer, and reinforce interest in nicotinic acetylcholine receptors as potential disease candidates and chemopreventative targets5.


Com Associated Press e "The Independent"

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Médicos em falta

FSP
A TENTATIVA do governo fluminense de importar pediatras de outros Estados para atender às crianças contaminadas pelo vírus da dengue dá bem a medida da desorganização da medicina pública no país. Faltam pediatras não porque o Rio de Janeiro não os produza, mas porque não consegue motivá-los a trabalhar na rede oficial. Concursos são realizados, mas as vagas não são preenchidas. Essa tem sido uma constante no país.
A principal causa para o fenômeno são os baixos salários oferecidos por Estados e municípios, que, de forma paradoxal, não implicam necessariamente economia de recursos públicos.
Em alguns Estados, para escapar aos baixos salários, médicos se organizaram em cooperativas que prestam serviços à rede oficial. Como em muitas dessas regiões quase todos os especialistas se ligaram às cooperativas, elas adquiriram enorme poder de negociação. Os salários dos médicos melhoraram, mas não a qualidade do serviço.
Ao menos 20% dos 350 mil médicos brasileiros já estão cooperativados. Em Estados como Paraíba, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Espírito Santo, o poder público já não consegue prestar atendimento médico sem servir-se dessas entidades.
Em locais como São Paulo, onde as cooperativas não avançaram tanto, há problemas semelhantes. Como os médicos ganham mal, precisam acumular três ou quatro empregos para assegurar padrão de vida de classe média. Ocorre que, freqüentemente, o patrão é o mesmo: o poder público. Se o profissional recebesse mais, poderia dedicar-se a uma única unidade de saúde, tornando-se mais presente e propiciando ganhos de qualidade para o sistema.
Para reestruturar o setor é preciso, antes de mais nada, definir uma política salarial coerente para os profissionais de saúde. A proposta do governo federal de criar fundações estatais de direito privado para administrar os serviços é um bom começo. Daria liberdade aos gestores, permitindo-lhes pagar mais aos médicos e cobrar-lhes mais, além de demitir aqueles cujo desempenho é inadequado.

Enviado por: Vladimir
Editorial da Folha de hoje,intitulado Médicos esquecidos é uma demonstração cabal da falta de coerência deste informativo.
Agora,ela diz que o salário dos médicos é ruim,com o que,acho,todos concordamos,assim como o dos policiais,professores etc,etc.
Quem nunca concordou com isso foi a Folha,ou será que ela se esquece do número infinito de editoriais que publicou querendo diminuir gastos públicos?
O serviço público brasileiro paga,de uma forma geral,muito pouco a seus servidores. Uma minoria,com os quais nunca se mexe,recebem salários estratosféricos,muitas vezes garantidos por força de decisões judiciais.
A Folha aproveitaria melhor o seu espaço se fizesse uma discussão mais séria sobre isso e não somente para fazer demagogia em momentos de crise de determinadas funções.

Respondido por: Luis Nassif
É curioso esse jogo das afirmações seletivas.

Trivial da dupla do 1o de Abril

Neste mês completa 25 anos um dos clássicos da "barriga" jornalística no país: o caso do "boimate", a cruza de boi com tomate, desenvolvida na Universidade de Hamburger pelo Dr. McDonalds. O autor foi Eurípedes Alcântara, atual diretor de redação da Veja.

Clique aqui para um bom resumo:

O caso boimate. Uma árvore que dá filé ao molho de tomate. E alguém acreditou nisso, por Wilson da Costa Bueno*

Uma competição sobre a maior "barriga" do jornalismo contemporâneo, certamente incluiria o boimate, mas não deixaria de fora as extraordinárias proezas do filósofo Jean-Baptista Botul. Editor responsável pelo feito: Mário Sabino, atualmente diretor adjunto da Veja.

Frédéric Pagès é um jornalista francês, tremendo gozador. Em 1995 ele criou um heterônimo, o filósofo Frances Jean-Baptista Botul (de botulismo).

Botul teve uma vida extraordinária. Conheceu Baden-Powell, namorou a princesa Marie Bonaparte, patrocinadora de Freud na França. Manteve correspondência amorosa com Lou-Andréas Salomé, quando ela tinha 60 anos. Conheceu Zapata e Pancho Villa. E escreveu sua obra prima: “A Vida Sexual de Immanuel Kant”.

A história se passa no Paraguai, em 1946, em Nueva Königsberg, vilarejo também obscuro onde ‘alemães se vestiam com Kant, comiam, dormiam como ele, e faziam a cada tarde o mesmo passeio lendário num cenário reconstituído que evocava as ruas de Königsberg’? Era um vilarejo condenado ao desaparecimento, porque, para seguir o mestre – que morreu virgem – todos os cidadãos eram virgens.

A UNESP lançou o livro. No release enviado à Veja, esqueceu de informar o óbvio: que o Botul era uma gozação.

O livro mereceu uma resenha à altura da revista Veja (clique aqui):

E uma gozação à altura do jornalista Paulo Roberto Pires no No (clique aqui).

Pires ligou para o autor Pagès em Paris:

‘Estes textos do Botul foram descobertos agora’, despista Pagès, às gargalhadas, falando por telefone de sua casa em Paris”.

A resenha foi fichinha. O clássico estava por vir: a correção. Revelada a barriga pelo No, a edição seguinte saiu com a seguinte explicação na seção de Cartas (clique aqui), da lavra de Mario Sabino.

Na resenha "Desrazão pura" (9 de maio), VEJA comentou o livro A Vida Sexual de Immanuel Kant (Editora Unesp) e atribuiu sua autoria ao intelectual francês Jean-Baptiste Botul. Essa informação, contudo, não procede, pois Jean-Baptiste Botul nunca existiu. (...) Excetuada a confusão em torno de Botul-Pagès, A Vida Sexual de Immanuel Kant traz, de fato, inúmeras informações verídicas e divertidas a respeito da vida do filósofo. O trabalho foi avaliado pela revista como "curioso" e "impagável". VEJA não entrou no mérito das interpretações de Botul-Pagès. Os dados e as anedotas citados na resenha podem ser conferidos em obras do próprio Kant, como Metafísica dos Costumes e Reflexões sobre a Educação, em sua correspondência, em biografias como Kant Intime, que reúne reminiscências de três contemporâneos do pensador, e ainda no texto Os Últimos Dias de Immanuel Kant, clássico do escritor inglês Thomas De Quincey. A leitura de tais obras, feita diligentemente pelo resenhista de VEJA, teria poupado a imprensa amadora brasileira dos comentários tolinhos que andou publicando a respeito.

E pau na "imprensa amadora". O atrevido do Paulo entrou para a lista negra da revista.

Que tal aproveitar 1o de abril para recordar causos criativos?


enviada por Luis Nassif

segunda-feira, 31 de março de 2008

O jornalismo de Veja

Luis Nassif

Um exemplo sobre como é o jornalismo de Veja. Estamos aqui discutindo hipóteses, fatos, dados.

A resposta de Veja foi escalar seu blogueiro para novos ataques baixos. Escreve que pratico ou pratiquei "achaques" - como escreveu, durante meses, que eu tinha sido demitido da Folha por ter recebido propinas. Meses e meses, até que Otávio Frias Filho veio a público desmentir a injúria. E o que aconteceu com meses de injúrias? Nada. Agora trocam para "achaques". Nenhum detalhe, nenhum dado. Apenas a acusação de que pratiquei "achaques", com a facilidade e a ligeireza dos doentiamente amorais.

Esse é o padrão de jornalismo digital da Veja, que a Abril não tratou de moderar até hoje. A Editora continua sem rumo, sem controle sobre sua principal publicação, permitindo que as páginas do seu portal sejam invadidas por um padrão que não se encontra nem em regiões de baixo meretrício.

Com a Internet, a Abril se expõe perante o mundo. Qualquer cidadão, de qualquer parte, que quiser analisar a Veja, terá à sua disposição arquivos do mais fétido jornalismo. Não é minha imagem nem de outras vítimas de ataques que serão afetadas. A não ser um grupo de leitores de baixo nível, esses ataques jamais foram levados a sério por qualquer fonte relevante, por qualquer pessoa com um mínimo de raciocínio.

A vítima é a imagem da própria Abril.

Continuo torcendo para que a Editora acorde e recupere os padrões que, em algum ponto distante da história, a tornaram um referencial de qualidade no país.

Para entender melhor esse jogo, leia o capítulo "A Cara da Veja"

Enviado por: Colin

Eu gostaria de ver um analise técnico do último capítulo na saga sem fim de "dossiês" feitos para "chantagear."

É fascinante ver a revista continuar na mesma linha, como se fosse um tubarão com um único comportamento programado no seu cérebro primitivo: continua nadando com a boca aberta, ou morra.

Para mim, esse último "escándolo" foi mais um locus classicus de (1) o uso de fontes anónimas sem a devida justificativa e (2) a divulgação de informações parciais (uma entradas de tal base de dados) sem contexto (do qual informações sobre a fonte formam parte, claro.

Quando você fica acusado de dar espaço a dossiês espúrios, denuncia que seus adversários façam a mesma coisa. Isso também forma parte do "estilo neocon."

Me lembro das acusações deles contra o senhor de ter recebido jabá. Foi importante criar a impressão que o senhor não tinha "moral" de julgar o comportamento deles. "Ladrão chamando ladrão de ladrão." Como Gaspari disse uma vez, "O folclore da corrupção é um bom negócio -- para os corruptos."

Mais o que eu mais respeito nesse projeto seu é a aula que anda dando a focada sobre os fundamentais do jornalismo. A Veja fala muito de moral e ética, mais a revista fica ilegível mais por causa do fator epistemológico do que qualquer outro. Nos convida a acreditarmos em OVNIs sem oferecer a devida entrevista com ET.

Coragem, então, Nassif. Siga escrevendo. Vai dar um belo livro.

Por weden

Uma coisa é importante ressaltar: a banda pobre da redação (justamente porque nem todo profissional ali faz o jogo sujo) está no limite do suportável.

Eles não agüentam mais esta série. Conseguem fingir que não estão incomodados. Contraditoriamente, tentam processá-lo.

O efeito multiplicador da rede deixa-os descofiados de que alguma coisa ruim está por vir.

Sabem que uma revista não vive só de faturamento. O início da rejeição de grupos de leitores mais críticos já é uma realidade.

Mas há algo pior acontecendo: a banda podre da Veja se escondia por trás da marca Veja.

Usaram e abusaram dela porque tinha prestígio. Não desistiram de iniciativas anti-jornalísticas porque o dano no máximo recairia sobre a própria marca, forte no mercado. Usaram o veículo como escudo.

Só que agora suas reportagens começam a deslindar uma rede de profissionais que solapam o capital simbólico da rede, como gerentes de luvas negras na calada da noite.

Antes só se discutia o jornalismo da Veja. Agora se dá nome aos bois. Os nomes estão nas ruas.

O pior para eles não é que a Veja não tenha 1 milhão de leitores. Não se perde 1 milhão de leitores da noite para o dia. E não acredito que qualquer cidadão brasileiro deseje isso.

O pior para eles é simplesmente que a Veja seja "apenas" uma segunda posicionada no mercado.

O medo deles é que passem à História como os responsáveis diretos pela perda da liderança.

Antes não era problema deles. Agora é única e exclusivamente deles.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Estudo explica as bases genéticas da esquizofrenia

Causa da doença está em genes repetidos e apagados, não em mutações simples

Pesquisa americana explica por que genes causadores da doença nunca foram achados e aponta caminho para a busca de terapias

RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCAL FSP

A esquizofrenia é um transtorno mental de influência genética extremamente forte: alguém com um irmão gêmeo univitelino esquizofrênico tem 50% de probabilidade de ter a doença também. Em mais de uma década de pesquisas, porém, geneticistas conseguiram pouco avanço no entendimento da doença. Um estudo publicado hoje na revista "Science" ajuda a explicar por quê.
Durante anos os cientistas procuraram variações genéticas simples -"letras" alteradas no DNA- que fossem comuns entre os portadores da doença. Pesquisadores da Universidade de Washington e do Laboratório de Cold Spring Harbor, ambos nos EUA, porém, mostram agora que o buraco pode ser mais embaixo -e maior.
Os cientistas chegaram ao resultado comparando o genoma de 150 esquizofrênicos com o de 268 pessoas sadias. O trabalho indica que a esquizofrenia pode ser causada por uma grande variedade de mutações, mas em outra escala: em vez de "letras" trocadas, "páginas" e "capítulos" inteiros do DNA que desaparecem ou são duplicados ajudam a explicar a doença.
Trocando em miúdos, o trabalho significa que uma mutação que desencadeie esquizofrenia em uma pessoa pode não causá-la em outra- depende do quanto o gene mutante foi copiado ou apagado. Isso é apenas o início, de certa forma, do entendimento de como essa doença complexa funciona. Mas a descoberta ajuda a chegar à lista de quais genes influenciam a doença, o que pode apontar um caminho para novas drogas contra o distúrbio.

Via de ataque
"Muitos desse genes se aglomeram em vias [conjuntos de genes ativados em seqüência] relacionados com o desenvolvimento cerebral", disse à Folha Jon McClellan, de Washington, um dos líderes do estudo. "Portanto, apesar de cada mutação e cada gene que causam a doença serem diferentes em cada pessoa, tratamentos podem ser desenvolvidos alvejando as vias envolvidas."
Diagnosticada por sintomas como alucinações, pensamentos confusos e emoções distorcidas, a esquizofrenia provoca enorme desgaste emocional e físico em seus portadores. Paranóias e devaneios são comuns nessas pessoas. Cerca de 1% da população global desenvolve a doença em algum grau.
Os mecanismos cerebrais da doença são parcialmente conhecidos e parecem envolver um comportamento anormal da dopamina (molécula que transmite impulsos nervosos) em áreas do cérebro ligadas ao raciocínio. Saber que as mutações que predispõem à doença atuam no desenvolvimento cerebral, porém, é fundamental.
"Isso sugere que há um componente genético forte", diz McClellan. "Contudo, mutações podem ocorrer em função da exposição a certos ambientes, então fatores ambientais ainda podem ter um papel, mesmo que a causa fundamental seja mais genética."
Apesar do avanço, um teste de DNA para o risco de esquizofrenia -semelhante aos que existem para certos tipos de câncer- ainda é uma realidade muito distante, diz o cientista, dada a natureza estatística do trabalho. "Não podemos provar que qualquer mutação tenha causado a doença."
Segundo Emmanuel Dias Neto, geneticista da USP que também estuda a esquizofrenia, o trabalho na "Science" ajuda a explicar por que nenhum grupo até agora tinha encontrado algo como um "gene da esquizofrenia". "Às vezes um grupo estuda um gene e diz que ele está envolvido, depois vem outro grupo diz que não encontrou nada", afirma. "Esse estudo agora ajuda a explicar essa discrepância dos dados e revela que há um grau de dificuldade imenso no processo."

Rare Structural Variants Disrupt Multiple Genes in Neurodevelopmental Pathways in Schizophrenia

Tom Walsh et al. Published Online March 27, 2008
Science DOI: 10.1126/science.1155174

Schizophrenia is a devastating neurodevelopmental disorder whose genetic influences remain elusive. We hypothesize that individually rare structural variants contribute to the illness. Microdeletions and microduplications >100 kb were identified by microarray comparative genomic hybridization (CGH) of genomic DNA from 150 individuals with schizophrenia and 268 ancestry-matched controls. All variants were validated by high-resolution platforms. Novel deletions and duplications of genes were present in 5% of controls versus 15% of cases (P = 0.0008) and 20% of young onset cases (P = 0.0001). The association was independently replicated in patients with childhood-onset schizophrenia compared to their parents (P = 0.03). Mutations in cases disrupted genes disproportionately from signaling networks controlling neurodevelopment, including neuregulin and glutamate pathways. These results suggest that multiple, individually rare mutations impacting genes in neurodevelopmental pathways contribute to schizophrenia.

Pela expansão do ensino superior público

Só 13% dos brasileiros entre 18 e 24 anos freqüentam o ensino superior. Nos países da OCDE, a porcentagem é, em média, de 30%
FSP
É UM truísmo dizer que o desenvolvimento e a riqueza das nações estão diretamente relacionados ao número de seus habitantes com acesso a ensino superior de qualidade. Entretanto, a constatação por si só não tem o condão de mudar a realidade histórica. Nesse contexto, os números relativos ao ensino superior no Brasil, embora apresentem progressos nos últimos anos, permanecem desapontadores.
Dados recentes mostram que apenas 13% dos brasileiros entre 18 e 24 anos freqüentam o ensino superior.
Nos países da OCDE, essa porcentagem é, em média, de 30% e, na Coréia do Sul, de 60%. De resto, apenas 9% da população brasileira conclui o ensino superior, contra 26%, na média, nos países da OCDE.
No final do ano passado, a Unicamp promoveu um fórum sobre o tema em que estudiosos e dirigentes universitários relataram experiências e projetos desenvolvidos no Brasil, na União Européia e nos EUA. A explanação de John Douglass, pesquisador da Universidade da Califórnia (Berkeley), foi um ponto alto da discussão.
Douglass apresentou dados sobre a distribuição dos 3 milhões de estudantes matriculados nas instituições públicas do ensino superior nesse que é o mais populoso Estado americano.
No sistema norte-americano, 74% das instituições são públicas -um predomínio expressivo-, 20% são instituições privadas sem fins lucrativos e 6% são privadas com fins lucrativos. Nesse sistema, aproximadamente 36% da população norte-americana concluiu o ensino superior.
Os dados de Douglass mostram que nos dez campi da UC -um sistema multicampi de universidade classificada como "de pesquisa", semelhante às três estaduais paulistas- estão matriculados 180 mil alunos em cursos de graduação. Já os 23 campi da UEC (Universidade do Estado da Califórnia) -também pública, mas, diferentemente da UC, quase exclusivamente destinada ao ensino de graduação- recebem 370 mil estudantes.
Os outros quase 2,5 milhões de matriculados freqüentam os 107 "community colleges", voltados para a formação geral, vocacional e profissionalizante, com cursos de dois anos, presentes em grande parte dos municípios da Califórnia.
Nos Estados Unidos, segundo Douglass, cerca de 40% dos municípios têm pelo menos um "college" ou universidade. Ressalte-se que há mobilidade dentro do conjunto das instituições públicas: um estudante pode, por exemplo, terminar o "community college" e ingressar na UEC ou na UC.
Esse sistema foi consolidado em 1960, quando a Califórnia aprovou seu plano diretor de ensino superior, resultado de planejamento cuidadoso e de longo prazo. O plano se traduziu em um dos mais completos, abrangentes e qualificados sistemas de ensino superior nos EUA.
O quadro apresentado contrasta agudamente com o que emerge dos dados nacionais. Dos 5,3 milhões de matriculados no ensino superior brasileiro, 25% estão em instituições públicas (Pnad/IBGE, 2006). No Sudeste, essa porcentagem é ainda menor (em São Paulo, está em torno de 15%).
Merece menção o fato de todos os dados disponíveis mostrarem que as universidades públicas são as melhores do país e as únicas em que pesquisas com qualidade reconhecida e em larga escala são realizadas.
Outro dado significativo: no Brasil, segundo dados do Inep/MEC para 2006, apenas 2% dos matriculados no ensino superior cursam programas com caráter vocacional ou profissionalizante. O número para a Coréia do Sul é de 50%.
As propostas e considerações sobre o futuro do ensino superior no Brasil discutidas no fórum da Unicamp apontam a urgente necessidade de ampliar a participação de instituições públicas no ensino superior do Brasil e aumentar o número de jovens com educação superior no país para valores próximos das médias da OCDE.
Numerosos exemplos indicam que esse incremento pode e deve ocorrer em um sistema diversificado de ensino superior sem comprometer a qualidade e sem inviabilizar as várias universidades públicas de comprovada excelência hoje existentes.
Experiências bem-sucedidas em outros países devem ser analisadas com cuidado, dadas as peculiaridades do sistema educacional brasileiro. No entanto, o exemplo da Califórnia mostra que a importância do planejamento a longo prazo, a grande abrangência e a diversidade do ensino superior público, a mobilidade estudantil entre as diversas instituições e a avaliação periódica de desempenho merecem ser levados em consideração nas ações futuras relacionadas ao ensino superior no Brasil.

FERNANDO FERREIRA COSTA , 57, é professor titular da Faculdade de Ciências Médicas e vice-reitor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

segunda-feira, 24 de março de 2008

O novo marco regulatório da educação superior

MARIA PAULA DALLARI BUCCI e RONALDO MOTA

A função realmente capaz de garantir que os cursos satisfaçam a razão pela qual foram autorizados é a avaliação de qualidade

O MINISTÉRIO da Educação vem operando profunda reformulação do marco regulatório da educação superior.
Nas palavras do ministro Fernando Haddad, passa-se do paradigma de que "o Estado avalia e o mercado regula" para uma noção mais afinada com o comando contido no artigo 209 da Constituição Federal, de que "o Estado avalia e o Estado regula".
Para isso, definiram-se claramente três atribuições do MEC em relação à educação superior: regulação, avaliação e supervisão.
No passado recente, o ministério concentrava atenção na regulação, nos aspectos formais da abertura de instituições e cursos. A autorização dava-se principalmente com base em papéis, considerando que o projeto é apenas uma promessa.
A função realmente capaz de garantir que os cursos satisfaçam a razão pela qual foram autorizados é a avaliação de qualidade, renovável periodicamente, conforme dispõe a LDB. A avaliação ganhou muito em profundidade com a instituição do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), pela lei nº 10.861/2004, que criou o Exame Nacional de Estudantes (Enade), visando aferir o desempenho efetivo dos alunos, complementado com a avaliação de cursos e instituições.
A última função que compõe o tripé é a supervisão, que permite ao MEC, a qualquer tempo, pedir informações e determinar as providências necessárias para saneamento das deficiências eventualmente detectadas em instituições e cursos.
O decreto nº 5.773/2006 passou a relacionar regulação e avaliação, prevendo que as avaliações do Sinaes gerem conseqüências. Resultados insatisfatórios poderão impedir o recredenciamento de instituição ou renovação de reconhecimento de curso.
O MEC passa a desempenhar ativamente sua parcela de responsabilidade pela fiscalização da educação superior, voltando sua atenção à realidade acadêmica dos estudantes e do funcionamento concreto dos cursos.
O MEC desencadeou, em outubro passado, a supervisão dos cursos de direito com avaliações insatisfatórias no Enade, motivado por manifestações da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), entre outras.
Os 89 cursos de direito com resultados abaixo do mínimo foram convocados a explicar as razões disso e propor medidas para o saneamento das deficiências. Foi constituída uma comissão de especialistas, que assessorou a Secretaria de Educação Superior (SESu) a analisar a consistência das medidas propostas, confrontando-as com informações colhidas em visitas in "loco".
Algumas instituições já assinaram termo de compromisso com o MEC, com prazo máximo de um ano, ao final do qual receberão nova visita para verificar o cumprimento das providências. Estas, diga-se, muito concretas, incluem diminuição do número de vagas (cerca de 6.300 até o momento), contratação de professores com titulação e ampliação de acervo bibliográfico, entre outras, de modo que resultem em melhoria rápida e consistente do ensino.
Ao final do prazo, se não obtido o saneamento, o MEC instaurará processo administrativo, que poderá resultar no fechamento do curso, garantidos, evidentemente, o contraditório e a ampla defesa.
Essas iniciativas de supervisão representam o que há de mais inovador em relação às práticas anteriores, na medida em que servem, mais do que a aplicar medidas sancionatórias de fechamento de cursos (o que alguns segmentos da sociedade sugerem), para induzir a melhoria efetiva de sua qualidade e, conseqüentemente, da formação de pessoal de nível superior, tão necessária para o desenvolvimento do país.
Por fim, cumpre noticiar que esse conjunto de iniciativas vem passando pelo teste realmente decisivo em relação a qualquer marco regulatório, que é o do Poder Judiciário.
Emblemática é a afirmação da juíza da 13ª Vara Federal: "É legítimo o procedimento instaurado pela SESu/MEC, nos limites do poder de polícia a ela por lei conferido, tendente à apuração de possíveis deficiências nos cursos jurídicos", decisão confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região: "Detectado o problema em uma área específica, tem a administração que atuar".


MARIA PAULA DALLARI BUCCI, 44, mestre e doutora em direito pela USP, é consultora jurídica do Ministério da Educação.
RONALDO MOTA, 52, doutor em física pela University of British Columbia e pela University of Utah, professor titular da Universidade Federal de Santa Maria (RS), é o secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Idéias para a educação

Em colunas anteriores, mostrei as posições do Ministro da Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo em relação às questões do desenvolvimento e da Amazônia.

Vamos analisar, hoje, as posições em relação à educação, a partir de estudos produzidos por ele e pelo Ministro da Educação Fernando Haddad.

***

Dos estudos de ambos se constata o seguinte.

A melhora da qualidade do ensino público é uma prioridade nacional. Para se alcançá-la, propõe-se duas iniciativas:

1. Construção de uma rede de escolas medias federais, com dimensão técnica e profissional.

2. A segunda é proposta para reconciliar a gestão das escolas pelos Estados e Municípios com padrões nacionais de investimento e qualidade.

Em relação às escolas técnicas, a meta será absorver 10% das matrículas totais do ensino médio. Nos últimos anos, aliás, tornou-se consenso a importância das escolas técnicas na formação escolar.

Com os 10% de matrícula, a idéia será trazer um impacto maior do que um mero programa piloto.

***

Segundo o estudo, o elo mais fraco do sistema escolar é justamente o médio. Nos últimos anos houve inclusive redução do número de alunos matriculados.

Além de melhorar a qualidade, o ensino médio permitirá mudar o paradigma atual do ensino brasileiro. Hoje em dia, ainda se privilegia o chamado ensino enciclopédico e informático – com excesso de informações (desnecessárias em um ambiente de inclusão digital e de abundância de disponibilidade de informações).

A proposta é reforçar dos aspectos da Educação: os métodos de análise verbal e numérica e o uso criterioso da informação. Ou seja, ensinar a pensar e a verbalizar.

***

Em relação ao modelo pedagógico das escolas técnicas, o trabalho constata que não será suficiente oferecer ensino tradicional rigidamente especializado. Ou seja, não se vai ensinar o aluno a especialização A ou B.

Hoje em dia, exige-se do trabalhador um conjunto de capacitações conceituais e práticas genéricas. Por exemplo, modelos de gestão, de organização do pensamento, de uso de ferramentas de informática. Ministrar ensino especialista para o aluno de uma escola técnica significará confiná-lo a profissões de pouco futuro e pouco espaço de especialização.

***

Para avançar na gestão local das escolas por estados e municípios, o trabalho propõe algumas ações.

Primeiro, avançar no sistema nacional de monitoramento e avaliação, que já possui ferramentas como Prova Brasil e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), que permite redistribuir recursos e quadros dos lugares mais ricos para os mais pobres.

Quando uma rede escolas local não consegue atingir níveis mínimos de qualidade, hoje em dia existem os Planos de Ações Articuladas (PAR), expediente previsto no Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) que torna realidade o regime de colaboração.

A idéia será ampliar esse tipo de ação, através da criação de órgãos conjuntos com governo federal, estaduais e municipais, visando atuar sobre os estados que ficarem para trás.


enviada por Luis Nassif

Estudo detecta abundância de micróbios na chuva e na neve

Organismos analisados por grupo americano causam doenças principalmente em plantas; eles usam a atmosfera como uma forma eficiente de transporte

RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL FSP

Neve e chuva caindo na sua cabeça não incluem apenas gelo e água. Um estudo feito em várias partes do mundo mostrou que um bom número de micróbios vêm junto, pois eles surpreendentemente estão envolvidos diretamente com o processo da precipitação.
Mas não é preciso ter medo de uma chuva de doenças. A pesquisa mostrou que no caso da neve, são principalmente patógenos de plantas -micróbios causadores de doenças- que são transportados.
"Não conheço nenhum patógeno humano capaz de catalisar a formação de gelo, o foco do nosso estudo. Os organismos mais estudados que têm essa propriedade são patógenos de plantas, pois isso deve ser um meio pelo qual eles facilitam a transferência pela atmosfera para uma nova planta hospedeira", disse à Folha o líder da equipe de cinco pesquisadores, Brent Christner, da Universidade Estadual da Louisiana, em Baton Rouge.
"Ao fazer isso, os patógenos podem ter um efeito ainda não reconhecido no ciclo de precipitação", afirma Christner. O estudo promete ser útil para a investigação das relações entre o clima e o universo dos organismos vivos, a biosfera.
A neve, e também boa parte da chuva, surgem do crescimento de pequenos cristais de gelo no interior das nuvens. O gelo se forma em torno de partículas chamadas aerossóis. Diversos tipos de partículas podem servir como "nucleadores" do gelo, incluindo seres vivos, como bactérias.

Abundância
Apesar de já conhecidos dos cientistas faz 40 anos, não existe ainda uma estimativa sobre esses componentes biológicos na atmosfera. O estudo de Christner e colegas mostrou agora uma inesperada abundância deles.
Eles coletaram amostras de neve recentemente caída em vários locais do mundo, na França, no estado americano de Montana e também na região da Antártida.
A técnica envolveu amostras de pelo menos 1 kg de neve fresca coletadas de forma asséptica e depois testadas para checagem do componente biológico.
"O resultado surpreendente foi que em cada amostra que nós analisamos nós fomos capazes de detectar nucleadores de gelo em temperatura mais mornas, e a grande maioria era de origem biológica", declarou Christner em uma entrevista divulgada pela revista científica americana "Science" (www.sciencemag.org).
Os nucleadores biológicos permitem à água congelar em temperaturas mais quentes do que normalmente ocorre.
As amostras incluíam células e fragmentos de células. Na neve da Antártida, o material biológico estava em menor quantidade do que nas dos Estados Unidos e da França.

Chuva induzida
"Em termos de saúde humana não existe realmente nada para se preocupar. Mas o mesmo não pode ser dito sobre plantas. Mas, por outro lado, isso pode não ser tão ruim para elas, porque esses micróbios induzem precipitação, que é obviamente importante para a planta", conclui o pesquisador.
No futuro, poderia ser possível induzir chuva em regiões áridas ao se plantar mais espécimes de plantas que abrigam mais patógenos, ele especula.
"Nossos resultados indicam que essas partículas estão amplamente dispersas na atmosfera e que, se presentes nas nuvens, elas podem ter um papel importante na iniciação da formação de gelo, especialmente quando as temperaturas mínimas das nuvens são relativamente quentes", escreveram os pesquisadores em uma nota breve publicada há duas semanas na "Science".
Embora não relatado no trabalho publicado na revista, os cientistas também obtiveram resultados semelhantes e surpreendentes com nucleadores biológicos encontrados em amostras de chuva na região de Louisiana, sul dos EUA.

Ubiquity of Biological Ice Nucleators in Snowfall


Brent C. Christner,1* Cindy E. Morris,2 Christine M. Foreman,3 Rongman Cai,1 David C. Sands4

Despite the integral role of ice nucleators (IN) in atmospheric processes leading to precipitation, their sources and distributions have not been well established. We examined IN in snowfall from mid- and high-latitude locations and found that the most active were biological in origin. Of the IN larger than 0.2 micrometer that were active at temperatures warmer than -7°C, 69 to 100% were biological, and a substantial fraction were bacteria. Our results indicate that the biosphere is a source of highly active IN and suggest that these biological particles may affect the precipitation cycle and/or their own precipitation during atmospheric transport.

1 Department of Biological Sciences, Louisiana State University, Baton Rouge, LA 70803, USA.
2 L'Institut Nationale de la Recherche Agronomique, Unité de Pathologie Végétale UR407, F-84140 Montfavet, France.
3 Center for Biofilm Engineering and Department of Land Resources and Environmental Sciences, Montana State University, Bozeman, MT 59717, USA.
4 Department of Plant Sciences and Plant Pathology, Montana State University, Bozeman, MT 59717, USA.

domingo, 16 de março de 2008

Inteligência antivírus

Grupo olha para as assinaturas genéticas das epidemias
Em 1990, o Brasil ainda apresentava mais de 60 mil casos confirmados de sarampo e quase 500 mortes. Cinco anos depois, eram menos de mil casos, graças à vacinação, e só uma dezena de óbitos. Aí, em 1997, a casa caiu.
Depois de um aumento suspeito no ano anterior, para 3.372 casos, veio a explosão: 53.664, em 1997, com 60 mortes. Mais de 42 mil desses casos pipocaram no Estado de São Paulo.
Amostras foram enviadas para os Centros de Controle de Doenças em Atlanta (EUA), famosos pela sigla CDC. Era a praxe epidemiológica da época, quando havia vírus na parada. Demorou três anos para especialistas brasileiros ficarem sabendo que muitos dos casos haviam sido causados por vírus revertidos de vacinas. Ou seja, partículas "ressuscitadas" pelo remédio para combater a própria doença. Um exemplo proverbial de tiro saído pela culatra.
Hoje em dia essa demora seria impensável, afirma o virologista Paolo Zanotto, da USP. Graças a uma rede de laboratórios que começou a nascer naquele pânico de 1997, o país pode hoje fazer centenas de análises simultâneas para identificar a variante do vírus envolvido numa epidemia.
Como tantas iniciativas fomentadas pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), esta também foi batizada em inglês: Viral Genetic Diversity Network (VGDN).
Em bom português, Rede de Diversidade Genética de Vírus. A VGDN ganhou no mês passado as páginas do periódico científico "PLoS Biology" (biology.plosjournals.org). Sob o título "Acelerando a Virologia no Brasil", o artigo vem assinado por Zanotto e mais sete cientistas. Entre eles o físico José Fernando Perez, incluído por ter sido decisivo no surgimento da rede, quando atuava como diretor científico da Fapesp (Perez hoje atua como empresário).
A Fapesp não economizou dinheiro para pôr de pé esse setor de inteligência antivírus. Após um investimento inicial de US$ 2 milhões, outros US$ 7,5 milhões foram despejados para montar e aparelhar a rede com cinco laboratórios principais e 17 laboratórios-satélites, a partir de 2001.
Metade da verba foi para a construção de sete laboratórios com nível de segurança 3 (segundo mais alto na escala). São salas herméticas, das quais o ar só sai depois de filtrado, para evitar escape de agentes infecciosos. A primeira do Brasil foi inaugurada em 2003 no Instituto de Ciências Biomédicas da USP.
Tanto cuidado é necessário para a VGDN obter o que mais interessa: informação genética. É dos genes do vírus que se obtém sua identidade e, muitas vezes, a chance de compreender como atua uma determinada variante em seu confronto com a espécie humana.
"Em vez de olhar a epidemia pelo lado humano, invertemos a posição", explica Zanotto. "Olhamos para as assinaturas genéticas e nos sentamos no lugar do vírus, encarando a epidemia de sua perspectiva."
O pesquisador promete novidades para breve sobre vários vírus, de estudos realizados graças ao banco de dados da VGDN. Entre eles a variante Araraquara do hantavírus, agente misterioso que se infiltra entre roedores silvestres e passou a atacar humanos a partir do rio Hantan, durante a Guerra da Coréia (1950-1953).
O hantavírus causa hemorragias graves. Houve meio milhar de casos no Brasil, em duas décadas. Quase metade dos infectados morre.
Por aqui, de falência de coração e pulmões (na Ásia, dos rins). A unidade de inteligência VGDN já começa a desvendar como e por quê.

MARCELO LEITE FSP

quinta-feira, 13 de março de 2008

USP endurece regras de jubilação de estudantes

JOSÉ ERNESTO CREDENDIO
FÁBIO TAKAHASHI
DA REPORTAGEM LOCAL FSP

Uma mudança no regimento geral da USP alterou as regras para cancelar a matrícula (jubilação) de alunos que deixem de freqüentar cursos.
A partir da nova resolução, assinada pela reitora Suely Vilela, ficaram menores os períodos em que o aluno pode permanecer fora da universidade sem perder automaticamente o direito à matrícula. O prazo caiu de três para dois semestres consecutivos sem matrícula.
Avaliada desde 2005, a medida foi aprovada pelo Conselho Universitário no último dia 4 e passou a vigorar anteontem.
As mudanças, porém, só começam a ser aplicadas aos estudantes que entraram na universidade a partir deste ano. A USP conta com cerca de 50 mil alunos na graduação.
"A intenção da nova regra é identificar com mais antecedência aquele aluno que evadiu, para podermos usar essa vaga", disse o professor Quirino Augusto de Camargo Carmello, coordenador da câmara do conselho de graduação que analisou a mudança.
Anualmente, a USP realiza um concurso de transferência, para que estudantes de outras instituições possam ocupar as vagas ociosas.
Outra mudança determinada pelo conselho prevê que o aluno perde a matrícula quando ficar dois semestres seguidos sem nenhum crédito (ou seja, aprovado em ao menos uma disciplina). O regimento antigo previa até quatro semestres.
Uma das alterações mais contundentes do regimento acaba com a possibilidade de o aluno ficar indefinidamente fora da universidade sem perder o vínculo de forma definitiva.
O estudante excluído podia pedir reanálise e, havendo vaga, retomar o curso a qualquer momento (mesmo que 20 anos depois). Agora há um limite de cinco anos para isso -e o pedido só poder ser feito uma vez.

Em viagem
A Folha procurou a reitora para comentar a mudança no regimento da universidade, mas a assessoria de imprensa informou que ela está em viagem oficial e não pôde conceder entrevista. A instituição não informou quantos alunos são jubilados anualmente.
A reportagem procurou também o DCE (Diretório Central de Estudantes) ontem, mas ninguém da diretoria estava. A Folha deixou recados, mas ninguém da entidade telefonou de volta para o jornal até a conclusão desta edição.
"A mudança no regimento ajuda a controlar problemas causados pela evasão, mas é preciso informar ao aluno quando ele estiver prestes a ser jubilado", diz o presidente da Adusp (Associação dos Docentes da USP), Otaviano Helene.
Helene criticou somente o estabelecimento de prazos para que o estudante apresente pedido para ser reincorporado. "É desnecessário, porque não implica nenhum custo para a universidade."

Gene "mafioso" controla câncer de mama

Japoneses radicados nos EUA descobrem um segmento de DNA que coordena a função de outros mil genes tumorais

Pesquisadores afirmam que mecanismo tem papel no surgimento da metástase; desligamento de gene pode resultar em tratamento

NIST
Células de tumor de mama que apresentam gene defeituoso


RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL

Não é sempre que um chefão da máfia ou do narcotráfico é preso ou leva uma bomba na cabeça. O mesmo acontece com genes ligados a doenças: nem sempre se consegue provar a sua culpa. Uma equipe de pesquisadores nos EUA identificou agora um gene capaz de controlar outros mil genes como se fosse um líder de gangue, e com isso promover o crescimento dos tumores de mama.
Mais grave ainda, o gene "mafioso", o SATB1, tem papel ativo na formação de outros focos de câncer no organismo -o processo chamado metástase, que é a causa de morte mais comum em pacientes da doença.
O estudo foi liderado pelos casal de pesquisadores Terumi Kohwi-Shigematsu e Yoshinori Kohwi, do Laboratório Law- rence Berkeley, da Universidade da Califórnia em Berkeley.
A descoberta pode servir tanto para criar diagnósticos mais precoces e precisos quanto para uma eventual terapia. "O SATB1 pode ser útil como alvo terapêutico na doença de mama com metástase", escrevem os autores em artigo na edição de hoje da revista "Nature".
Os cientistas também demonstraram em experimentos com camundongos que, depois de inativado o gene, também termina a proliferação alucinada das células tumorais.
O SATB1 e a proteína que ele codifica têm um papel normal num organismo sadio. Ele é uma espécie de "organizador" de outros genes, mas pode voltar esse talento para o "crime" e causar tumores agressivos que crescem e se espalham.
"Depois que o chefe do crime é retirado do contato com sua gangue -as células de mama tumorais-, essa comunidade retorna a ser uma comunidade sadia, não tendo mais a habilidade de se engajar em crime. Por isso é extremamente importante alvejar o SATB1", disse Kohwi-Shigematsu à Folha.
Segundo a pesquisadora, uma vez reprimido o gene, o câncer perde seu potencial de agressividade. "Mas é importante que o SATB1 seja mantido assim a longo prazo, para evitar que as células cancerosas voltem a se espalhar", afirmou.
O SATB1 é necessário quando células T do sistema imunológico (de defesa do organismo) são ativadas para produzir citocinas, substâncias que promovem a produção de anticorpos por outras células de defesa, as células B. Se o SATB1 for retirado de células T sadias, os pacientes sofrem problemas na sua reação imunológica.
"Só que nós descobrimos, inesperadamente, que ele se expressa em um subconjunto de células cancerosas e essas células ganham atividade de metástase. O SATB1 é, de fato, determinante para a metástase do câncer de mama", diz a cientista nascida no Japão.
Essa descoberta também modifica a maneira pela qual os cientistas compreendem a metástase, um processo de várias fases, desde a invasão das células tumorais em tecidos adjacentes até sua ida para a circulação e criação de um novo foco em outra parte do corpo.
Em geral, acreditava-se que as células metastáticas seriam raras e surgiriam em estágios finais da progressão do tumor a partir de mudanças genéticas. A novidade agora foi mostrar que há células em alguns tumores primários que já são predispostas à metástase e que a proteína SATB1 tem papel nisso.

SATB1 reprogrammes gene expression to promote breast tumour growth and metastasis

Hye-Jung Han1, Jose Russo2, Yoshinori Kohwi1,3 & Terumi Kohwi-Shigematsu1,3
Mechanisms underlying global changes in gene expression during tumour progression are poorly understood. SATB1 is a genome organizer that tethers multiple genomic loci and recruits chromatin-remodelling enzymes to regulate chromatin structure and gene expression. Here we show that SATB1 is expressed by aggressive breast cancer cells and its expression level has high prognostic significance (P <>1,000 genes, reversing tumorigenesis by restoring breast-like acinar polarity and inhibiting tumour growth and metastasis in vivo. Conversely, ectopic SATB1 expression in non-aggressive (SKBR3) cells led to gene expression patterns consistent with aggressive-tumour phenotypes, acquiring metastatic activity in vivo. SATB1 delineates specific epigenetic modifications at target gene loci, directly upregulating metastasis-associated genes while downregulating tumour-suppressor genes. SATB1 reprogrammes chromatin organization and the transcription profiles of breast tumours to promote growth and metastasis; this is a new mechanism of tumour progression.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Acelerando a transferência do conhecimento

A ampliação do número de doutores nas corporações é um vetor capaz de acelerar a absorção e a incorporação rápida do avanço científico

FSP

O SANTA FE INSTITUTE (SFI) , localizado no alto das montanhas do Novo México, nos Estados Unidos, é um símbolo de pesquisa avançada, marcada pelos estudos sobre complexidade, pelo enfoque multidisciplinar e pela ousadia.
Ousadia essa que se manifesta nos temas ambiciosos das pesquisas em andamento e na convivência de diferentes culturas e múltiplas áreas do conhecimento científico.
Os grandes temas cobrem desde a física dos sistemas complexos até estudos quantitativos sobre o comportamento humano e as instituições sociais, abordando grandes problemas como mudanças climáticas, violência, terrorismo e epidemias. No tradicional chá, servido diariamente às 15h, debate problemas vários um seleto grupo de professores e pesquisadores, que inclui desde Murray Gell Mann, Prêmio Nobel de Física, até o escritor Cormac McCarthur, ganhador do Prêmio Pulitzer e autor de vários livros, entre eles o romance que inspirou o filme "Onde os Fracos Não Têm Vez", ganhador do Oscar de melhor filme deste ano.
Não custa dizer que toda essa ousadia está solidamente lastreada em pesquisas cujos resultados aparecem freqüentemente nas mais prestigiosas revistas científicas, como a "Nature" e a "Science". O Santa Fe Institute é uma instituição privada, totalmente independente, financiada por agências do governo e recursos oriundos do setor privado. O que, no entanto, torna esse pequeno instituto uma jóia no cenário científico internacional?
Não é apenas uma ambiciosa e arriscada agenda de pesquisa, mas também a forma como ele se relaciona com a sociedade e as empresas. Como pesquisador-visitante durante um período, fui convidado a fazer uma apresentação em um evento organizado pelo instituto, com o objetivo de ampliar a rede de relacionamento do SFI com o mundo corporativo. Algo pouco usual para os tradicionais institutos de pesquisa. Uma questão logo me ocorreu: como os resultados de pesquisas básicas, voltadas para avançar o conhecimento fundamental em áreas distantes do horizonte empresarial, iriam despertar a participação de executivos e estrategistas de grandes empresas?
No seminário, estavam representantes de algumas das maiores empresas globais de diferentes setores da economia e vários pesquisadores, que incluíam biólogos, matemáticos, antropólogos, economistas, físicos e cientistas da computação. O foco era, no entanto, bem claro: apresentar resultados de pesquisas, na maior parte das vezes resultados de pesquisas multidisciplinares, mas apoiados em sólidas teorias quantitativas.
A ponte entre a pesquisa e sua aplicabilidade para as empresas estava a cargo dos participantes, e não dos pesquisadores, que na maior parte dos casos, desconhecem os problemas da realidade das empresas. A inversão da ordem dessa equação tradicional de transferência do conhecimento requer uma condição básica: que os geradores do conhecimento e os receptores tenham níveis compatíveis de formação e informação. O que em termos práticos traduz-se na necessidade das empresas e indústrias terem profissionais com doutorado em seus quadros.
As pesquisas em si já tinham algo de inovador, algo além da fronteira das disciplinas, que desperta múltiplas possibilidades de análise. Na apresentação de uma teoria formal e quantitativa sobre evolução cultural de diferentes grupos sociais em diferentes países, os participantes das empresas estabeleceram de imediato uma ligação entre o modelo proposto e sua aplicabilidade aos problemas decorrentes dos processos de fusão de grandes corporações.
Nessa experiência inovadora do SFI, colocando juntos pesquisadores e executivos, ciência básica e pragmatismo empresarial, vêem-se alternativas para a aceleração da inovação no Brasil. A transferência do conhecimento científico e tecnológico é um componente essencial para o país avançar no desenvolvimento econômico. A ampliação do número de doutores na indústria e nas grandes corporações é um vetor capaz de acelerar a absorção e a incorporação rápida do avanço científico e tecnológico. A aproximação efetiva do setor privado e instituições de pesquisa científica e tecnológica, por meio da proposição de problemas estratégicos e do financiamento da pesquisa, abre caminhos para acelerar o processo de inovação tecnológica no Brasil.


VIRGILIO FERNANDES ALMEIDA é professor titular do Departamento de Ciência da Computação da UFMG e membro da Academia Brasileira de Ciências.

A cara da Veja

A cara da Veja, para todos os leitores que freqüentam o portal da revista, é o Blog de Reinaldo Azevedo.

Assista à campanha institucional da revista. Analise as imagens, mostrando os problemas nacionais, a miséria, as criancinhas, a violência. E confira, na prática, “qual o pais” que Veja quer ser.

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quinta-feira, 6 de março de 2008

turista brasileiro na espanha

O tema dos turistas brasileiros na Espanha voltou com força total. Há um mês aqui neste espaço tratamos deste assunto, reclamando da inércia do Itamaraty. A afronta continua e o truculento não vai respeitar o frouxo. A imigração no Aeroporto de Barajas escalou a virulência, ontem deteve 30 estudantes brasileiros e os deportou, incluindo dois mestrandos que estavam na programação oficial de um congresso em Lisboa e viajavam com recursos da Uviversidade Estadual do Rio de Janeiro.
Considerações : A partir da primeira crise, da física Patricia , detida e deportada, o Governo brasileiro nada fez.
Alguns leitores aqui disseram que era um absurdo fazer represálias, algo que hoje o Itamaraty em nota menciona. Já devia ter feito antes e agora não deveria ameaçar, deveria agir. Parece aquele falso valentão que começa tirando o paletó e vai arregaçando a camisa em câmara lenta. Não vão fazer nada.
Represálias simples e de rápido efeito :
1.Aviso oficial aos brasileiros para que evitem a Espanha.
2.Suspensão por 30 dias de v|ôos do Brasil à Espanha, por este País não assegurar tratamento digno ao passaporte brasileiro. Se 30 dias não resolveram, prorrogar para um ano.
3.Suspender a entrada de espanhois no Brasil.
A truculência da imigração espanhola ultrapassa todos os limites da razoabilidade. Estão atuando por preconceito e cabe a um Governo que se dê ao respeito defender seus cidadãos, não somos o Timor Leste ou o Benin o Brasil tem caife.
Mas falta outra coisa.

Coiled-Coil Irregularities and Instabilities in Group A Streptococcus M1 Are Required for Virulence

Case McNamara,1* Annelies S. Zinkernagel,2 Pauline Macheboeuf,1 Madeleine W. Cunningham,3 Victor Nizet,2,4 Partho Ghosh1,5{dagger}
Science 7 March 2008:
Vol. 319. no. 5868, pp. 1405 - 1408
Antigenically variable M proteins are major virulence factors and immunogens of the human pathogen group A Streptococcus (GAS). Here, we report the ~3 angstrom resolution structure of a GAS M1 fragment containing the regions responsible for eliciting type-specific, protective immunity and for binding fibrinogen, which promotes M1 proinflammatory and antiphagocytic functions. The structure revealed substantial irregularities and instabilities throughout the coiled coil of the M1 fragment. Similar structural irregularities occur in myosin and tropomyosin, explaining the patterns of cross-reactivity seen in autoimmune sequelae of GAS infection. Sequence idealization of a large segment of the M1 coiled coil enhanced stability but diminished fibrinogen binding, proinflammatory effects, and antibody cross-reactivity, whereas it left protective immunogenicity undiminished. Idealized M proteins appear to have promise as vaccine immunogens.

A Cholesterol Biosynthesis Inhibitor Blocks Staphylococcus aureus Virulence

Chia-I Liu,1,2,3* George Y. Liu,4* Yongcheng Song,5*Fenglin Yin,6 Mary E. Hensler,7 Wen-Yih Jeng,1,2Victor Nizet,7,8{dagger} Andrew H.-J. Wang,1,2,3{dagger} Eric Oldfield5,6{dagger}

Science 7 March 2008:
Vol. 319. no. 5868, pp. 1391 - 1394
Staphylococcus aureus produces hospital- and community-acquired infections, with methicillin-resistant S. aureus posing a serious public health threat. The golden carotenoid pigment of S. aureus, staphyloxanthin, promotes resistance to reactive oxygen species and host neutrophil-based killing, and early enzymatic steps in staphyloxanthin production resemble those for cholesterol biosynthesis. We determined the crystal structures of S. aureus dehydrosqualene synthase (CrtM) at 1.58 angstrom resolution, finding structural similarity to human squalene synthase (SQS). We screened nine SQS inhibitors and determined the structures of three, bound to CrtM. One, previously tested for cholesterol-lowering activity in humans, blocked staphyloxanthin biosynthesis in vitro (median inhibitory concentration ~100 nM), resulting in colorless bacteria with increased susceptibility to killing by human blood and to innate immune clearance in a mouse infection model. This finding represents proof of principle for a virulence factor–based therapy against S. aureus.

Joshua Lederberg (1925-2008)

Stephen S. Morse*

Science 7 March 2008:

Joshua Lederberg was one of the great scientists of our age. With his death on 2 February, the world has lost one of its foremost scientific intellects, as well as an extraordinary humanitarian.

These qualities were apparent early in his life. Descended from a long line of rabbis, Josh was expected to continue the tradition. But at age 10, when he decided to become a scientist instead, his father reassured him that "All those who seek the truth are doing God's work." And when two high-school classmates died in World War II, he vowed to make up for their sacrifice by his own life and work (he was too young to be in the war himself).

For the many people he helped over the years, Josh was the ultimate mentor. Twenty years ago at a Rockefeller University gathering that I attended, his wife Marguerite reminded him that he had some virology questions. So began a continuing conversation. Following up, I sent Josh a memo about "emerging viruses," and shortly afterwards received a handwritten note declaring, "The problem of emerging viruses is one that must be addressed at the highest levels." This led to the "Conference on Emerging Viruses" that John LaMontagne and I organized at the National Institutes of Health in 1989, in which Josh actively participated. He organized and chaired a landmark Institute of Medicine study on "Emerging Infections: Microbial Threats to Health in the United States" (published in 1992), and the subsequent "Forum on Emerging Infections" (now the "Forum on Microbial Threats"), and invited me to work with him on these committees.

Born in Montclair, New Jersey, in 1925, Josh grew up in New York City. After graduating from Columbia University in 1944, and 2 years in medical school, he decided on a career in research. Transferring to graduate school at Yale University, he studied with Edward Tatum and received his Ph.D. in 1947. His receipt of the Nobel Prize in 1958 was based largely on his graduate research on the organization of the genetic material in bacteria and on genetic recombination. His work on genetic transfer by conjugation opened the door to molecular biology with bacteria. At the University of Wisconsin, he and his graduate student Norton Zinder discovered transduction, a mechanism of genetic exchange in bacteria facilitated by bacteriophage. Many bacterial virulence factors are now known to be acquired in this way. In 1959, Josh moved west to start the Department of Genetics at Stanford University. He returned to New York in 1978 as the fifth president of The Rockefeller University. When he officially retired as president in 1990, he reopened his lab, and nurtured many creative young scientists. It was not uncommon to spot him on campus wearing a short-sleeved shirt and a Rockefeller baseball cap.

Figure 1
CREDIT: HULTON-DEUTSCH COLLECTION/CORBIS
His abiding biological interest was in the sources of genetic variation and the effects of natural selection. Fascinated by the complex relationships between humans and microbes, he remained concerned that future plagues might devastate humankind.

Josh also had a gift for the apt metaphor. He noted that "the historiography of epidemic disease is one of the last refuges of the concept of special creationism." In recent years, he adopted the metaphor of the food chain, comparing humans and microbes and questioning which was really at the top of the chain. He referred to a "World Wide Web of microbial genomes," prefiguring metagenomics. After hearing him speak, the listener might be struck later by profound observations that had initially gone unnoticed.

A great visionary, Josh was endlessly curious and creative. His footprints can be found in many fields. In addition to his wide interests in biology, he had long been interested in the use of computers in science and was a pioneer in the field of bioinformatics. At Stanford, he collaborated on DENDRAL, an early project in chemical-analysis expert systems using computers. Later, he helped develop the concept of the "collaboratory," a virtual collaboration across geographic boundaries. The advent of the Internet is now helping to bring that dream to fruition. Appropriately, electronic copies of many of his personal papers are available on the Web at the National Library of Medicine.

Perhaps less known is his interest in exobiology (a term he coined). After the launch of the Sputnik satellite in 1957, Josh wanted to ensure that biological science was part of space research programs. His earliest scientific efforts with the National Aeronautics and Space Administration were directed toward developing approaches to identify life on other planets. Later, he advised the agency on precautions for decontaminating returning spaceships.

Josh was a central figure in science policy, and was generous with his time whenever the government or colleagues needed his advice. Before back pain and complications of orthopedic surgery precluded travel, he would regularly shuttle between New York and Washington, DC, sometimes making several round trips a week. At one meeting, he characteristically joked, "We always meet in the most expected places."

In the last few years, despite often being in pain, his eyes lit up whenever the conversation turned to science. That Josh's contributions to science and science policy were of the highest order is indicated by his many awards and honors. In addition to the Nobel Prize, these included the National Medal of Science, election to the National Academy of Sciences, charter membership of the Institute of Medicine, and the Presidential Medal of Freedom. But these only begin to hint at his broad interests and contributions. He was a longtime board member of the Council on Foreign Relations, held the Order of Arts and Letters from France, and was an avid reader, from scientific literature to military history of World War II and the Times Literary Supplement.

He leaves behind Marguerite, their two children and grandchildren, and devoted colleagues. But he also leaves generations of scientists whom he encouraged and prodded to new heights. With his brilliance and generosity of spirit, he brought light everywhere he went.

ANIMAL RIGHTS: Brazilian Scientists Battle Animal Experimentation Bans

Martin Enserink

Science 7 March 2008:

Brazilian scientists are fighting a series of local attempts to ban animal experimentation that they say could cripple scientific research. At the top of their list: a controversial law passed 2 months ago by the city of Rio de Janeiro that prohibits all animal experiments at private companies. Researchers are hoping that a comprehensive federal bill addressing animal experimentation, which has been lingering in the Brazilian Congress for 12 years, will put a stop to such local bans.

The battle in Rio, a major biomedical research hub, has gone on for more than 2 years. In 2006, the city council passed an animal-welfare law, introduced by actor-turned-politician Cláudio Cavalcanti, that would have banned all animal experiments in the city. Mayor César Maia vetoed the bill. A second version, passed in September 2007, made an exception for universities and public organizations such as the Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), a major vaccine producer. Maia vetoed that one, too. But the council overrode his veto on 26 December.

The law has not taken effect yet, and the mayor does not appear in a hurry to enforce it, says animal physiologist Luis Eugênio Mello of the Federal University in São Paulo, president of the Federation of Brazilian Societies of Experimental Biology. But if enforced, the ban could force several Rio biotech companies out of business. "It's a crazy law," says Eduardo Krieger, a former president of the Brazilian Academy of Sciences.

A comparable far-reaching bill was approved in December by Florianópolis, the capital of the southern state of Santa Catarina; that law was replaced by the city's mayor in February with much less stringent regulations. Similar legislative plans are afoot in other cities.

Brazil's scientists contend that regulating animal research should not be a local issue and are arguing for a federal law. Indeed, such a bill was introduced in 1995 by Chamber of Deputies member Sérgio Arouca, who was once director of Fiocruz; it would ban animal experiments if other alternatives are available, require ethics committees to approve studies, and set up a national council to issue guidelines. But the bill never came to a vote, and Arouca died in 2003.

Figure 1 No petty issue. Cláudio Cavalcanti is pushing for a ban on animal experiments to include the Instituto Oswaldo Cruz (top).

CREDITS (TOP TO BOTTOM): ROBERTA SMANIA; COURTESY OF CLÁUDIO CAVALCANTI

Researchers say "Arouca's law" would protect them from a wave of municipal or state initiatives, and they have been lobbying hard to get the bill to a vote. Animal-rights activists oppose it, however. Ethics panels, which already exist at the majority of research institutions, are dominated by scientists and rubber-stamp proposals, says George Guimarães, director of Ethical Vegetarianism, Animals Rights Defense and Society, a São Paulo-based group.

The researchers' lobbying appears to have paid off, says Mello, with "support from left to right" in Congress. And recently, Brazil President Luiz Inácio Lula da Silva, who has made advancing research a national priority, named Arouca's law among his legislative priorities. Guimarães agrees that the federal bill is now likely to pass. But a legislative stalemate in the Congress, unrelated to the bill, could make it hard to pass any laws at all in 2008, Mello warns.

Cavalcanti says that he wants Rio's mayor to enforce his law; he will also reintroduce the proposal for a total ban this year. Officials at Fiocruz, a big yellow fever vaccine producer, have warned that such a move could imperil routine quality testing of vaccines. But Cavalcanti says that he does not believe animal research can benefit human health. A single-issue politician, he has offered to become a guinea pig himself if it can help save animals. "This is my mission, my only reason for living," he says.

Scientists should do more to counter the cruel image of animal studies that activists have promoted and explain why such work is necessary, says Walter Colli of the University of São Paulo. "We are guilty of not having done enough to influence public opinion," he says. "The average citizen is confused."

quarta-feira, 5 de março de 2008

Ciência 2, Obscurantismo 0

Por enquanto, no campo do STF, dois ministros, Brito e Gracie, fizeram dois gols e puseram o time do progresso, da Ciência, à frente do time do obscurantismo, da Religião.

Que haja uma goleada é o que o país espera, segundo todas as pesquisas.

Porque não custa lembrar que por motivos religiosos até quem defendia que a Terra se movia foi condenado à prisão.

Naqueles tempos, o time da Inquisição ganhava de goleada do time da Ciência, Galileu Galilei e Copérnico que o digam.

Hoje, em pleno século 21, pelas mesmas razões, condena-se o uso da camisinha.

E se busca evitar a pesquisa com embriões.



Escrito por Juca Kfouri às 22h29

terça-feira, 4 de março de 2008

A Abril nos tribunais

Por Guilherme Scalzilli

Do Observatório da Imprensa

O jornalista Luís Nassif está mobilizando a blogosfera com seu dossiê Veja, série de artigos que denunciam o antijornalismo praticado pela revista nos últimos anos. Envolve interesses corporativos, destruição de reputações, tráfico de influência. Desmascara a diretoria editorial da revista e, principalmente, Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi. Trata-se de estudo avassalador, embora não surpreendente, que precisa ser lido e divulgado.

O material já causou estragos. A Veja esboça uma ligeira mudança de tom nas suas edições semanais e há suspeitas de que ela tem obstruído as ferramentas de busca eletrônica aos conteúdos de matérias e postagens antigas – especialmente as que corroborariam as denúncias. A revista processa Nassif e, aparentemente, utiliza funcionários anônimos (além dos supracitados) para espalhar ataques pessoais a ele.

É compreensível que Nassif tente evitar conotações político-partidárias em sua empreitada. Seria (e continua sendo) cômodo para a revista refugiar-se numa batalha moral contra o "lulo-petismo". Quando se trata de ética jornalística, entretanto, não cabem desculpas ideológicas.

E o respaldo da imprensa?

Mas o público sabe que esse comportamento da Veja também possui um viés eleitoral. Ela é acusada de defender interesses que se beneficiam do poder conferido pelas urnas a eles próprios ou a terceiros. Se alguém escancara essa contaminação, direta ou indiretamente, mexe nas suas motivações. Por isso, é importante não esquecer que o gesto de Nassif insere-se num contexto político, pois assim será tratado pelos detratores.

Os grandes veículos, assim como a Associação Brasileira de Imprensa, fingem que a querela não existe. Não querem se expor a exumações semelhantes, principalmente depois que a Folha de S.Paulo foi envolvida num dos episódios denunciados. Os comentaristas abordam a questão com cuidado, sabedores do poder destrutivo de Veja.

Esse comportamento revela muito sobre a categoria. A manipulação teria sido aberta, conhecida por todos, durante anos. E a revista só foi confrontada por iniciativa de um indivíduo isolado que, apesar da força de sua biografia e de seus argumentos, não angariou o respaldo de uma imprensa que se diz combativa e independente (ou melhor, que é "combativa" e "independente" quando interessa).

Precedente histórico

Imagina-se que a direção da revista tenha instruído seus advogados a causarem o maior estrago possível, financeiro e pessoal, na vida de Nassif. As despesas são altíssimas, os prazos dilatados, os resultados incertos e as primeiras instâncias, imprevisíveis. A desigualdade de forças resvala na coerção do gigante empresarial que tenta destruir exemplarmente seus desafetos incômodos.

Mesmo assim, parece alvissareira a hipótese do Judiciário ser constrangido a se manifestar. Passou o tempo de tratar falsos depoimentos, incriminações indevidas, denúncias vazias, deturpações e mentiras como simples efeitos colaterais da liberdade de imprensa. A integridade moral dos indivíduos e o interesse coletivo são protegidos por leis que estão acima de couraças retóricas.

A nobre iniciativa de Nassif não envolve apenas os leitores de Veja e talvez nem o público genérico de periódicos. Trata-se de esclarecer o uso antiético e quiçá ilegal da grande imprensa para favorecer determinadas facções corporativas ou políticas. Tamanha abrangência só pode ser respeitada por um poder de envergadura equivalente, conferindo máxima lisura ideológica à decisão.

O desejável sucesso da defesa do jornalista, ainda que custoso e demorado, pode abrir um precedente histórico e contribuir para uma análise profunda sobre o jornalismo nacional

segunda-feira, 3 de março de 2008

Governo pode rever plano de instituto para células-tronco

OHANNA NUBLAT
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
FSP
O governo federal pode ter que mudar os planos que tem para as pesquisas com células-tronco no país caso o STF decida, na quarta-feira, proibir o uso de embriões em estudos.
Há previsão de apresentar, este ano, um novo edital para pesquisas com célula-tronco e de se criar o Instituto Nacional de Terapia Celular, que reuniria virtualmente os grupos de pesquisa do setor e teria estrutura de laboratórios para desenvolvimento de linhagens de células-tronco brasileiras.
"Se a decisão do Supremo for desfavorável, vamos ter de rever o projeto do instituto, porque uma das coisas importantes é a derivação de linhagens de células-tronco embrionárias brasileiras", afirma Reinaldo Guimarães, secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde. Ele nega, porém, a possibilidade de o instituto não ser criado mesmo com a proibição da pesquisa pelo STF.

"Obscurantismo"
Ainda não há orçamento definido para o novo edital, segundo Guimarães. De 2005 até hoje, os ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia gastaram R$ 24,5 milhões no financiamento de 45 pesquisas com células-tronco -adultas e embrionárias- e um estudo com 1.200 pacientes -usando células adultas da própria pessoa.
Coordenador de um dos 45 projetos do edital de 2005, o pesquisador Stevens Rehen, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), classifica a possível proibição do uso de embriões em pesquisas como "volta ao obscurantismo".
"Essa é uma discussão em que o viés não é totalmente científico. Você não pode, pela fé, definir estratégias que podem vir a ter um impacto importante na saúde", disse.
Mas nem todos os que trabalham com células-tronco no país são favoráveis ao uso de embriões. A também pesquisadora Lilian Piñero Eça, presidente do IPCTron (Instituto de Pesquisas de Células-tronco), se diz contra a utilização de embriões por motivos estritamente técnicos. Segundo ela, diferentemente das células-tronco embrionárias, as células adultas (tiradas de outros tecidos) já mostraram seu potencial.
"Como pesquisador, a gente quer pegar uma célula e quer que ela tenha viabilidade de dar certo. A gente não vai perder tempo, dinheiro e esforço numa célula que dá problemas. E hoje não temos protocolos [procedimentos publicados] para saber lidar com a célula embrionária", afirmou.
Eça é membro do Movimento Nacional em Defesa da Vida -Brasil sem Aborto. No ano passado, descobriu-se que ela "inflara" seu currículo ao declarar que era bolsista da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) sem ter bolsa aprovada. Ela negou que tenha agido com má-fé e atribuiu o fato a um "erro".

Longo prazo
Guimarães diz que, tanto no Brasil quanto em outros países, os estudos com células-tronco "engatinham". Diz também que a liberação das pesquisas pelo STF funcionará como estímulo aos cientistas.
"As pesquisas vão bem, mas falar de resultados a curto prazo não corresponde à realidade. A manipulação de células-tronco embrionárias é bem mais complexa que a de células de cordão umbilical. Então, é importante que o STF se pronuncie contra a ação, porque isso vai estimular os pesquisadores", disse.

A imprensa e o estilo Dantas


Na série sobre "O caso Veja", um capítulo para entender o estilo Daniel Dantas de operação e a maneira como Diogo Mainardi e outros jornalistas entraram no sistema de produção.

Clique aqui para ler no Blog ou aqui para ler no Googlepages.

A home da série pode ser acessada clicando aqui.

enviada por Luis Nassif

domingo, 2 de março de 2008

A favor da ciência

Espera-se que o Supremo mantenha a legislação que autoriza a pesquisa com células-tronco embrionárias humanas
FSP
NA PRÓXIMA quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal deverá julgar a ação direta de inconstitucionalidade contra o artigo 5º da Lei de Biossegurança (nº 11.105), que autoriza o uso de células-tronco de embriões humanos para pesquisa. Espera-se que os ministros mantenham o diploma intacto, de modo a permitir e ampliar esse importante nicho de investigação científica.
Células-tronco embrionárias humanas (CTEHs) têm especial interesse para a medicina porque conservam a capacidade de converter-se em qualquer tipo de tecido, de neurônios a osteócitos. Pesquisá-las pode ser a chave para compreender e eventualmente tratar várias doenças degenerativas, como mal de Parkinson, diabetes e até alguns cânceres. Outra possibilidade, bem mais longínqua, é que as CTEHs permitam o cultivo de órgãos sobressalentes 100% compatíveis com o paciente.
O problema com as CTEHs é que elas são em geral obtidas através da destruição do embrião em sua fase de blastocisto (uma centena de células, por volta do quinto dia pós-concepção). Já surgem alternativas, como células-tronco pluripotentes induzidas, que dispensam o aniquilamento do embrião, mas seria precipitado renunciar já a pesquisar todos os tipos de célula.
A argumentação dos que se opõem às investigações tem insofismável inspiração religiosa. Parte do pressuposto de que a vida tem início quando o espermatozóide fecunda o óvulo e de que o concepto resultante é titular de direitos análogos aos de humanos já nascidos, como o direito à vida (artigo 5º da Constituição).
Tal tese não se sustenta no arcabouço jurídico brasileiro. A chamada personalidade civil -o mais próximo de uma definição de vida no direito- só surge quando o bebê nasce vivo (artigo 2º do Código Civil). E é necessário que essa seja a ordem legal, ou todas as mulheres que tenham concebido e perdido o embrião (estima-se que 2/3 a 3/4 dos óvulos fecundados jamais se fixem no útero) se tornariam, pelas regras da sucessão, herdeiras de quem as fecundou.
É claro que o Código Civil também protege os direitos dos nascituros "desde a concepção". Mas não são os mesmos direitos concedidos a um ser com personalidade jurídica, ou a lei jamais poderia autorizar o chamado aborto necessário (art. 128 do Código Penal), executado por médico para salvar a vida da mãe.
Vale notar que a Lei de Biossegurança só autoriza o uso de embriões remanescentes de tratamentos de fertilidade, que não foram nem serão implantados num útero. O destino inexorável desses blastocistos seria a destruição, ou permanecer congelados "in saecula saeculorum".
Cabe aos ministros do STF reafirmar a laicidade do Estado brasileiro e, interpretando o direito em sua máxima positividade, manter a Lei de Biossegurança aprovada pelo Congresso.

Clandestinidade genética

Temendo discriminação por planos de saúde e empregadores, americanos deixam de fazer testes de DNA

AMY HARMON

DO "NEW YORK TIMES"

Victoria Grove, de Woodbury, Minnesota, queria descobrir se estava predestinada a sofrer do tipo de enfisema que afetava várias pessoas de sua família, mas não queria pedir a seu médico o exame de DNA que lhe daria a resposta.
Ela temia não conseguir plano de saúde ou emprego se a predisposição genética à doença aparecesse em seus arquivos médicos, especialmente porque o tratamento da doença, a deficiência de alfa-1 antitripsina, custaria mais de US$100 mil por ano. Em vez disso, procurou um serviço que enviou a sua casa um kit para ela própria colher o material para o exame.
Quando o exame revelou que era virtualmente certo que ela desenvolveria a doença, Grove não informou seu médico sobre o fato. Como estava ciente de que poderia sofrer danos pulmonares se seus episódios de pneumonia não fossem tratados imediatamente, ela procurava a clínica médica ao primeiro sinal de infecção.
Os primeiros e ansiosamente aguardados benefícios da medicina personalizada estão sendo perdidos ou diluídos para muitos americanos que, por temer que informações genéticas possam ser usadas contra eles, deixam de aproveitar sua disponibilidade crescente.
Médicos dizem que, em alguns casos, pacientes que poderiam tomar decisões de saúde mais bem fundamentadas se descobrissem se possuem ou não um risco elevado de sofrer doenças como câncer se negam a fazê-lo devido às conseqüências potencialmente negativas.
Outros ingressam numa espécie de clandestinidade genética, gastando centenas ou milhares de dólares do bolso para fazer exames de DNA que seriam cobertos por seus planos de saúde, para evitar serem sujeitos a escrutínio. Aqueles que descobrem que têm certeza ou alta probabilidade de apresentar uma doença genética freqüentemente imploram aos médicos que não mencionem o fato em seus arquivos.
Alguns pacientes procuram não revelar suas informações aos médicos. E até mesmo médicos que recomendam que seus pacientes façam exames de DNA lhes avisam que eles podem enfrentar discriminação genética por empregadores ou convênios médicos.
Esse tipo de discriminação parece ser raro. Mas as pessoas acostumadas a um sistema de seguro-saúde em que riscos conhecidos implicam em penalidades financeiras estão tirando as próprias conclusões quanto à provável reação suscitada por uma predisposição genética conhecida a uma doença.
Em conseqüência disso, a capacidade de prevenir e tratar doenças genéticas com mais eficácia está diminuindo.
"Está bastante claro que o público teme fazer uso dos exames genéticos", disse Francis S. Collins, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas do Genoma Humano. "Se essa situação continuar, o futuro da medicina que todos gostaríamos de ver acontecer corre o risco de morrer antes de decolar."
Para Grove, 59 anos, foi impossível manter sua doença em segredo. Quando seus sintomas se agravaram, ela foi instruída a voltar à clínica antes que lhe fossem receitados antibióticos. Mas naquele dia tinha ocorrido uma nevasca e ela não estava se sentindo apta a dirigir até a clínica.
Ela se recorda de chorar ao telefone: "Tenho alfa-1. Preciso desse antibiótico"!
Grove se deixou identificar nesta reportagem porque, para o bem de outras pessoas, sentiu-se na obrigação de chamar a atenção da opinião pública para a situação em que se encontra. "Alguma coisa precisa ser feita para que as pessoas não possam ser discriminadas quando tomam conhecimento desses riscos", afirmou.
Os empregadores dizem que a discriminação no local de trabalho já é proibida e que as leis já existentes regem a privacidade dos registros médicos. Mas os defensores dos direitos dos empregados dizem que não há nada nessas leis que impeça explicitamente que empresas que têm custos médicos crescentes evitem contratar funcionários que elas sabem que têm probabilidades maiores de adoecer no futuro.
Os tribunais ainda não assumiram posição sobre o assunto. Quando, em 2002, a Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego processou a ferrovia Burlington Northern Santa Fe por fazer exames sangüíneos secretos de funcionários que tinham movido ações indenizatórias por síndrome de túnel do carpo, numa tentativa de descobrir uma causa genética dos sintomas, o caso foi resolvido extrajudicialmente.
Os convênios médicos dizem que não pedem a seus potenciais clientes os resultados de exames genéticos, nem exigem que eles façam esses exames. "É um receio infundado", disse Mohit Ghose, porta-voz da America's Health Insurance Plans. "Nosso setor não tem interesse em praticar discriminação com base genética."
Um estudo recente do Instituto de Política de Saúde da Universidade Georgetown chegou a uma conclusão diferente. Em sete de 92 decisões relativas à aceitação de clientes, os convênios disseram que negariam cobertura, cobrariam mais pelos planos médicos ou excluiriam certas condições da cobertura, com base em resultados de exames genéticos.

O custo médico
Muitos profissionais da saúde dizem que, independentemente de a discriminação ocorrer ou não de fato, a ansiedade que ela suscita exige medidas legislativas. Os geneticistas reclamam que o medo da discriminação os impede de recrutar participantes em pesquisas, atrasando o descobrimento de tratamentos de doenças. No Centro de Tratamento de Câncer Memorial Sloan-Kettering, em Nova York, a mesma preocupação é uma das principais razões que levam pacientes a cancelar exames que poderiam detectar riscos de câncer.
"Estamos falando de intervenções com potencial de salvar vidas", disse Kenneth Offit, chefe do serviço de genética clínica do centro. "É uma tragédia que as pessoas estejam assustadas pela possibilidade de sofrerem discriminação."