quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Droga evita ganho de peso em roedores

Composto experimental aumenta gasto de energia e resistência aeróbica, diz estudo

Substância imita ação do resveratrol, encontrado no vinho tinto e considerado benéfico à saúde; efeito só é observado em altas doses

DA REDAÇÃO Folha


Uma droga ainda em fase de desenvolvimento que imita um composto benéfico à saúde presente no vinho tinto pode ser uma arma no futuro contra a obesidade e o diabetes tipo 2, afirmam cientistas europeus.
Em um estudo publicado ontem, eles mostram como o medicamento, inspirado em uma molécula chamada resveratrol, transformou camundongos de laboratório em campeões de maratona e protegeu-os contra obesidade -mesmo quando submetidos a uma dieta calórica, rica em gorduras.
O estudo, publicado ontem no periódico científico "Cell Metabolism", mostrou que a droga SRT1720, da GlaxoSmithKline, é mil vezes mais eficaz que o resveratrol em ativar a SIRT1, uma enzima que ajuda os animais a queimar mais energia e a baixar seus níveis de insulina e de glicose.
A SIRT1, ou sirtuína 1, ajuda os animais a viverem mais ao reduzir a oxidação e outros processos metabólicos. Geralmente ela é ativada por restrição calórica, mas nos últimos anos os cientistas têm tentado ativá-la quimicamente.
No estudo, camundongos que recebiam uma dieta gordurosa e tomavam a SRT1720 tinham seu organismo enganado quimicamente. O corpo achava que a comida era escassa mesmo quando ela era abundante, e passava a queimar gordura mais depressa. Normalmente, essa queima acelerada de calorias no corpo acontece quando os níveis de energia são baixos.
Além de aumentar a queima de gordura, a droga aumentou a resistência aeróbica dos animais, fazendo-os correr duas vezes mais quando forçados.
"Nós estamos ativando as mesmas enzimas que são ativadas quando as pessoas fazem exercício", disse Peter Elliott, vice-presidente da Sirtris Pharmaceuticals, uma unidade da Glaxo que trabalha no desenvolvimento da droga.
O resveratrol é encontrado em abundância no vinho tinto e nas uvas, e acredita-se que ele confira um grande número de benefícios à saúde. Um estudo anterior do mesmo grupo de pesquisas mostrou que o composto baixava a insulina e os níveis de glicose em diabéticos.
Apesar de ele também agir na sirtuína, sua ação em outros fatores do metabolismo havia deixado margem a dúvidas sobre como ele funcionava, afirmou a "Cell Metabolism" em comunicado à imprensa.
"Havia muita controvérsia no campo", disse Johan Auwerx, da Escola Politécnica Federal de Lausanne (Suíça), co-autor do estudo. "Nós descobrimos que a maior parte da biologia do resveratrol pode ser associada à SIRT1."

Interesse comercial
Apesar de trazer aparentemente poucos efeitos colaterais, a SRT1720 tem um problema: só funciona em altas doses. Auwerx diz esperar que novas versões da droga consigam superar esse obstáculo para poderem chegar ao mercado.
A Glaxo, no entanto, aposta no futuro do tratamento: neste ano, pagou US$ 720 milhões pela Sirtris, ganhando no pacote várias drogas experimentais desenvolvidas pela empresa, sediada em Cambridge, EUA.
Um estudo clínico de fase 1 com uma molécula que simula o resveratrol já foi feito e mostrou que o tratamento é seguro.

Specific SIRT1 Activation Mimics Low Energy Levels and Protects against Diet-Induced Metabolic Disorders by Enhancing Fat Oxidation

Formação docente e qualidade do ensino


Folha - Tendências/Debates

O DESENVOLVIMENTO econômico e social só se dá a partir do acesso universal da população a uma educação de qualidade que enfatize leitura, raciocínio matemático e uma mente investigativa. A realidade de países como Índia, Irlanda e Coréia do Sul ilustra bem essa tese, já que conquistaram avanços socioeconômicos mais acentuados nos últimos anos como resultado da efetiva implantação de uma política de valorização do ensino em todos os níveis.
Nesse contexto, o Brasil, por intermédio de agentes públicos e privados, rompeu a inércia de décadas passadas e passou a tratar, pelo menos parcialmente, a educação com maior prioridade. Os primeiros resultados práticos dessa atitude se materializaram na conquista da universalização do acesso ao ensino fundamental -meados dos anos 1990- e na introdução de uma cultura de avaliação periódica tanto das redes de ensino quanto do aprendizado das crianças e jovens.
Curiosamente, esse avanço trouxe à tona novos problemas. A escola não se preparou para receber esse afluxo de alunos cujas famílias não tinham acesso à cultura letrada. A universalização implicou um recrutamento acelerado de professores e uma pressão sobre os cursos de pedagogia, com a exigência (correta) de que todos tivessem nível de formação superior.
Esse cenário fez aflorar uma preocupante constatação: convivemos com a dificuldade das instituições de ensino superior de preparar professores para ensinar. No Brasil, muitos deles saem inseguros das faculdades, simplesmente não sabendo o que e como ensinar em sala de aula.
Uma pesquisa da Fundação Carlos Chagas, feita a pedido da Fundação Victor Civita, mostra, por exemplo, o quanto a formação inicial para o ensino infantil e fundamental é deficiente ao constatar que as instituições de ensino superior não oferecem aos futuros professores os elementos necessários para se dar uma boa aula.
A pesquisa aponta, por exemplo, que os 71 cursos de pedagogia analisados no país concentram mais de 3.000 disciplinas, sendo praticamente dois terços delas totalmente distintas umas das outras. As instituições parecem, no fundo, distantes das reais necessidades das escolas. Dos cursos avaliados, apenas 5,3% da carga horária é dedicada ao ensino infantil, enquanto só 20,7% dizem respeito a didáticas específicas, metodologias e práticas de ensino.
Prevalecem conteúdos teóricos -disciplinas como sociologia, filosofia ou história da educação- importantes, mas que apresentam carga horária excessiva para alguém que vai atuar, sobretudo, em sala de aula. O mesmo ocorre com a legislação de educação e com a ênfase em sistemas educacionais. Alguém que domina a diferença entre Vygotsky e Piaget e conhece a fundo a Lei de Diretrizes e Bases não é necessariamente habilitado para ser um bom professor.
Além da formação que recebe na universidade, o professor também se beneficiaria de um estágio mais efetivo. A pesquisa encomendada pela FVC evidencia que os estágios acabam sendo pro forma, ou seja, os estudantes apenas observam aulas nas escolas, sem orientação adequada.
Nesse sentido, talvez ajudasse uma parceria entre a universidade e as redes estaduais e municipais de educação. O projeto de lei atualmente tramitando no Senado Federal que institui um programa de residência pedagógica, inspirado no que já ocorre com a carreira médica, pode também ajudar nessa direção.
Mas não basta formar bem o professor. Também é preciso escolher os melhores profissionais que vão atuar em sala de aula. Além da presença de muitos professores temporários, constata-se pela pesquisa que os conhecimentos demandados nos concursos públicos dão pouco valor à prática e à formação profissional específica. Muitos adotam, como algumas universidades, abordagem academicista e enfatizam legislação educacional, como se pessoas que dominam tais conteúdos pudessem ser os melhores para alfabetizar ou ensinar adição de frações.
Segundo dados do IBGE, dos 2,43 milhões de pessoas de sete a 14 anos que não sabem ler e escrever, a grande maioria (87,2%) está matriculada em alguma turma de ensino fundamental ou médio.
Por isso, é urgente a articulação entre governos, universidade e sociedade para a formulação, a gestão e o monitoramento de políticas públicas que privilegiem a formação e a seleção adequadas de professores, em prol de um ensino básico de qualidade para todos.

CLAUDIA COSTIN é vice-presidente da Fundação Victor Civita. Foi ministra da Administração Federal e Reforma do Estado (gestão FHC) e secretária da Cultura do Estado de São Paulo (governo Alckmin).

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Proteína luminosa dá Nobel de Química a biólogos dos EUA



Extraída de água-viva, a GFP virou uma das ferramentas mais úteis da biologia, permitindo ver a atividade de genes

Para comitê do prêmio, descoberta de trio teve impacto comparável ao da invenção do microscópio sobre o avanço da ciência

Sam Yeh/France Presse

Peixes transgênicos fluorescentes foram feitos com inserção de gene que produz a proteína GFP

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA
RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCAL

O Prêmio Nobel de Química de 2008 foi concedido ontem a uma idéia literalmente brilhante. Seus ganhadores são três cientistas dos EUA que transformaram uma água-viva esmagada na ferramenta de escolha de dez em cada dez laboratórios de biologia molecular -uma proteína fluorescente que revolucionou o estudo dos genes e das células.
O japonês Osamu Shimomura, pesquisador aposentado do Laboratório de Biologia Marinha, em Woods Hole, e os americanos Martin Chalfie, da Universidade Columbia (Nova York) e Roger Tsien, da Universidade da Califórnia em San Diego, compartilharão o prêmio de 10 milhões de coroas suecas (cerca de US$ 1,4 milhão) e a glória por terem descoberto e aplicado à biologia a GFP, sigla em inglês para proteína verde fluorescente.
Só mesmo dinheiro e glória, porque a gratidão eterna dos biólogos eles já tinham: afinal, o uso da GFP como sinalizador molecular, que tem a capacidade de iluminar só as células escolhidas, permitiu enxergar processos dentro do organismo que até então eram invisíveis.
Graças à GFP, os cientistas conseguem hoje ver onde e quando no organismo um gene ou um conjunto de genes se ativa; conseguem iluminar o crescimento de um tumor; acompanhar a migração de células individuais num embrião em desenvolvimento; e enxergar até mesmo processos que ocorrem dentro da célula, para ajudar no desenvolvimento de drogas.
O uso da proteína fluorescente ultrapassou até mesmo os laboratórios de biologia. Invadiu o mundo dos bichos de estimação, com a produção de peixes de aquário transgênicos brilhantes, e as artes plásticas, com a criação, no começo do século, de uma coelha verde fluorescente, Alba, pelo artista brasileiro Eduardo Kac.
O comitê do Nobel comparou o feito do trio à invenção do microscópio, no século 17, pela dimensão do novo universo que se abriu. Shimomura, porém, afirma que não imaginava que seu trabalho ganharia tanta projeção, quando conseguiu isolar a GFP de águas-vivas. Em 1962, ele publicou um trabalho revelando que a proteína emitia um forte brilho verde quando submetida à luz ultravioleta.
Quem deu o salto conceitual, porém, foi Chalfie, que em 1992 inventou uma maneira de ligar o gene da proteína a genes específicos de outros organismos. Amostras de tecido e animais geneticamente alterados poderiam ser usados para estudar fenômenos escolhidos a dedo.
Se o gene escolhido para observação produzisse uma proteína ligada ao câncer, por exemplo, era possível ver onde e quando ela surgia no organismo de uma cobaia. Uma idéia tão versátil não levou muito tempo para se tornar uma ferramenta popular em toda a biologia celular e molecular.

Cores bonitas
A técnica se tornou ainda mais poderosa quando Tsien, 56, elaborou em 1996 uma maneira de ampliar a paleta de cores de proteínas usadas na técnica. Além do verde surgiram proteínas azuis, depois vermelhas, e outros cientistas estenderam a técnica para todas outras tonalidades. Uma técnica nova chamada "brainbow" já usa todas as cores do arco-íris para diferenciar neurônios.
Tsien diz que ainda não teve tempo de pensar sobre o impacto do Nobel em sua vida. "Fundamentalmente, não sou mais esperto hoje do que eu era ontem", disse o cientista, que confessa ter sido atraído pelo lado lúdico da GFP. "Eu gosto de cores bonitas, e essa era uma boa oportunidade."
"Merecidíssimo", diz o biólogo brasileiro Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego. Ele mesmo recorreu à GFP para iluminar genes saltadores no cérebro de mamíferos, em 2005, e usa a proteína no dia-a-dia.
"A visualização é tão importante quanto a descoberta dos fenômenos biológicos." Muotri, que por pouco não foi trabalhar com Chalfie em Columbia ("Ele queria muito que eu fosse para Nova York") , cita o exemplo da estrutura do DNA, elucidada por Francis Crick e James Watson em 1953 -usando imagens de raio-X. "Só se acreditou na teoria quando montaram um modelo onde todos "viram" o que estava acontecendo."

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O empresário Gilmar


Leia a íntegra da denúncia que CartaCapital fez sobre os negócios de Gilmar Mendes, o presidente do Supremo

Descobertas de vírus da Aids e de câncer dão Nobel a europeus

Alemão que isolou HPV, causador de tumor cervical, fica com metade do prêmio; franceses que acharam o HIV dividem o resto

Premiação chega 25 anos depois do trabalho original de Françoise Barré-Sinoussi e Luc Montagnier sobre o agente da doença do século

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA

A ligação entre dois tipos de vírus e duas das maiores pragas da humanidade, a Aids e o câncer, rendeu ontem a três cientistas europeus o Prêmio Nobel em Fisiologia ou Medicina.
O alemão Harald zur Hausen, 72, e os franceses Luc Montagnier, 76, e Françoise Barré-Sinoussi, 61, dividirão a bolada de 10 milhões de coroas suecas (US$ 1,4 milhão). O primeiro ficará com metade do dinheiro, pela descoberta de que o papilomavírus humano (o HPV) causa o câncer de colo de útero. Os outros dois ratearão o restante, pela descoberta, há 25 anos, do vírus da imunodeficiência humana, o HIV.
Segundo o Comitê do Nobel, o trabalho de Montagnier e Barré-Sinoussi foi "essencial para a compreensão atual da biologia da doença e para seu tratamento". O de Zur Hausen levou à caracterização da história natural da infecção pelo HPV e ao desenvolvimento de vacinas profiláticas contra o câncer induzido pelo vírus -o segundo tumor que mais ataca mulheres, com 500 mil novos casos e 250 mil mortes por ano.
Apesar de se tratarem de duas pesquisas com vírus, os trabalhos premiados têm mais diferenças do que semelhanças. Dividir um prêmio entre duas descobertas diferentes é prática pouco comum no Nobel.
O vírus da Aids, 25 anos depois de sua descoberta, continua desafiando os cientistas. Apesar de o trabalho da dupla francesa ter aberto as portas para a criação do coquetel de remédios que deu chance de vida aos portadores de HIV -nos anos 1980, ser soropositivo era uma sentença de morte-, todas as tentativas de criar uma vacina contra ele falharam.
A Aids, reconhecida como pandemia em 1981, já matou pelo menos 25 milhões de pessoas, sobretudo na África. Estima-se que 1% da população mundial seja afetada por ela.
Já o HPV encontrou o seu algoz. O trabalho iniciado nos anos 1970 por Zur Hausen no Centro Alemão de Pesquisa do Câncer, em Heidelberg, seria coroado em 2006 com a entrada no mercado da primeira vacina anticâncer já desenvolvida. O medicamento, batizado Gardasil, previne infecção pelas variedades de HPV que causam 70% dos casos de câncer cervical, o HPV-16 e o HPV-18.
"Não estou preparado para isso", disse Zur Hausen ontem pela manhã, emocionado com a notícia do prêmio.
Montagnier, que participa de uma conferência na Costa do Marfim, dedicou o prêmio aos doentes de Aids e disse que o Nobel "nos dá coragem para continuar até atingirmos o nosso objetivo" -a cura da doença.
Barré-Sinoussi, que estava o Camboja, também foi pega de surpresa. "Confesso que estava muito longe de esperar por isso", declarou a francesa.

domingo, 28 de setembro de 2008

Vergonha na USP

A Universidade de São Paulo, maior e melhor instituição pública de pesquisa e ensino superior do Brasil, faz 75 anos em 2009.
Quando ela ainda tinha 45 anos, formei-me em jornalismo na sua Escola de Comunicações e Artes, mas prossegui como aluno de filosofia (estudo que, infelizmente, nunca concluí).
Hoje me pergunto se ainda devo ter orgulho de ser ex-aluno da USP. No centro da preocupação com minha "alma mater" (mãe nutridora), como dizem os norte-americanos e os britânicos, está o caso de plágio em seu Instituto de Física.
Não pelo caso em si, que é menor, mesquinho mesmo. Briga de comadres por migalhas de micropoder institucional. Nem vem ao caso quem acusa quem, só que professores titulares admitem copiar trechos de artigos científicos de outros sem a devida referência bibliográfica.
Não só ex-alunos, mas todo contribuinte que sustenta a USP e qualquer pessoa que cultive valores intelectuais deve preocupar-se com o modo como o caso foi tratado pela reitoria. Se a instância máxima da universidade agiu com o propósito de resguardar seu prestígio, bem, escolheu a pior maneira de fazê-lo.
Causam perplexidade dois comunicados sobre o caso divulgados pela reitoria nos dias 22 e 23 deste mês (na internet: www.reitoria.usp.br/reitoria). O primeiro informava que a Comissão de Ética da USP havia concluído -uma semana antes...- "os trabalhos de apreciação do caso de suposto plágio envolvendo professores do Instituto de Física".
O qualificativo "suposto" indica a disposição clara de proteger os investigados, embora eles próprios tivessem admitido o deslize. O paternalismo corporativo (ou seria "maternalismo"?) vem explicitado a seguir: "Ressalte-se que o relatório da Comissão de Ética não é um documento público, uma vez que seu conteúdo envolve a avaliação de comportamento ético individual. Portanto, a divulgação de atos do processo só pode ser feita com a autorização dos investigados, conforme reza a Constituição Federal, em seu artigo 5º, [inciso] X".
Como assim? Se um professor e funcionário público foi investigado por má conduta acadêmica e inocentado, tem todo o interesse em que o relatório venha à luz. Se foi condenado, não tem cabimento dar-lhe o direito de veto sobre a divulgação.
A reitoria parece ter-se dado conta logo a seguir do atentado contra o princípio da publicidade, formulado por Immanuel Kant (1724-1804) em seu "Para a Paz Perpétua" (1795): "Todas as ações relativas ao direito de outros homens, cuja máxima não é suscetível de publicidade, são injustas".
Uma espécie de errata foi publicada pela reitoria no dia seguinte, com a satisfação negada ao público 30 horas antes: "Diante da conclusão dos trabalhos da Comissão de Sindicância e da Comissão de Ética, sobre a investigação de plágio, a Reitoria comunica que, no entendimento da Comissão de Ética, embora os trabalhos científicos, que foram objeto da investigação, contenham pesquisa original, houve um desvio ético na redação dos mesmos por uma inaceitável falta de zelo na preparação dos artigos publicados.
Isso resultou na consignação, pela Comissão, de uma moção de censura ética aos autores, pela não-observância dos preceitos éticos da Universidade".
Qual "desvio ético"? Que "preceitos éticos" deixaram de ser observados? É uma vergonha que a reitoria prossiga em sua recusa a dar uma explicação completa do caso.

MARCELO LEITE é autor de "Promessas do Genoma" (Editora da Unesp, 2007) e de "Brasil, Paisagens Naturais - Espaço, Sociedade e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros" (Editora Ática, 2007). Blog: Ciência em Dia (cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br).
E-mail: cienciaemdia.folha@uol.com.br

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

SUS: novos modelos são a solução?

FOLHA
NO ÚLTIMO dia 9/9, reportagem da Folha trouxe a notícia de que a "Justiça Federal determinou que a Prefeitura de São Paulo acabe com a contratação de entidades privadas para gerir suas unidades de saúde". Para a juíza, a legislação municipal é inconstitucional.
Para a prefeitura, "esse modelo de gestão agiliza o atendimento e melhora a qualidade do serviço".
No ano passado, o governo federal enviou projeto de lei ao Congresso que cria as fundações estatais (Folha,13/7/07), cujo objetivo é garantir maior autonomia gerencial e orçamentária aos hospitais públicos, flexibilizar as relações trabalhistas e regras de licitações, premiar o servidor com bom desempenho e condicionar o repasse de recursos ao cumprimento de metas de gestão, dando maior agilidade à gestão pública.
Em agosto deste ano, a FGV promoveu o "Debate GV Saúde: Alternativas de Gestão Pública", com a participação de renomados especialistas na área, em que foram discutidas novas formas de organização na saúde.
Nesse debate ficou evidente que várias alternativas existiram ou existem no sentido de tornar os serviços de saúde mais ágeis e com maior autonomia: empresas públicas, consórcios públicos, sociedades anônimas, serviços sociais autônomos, fundações, autarquias de regime especial e, recentemente, as chamadas Oscips ou OSs.
É conhecido de todos que a saúde pública se debate com um problema crônico de caráter organizacional, financeiro e de gestão, com implicações importantes na qualidade da assistência prestada ao seu usuário.
Há um reconhecimento generalizado da inadequação e rigidez do modelo de administração pública direta e autárquica, com autonomia limitada, excesso de burocracia, morosidade e questionamentos de ordem jurídica e administrativa que terminam por expor dirigentes a ações e processos judiciais, além de dificultar a gestão.
Por outro lado, as soluções apontadas são pautadas pelo imediatismo do "apagar incêndios" com provimento de recursos extras e tentativas isoladas de modernização gerencial, muitas das quais questionáveis constitucionalmente.
O SUS, um dos mais avançados e modernos serviços de saúde pública do mundo, não pode continuar vítima desse modelo. Precisa se modernizar e aperfeiçoar, preservando os princípios fundamentais e constitucionais de universalidade, gratuidade, integralidade, eqüidade e controle social.
Sem perder de vista tais princípios, a necessária ampliação da capacidade do Estado de prover e regular os serviços de saúde passa pela implantação de novos modelos de gestão que levem à autonomia e a eliminar ilegalidades e corrupção, com maior transparência e garantia de institucionalidade e sustentabilidade do sistema.
Outro aspecto importante quando se discutem novos modelos para o SUS é a questão da qualificação profissional. É preciso investir na melhoria da formação médica e dos demais profissionais de saúde; inovar nas relações dos gestores com os profissionais de saúde quanto a política salarial, avaliação de desempenho, planos de carreira, condições de trabalho e garantias constitucionais.
Assim, independentemente do modelo a ser definido legal e constitucionalmente, um choque de gestão, em que se pactuam metas e serviços com qualidade e eficiência, deve ser um objetivo a ser perseguido, ao lado do uso mais eficiente dos recursos públicos, com a estabilidade política, econômica e jurídica necessária a um melhor desempenho organizacional.
Vivemos num país em que são péssimas as condições de vida e saúde da grande maioria da população. Nosso padrão de morbi-mortalidade combina doenças decorrentes dessas condições com outras de países desenvolvidos e relacionadas a padrões alimentares, de consumo, violência urbana e aumento da expectativa de vida.
Segundo o IBGE (2005), a proporção de pobres em nossa população é de 33,43%, de idosos, 9,2%, e a esperança de vida ao nascer, 72 anos, com tendência de aumento.
Esses desafios não podem ser resolvidos apenas enfocando o lado da assistência médica. São necessárias ações de impacto no sentido de reduzir as grandes desigualdades sociais e de melhoria das condições de vida da maioria da população.
O SUS é um importante instrumento de desenvolvimento econômico, social e modelo de políticas públicas.
Aperfeiçoá-lo significa assegurar financiamento adequado, melhoria da estrutura, implantar novos mecanismos de gestão e valorização profissional, tudo com o objetivo maior de melhorar o atendimento e a saúde dos brasileiros.

CARLOS FREDERICO DANTAS ANJOS, 52, médico, doutorando em medicina pela USP, é diretor clínico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

SP limita programa de bônus da USP para escola pública

Gestão Serra diz que prova que dá pontos extras será experimental e ocorrerá só no 3º ano

Aumento no número de estudantes da rede pública matriculados na USP é uma das principais bandeiras da reitora Suely Vilela

FÁBIO TAKAHASHI
FERNANDA CALGARO

DA REPORTAGEM LOCAL FOLHA

A Secretaria Estadual de Educação de São Paulo limitou um programa da USP que prevê bônus (pontos extras) no vestibular aos alunos provenientes das escolas públicas.
O programa anunciado pela USP previa a aplicação de provas aos alunos nos três anos do ensino médio público (avaliação seriada), que, somadas, renderiam bônus de até 3% na nota aos alunos no vestibular. A implantação seria gradativa até 2011, começando neste ano pelos alunos do 3º ano do ensino médio (antigo 3º colegial).
A gestão José Serra (PSDB), porém, decidiu que a edição deste ano será "experimental", ou seja, o programa poderá não se repetir já em 2009. Além disso, limitou o exame ao 3º ano.
Segundo a Folha apurou, a secretaria considerou apressada a forma como a universidade anunciou o programa -sem que estivesse totalmente definido com a pasta. Também houve discordância com relação a questões pedagógicas.
A divulgação foi feita em abril deste ano, mas a proposta só foi formalmente encaminhada à secretaria em julho.
A decisão do governo de não aplicar a prova nos três anos do ensino médio é apoiada pelo Conselho Estadual de Educação. Parecer do órgão elaborado pela professora da USP Eunice Durham diz que "a principal objeção (...) reside no fato de que fortalece a tendência a se organizar todo o ensino médio em função do vestibular, ignorando sua função de formação geral para a vida".
O parecer fala ainda em "tramitação tumultuada" da USP. O texto, aprovado no último dia 3, diz que as "iniciativas resultaram em grande pressão para a rápida tramitação do projeto, a fim de se convalidarem as iniciativas que já vinham sendo tomadas".
Procurada para comentar o assunto, a secretária da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, disse, por meio de sua assessoria, apenas que o programa será realizado em "caráter experimental".

"Quase insignificante"
O aumento da proporção de alunos de escolas públicas aprovados no vestibular é uma das principais bandeiras da reitora da USP, Suely Vilela. A rede estadual representa 85% das matrículas, mas menos de 26% dos aprovados no exame.
O argumento da USP para propor exames para o bônus nos três anos do ensino médio é o de diluir a pressão para a aprovação no vestibular.
A implantação do projeto de bônus, da forma como foi aprovado pelo governo, custará R$ 1,760 milhão, metade para o Estado, metade para a USP. À secretaria também caberá ceder as salas para aplicar a prova.
Apesar da decisão do governo de fazer a prova só neste ano, até ontem o site da USP sobre o programa dizia que "a partir de 2010 e 2011, o Pasusp [nome do programa] será implantado progressivamente nas outras séries [do ensino médio]".
O parecer do conselho de educação critica também a eficácia das medidas já implantadas pela USP para aumentar os egressos da rede pública na universidade, como um outro bônus, também de 3%, automático para todos da rede pública.
Segundo o relatório, 0,67% dos formados no ensino médio público foram aprovados no vestibular 2006/2007 da USP, proporção que caiu para 0,66% no ano seguinte. O texto diz que "a contribuição da USP para absorção do ensino médio público é quase insignificante".

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Lula, Satiagraha e a Real Politik

Atenção, um novo capítulo se abre para o caso Satiagraha.

O governo Lula acertou um acordo com a Editora Abril – e, por extensão, com Daniel Dantas – para anular a Operação Satiagraha. O acordo foi montado da seguinte maneira:

1. É impossível interferir nos trabalhos em andamento do Ministério Público Federal e do juiz De Sanctis. A ofensiva de Gilmar Mendes foi um tiro no pé.

2. A estratégia acertada consistirá em tentar anular o inquérito de Protógenes, no âmbito da Polícia Federal. A versão preparada é que o inquérito continha irregularidades que precisariam ser sanadas. E a Polícia Federal colocou seus homens de ouro para “salvar” o inquérito. O trabalho dos “homens de ouro, na verdade, será o de garantir a anulação do inquérito.

3. Ao mesmo tempo, o governo aproveitará o factóide dos 52 funcionários da ABIN que participaram da operação - uma ação de colaboração já prevista pelo Sistema Brasileiro de Inteligência - para consumar a degola de Paulo Lacerda. A matéria do Estadão de domingo, o da "demissão em off" estava correta. Sabe-se, internamente no governo, que a operação foi normal. Assim como se tem plena convicção de que o tal “grampo” entre Gilmar Mendes e Demóstenes Torres foi uma armação. Mas Lula se curvou à real politik.

4. De sua parte, jornais e jornalistas mais envolvidos com o jogo estão reforçando essa versão do “inquérito ilegal” e do messianismo do delegado Protógenes. A armação, agora, terá o reforço da concordância tácita do Palácio.

5. O pacto foi referendado pela Ministra-Chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. O Ministro Tarso Genro foi o que se mostrou mais constrangido com a operação, mas acabou se curvando à força dos fatos. Com essa operação, Lula e Dilma passam a ser aceitos no grande salão nobre, pavimentando a candidatura da Ministra para as próximas eleições.

6. O seu principal adversário, José Serra, já é outro aliado que entrou à reboque da Editora Abril. Está pagando um preço caro, com a descaracterização do seu discurso político.

7. A bola, agora, está com o Ministério Público e o Juiz De Sanctis, que terão que trabalhar com essa nova peça do jogo: a intenção de se anular o inquérito.

Não sei por que, mas o evento da Abril me lembrou aquela cena épica de Francis Ford Copolla, o fecho do filme. Enquanto todos estão na grande ópera, os inimigos são fuzilados na calada da noite.

Na grande festa foram selados os destinos do delegado Protógenes e Paulo Lacerda, dois funcionários públicos cumpridores da lei. Anotem os nomes deles e os repassem para seus filhos e netos: foram dois brasileiros dignos, sacrificados por um jogo sujo.

É o fim da grande batalha pela instituição da legalidade no país? Longe disso. É apenas um novo capítulo. Tanto assim, que integrantes próximos ao jogo estão completamente incomodados, assim como vários colegas jornalistas, que entenderam que esse jogo de cena foi longe demais e está comprometendo a imagem da categoria como um todo.

Com tanta testemunha, tanto conflito de consciência, julgam ser possível varrer o elefante para debaixo do tapete? É muita falta de fé no estágio atual de desenvolvimento do país.

Luis Nassif

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O crime organizado

Por João Vergílio

O crime organizado veio para ficar. Não é mais franja, efeito colateral, exceção. Está no centro de todo o sistema. O caso Daniel Dantas está apenas mostrando que a extensão do domínio é muito maior do que imaginávamos. Não porque todos os jornalistas, empresários, juízes e parlamentares que hoje estão, em coro, construindo a absolvição de Dantas estejam diretamente vinculados a ele.

Nem todos estão. Mas, indiretamente, qualquer brecha que torne longínquamente provável o desvendamento de crimes de colarinho branco atinge a todos eles. Estão todos com medo. Ninguém sabe se os "seus" próprios telefonemas foram grampeados.

A própria atitude do Ministro Gilmar Mendes de trocar de celular todas as semanas é sintomática da paranóia que se apossou dos centros de poder. O que é mais estarrecedor é não ver, nessa hora, nada além de atitudes isoladas no parlamento. Fica claro que não há espaço para a constituição de um movimento articulado de resistência no centro do poder. Lá, está tudo dominado, e de maneira irreversível.

Resta saber se nós, aqui da arquibancada, temos alguma capacidade de articulação e reação. Eu duvido que tenhamos. Reina a sensação de que nada mais pode ser feito, de que só nos resta assistir passivamente a esse desfile interminável de vitórias do crime organizado.

Estou convencido de que esta sensação é planemente justificada. Não se pode fazer abolutamente nada, mesmo. Falamos para não enlouquecer. Mas é só isso. A democracia já era. Sobrou só o discurso. Oco.

enviada por Luis Nassif

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Tumores usam rede de genes para matar

Mapa detalhado de tumor de cérebro mostra 60 mutações ativas na doença, o que afasta ainda mais esperança de cura

Estudo internacional com participação da USP sugere, no entanto, que ataque ao mal pode ser feito mirando grupos de reações celulares

EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL

Todos os caminhos levam ao câncer. O mais detalhado mapa genético do glioblastoma (tumor agressivo que ataca o cérebro), publicado hoje, revela que a doença pode brotar de pelo menos 60 mutações genéticas -o que torna, em princípio, muito mais árdua a tarefa de derrotar o problema.
Para dar uma idéia do desafio, a principal droga existente hoje contra esse tipo de tumor, que é incurável e mata em poucos meses, atua em uma única mutação. É o Glivec, que já foi chamado de "revolução" no tratamento da doença.
Toda essa complexidade do câncer também apareceu no mapa dos tumores de pâncreas, onde pelo menos 63 alterações de genes disparam a proliferação de células malignas.
Os dois estudos, que investigaram 20.661 genes de 46 pacientes, estão publicados no periódico científico "Science". A Faculdade de Medicina da USP participou do trabalho sobre o câncer de cérebro.
"Agora, muito por causa do avanço tecnológico, eles conseguiram olhar para a genética dos tumores em uma escala muito mais detalhada", disse Sandro de Souza, pesquisador do Instituto Ludwig de São Paulo, que não participou das pesquisas. Os dois grupos principais que assinam os trabalhos são do Centro de Câncer Johns Hopkins Kimmel (EUA).
De acordo com Bert Vogelstein, co-autor dos trabalhos, os mapas genéticos devem mudar a visão que se tem do câncer.
"Os dados sugerem que talvez não devamos mais olhar os genes individuais, mas sim focar a maneira como esses genes operam", disse o cientista.

Nova abordagem
A boa notícia do estudo pode estar exatamente nos caminhos genéticos usados para deflagrar o tumor. Se no caso do câncer de pâncreas ocorrem mutações em 63 genes, o número de vias usadas por essas alterações -ou seja, as cascatas bioquímicas por meio das quais cada gene defeituoso adoece a célula- está ao redor de 12.
Algumas dessas vias são comuns, como a regulação da apoptose, o "suicídio" cometido por células anormais.
Isso tem implicações importantes no desenho de novos tratamentos contra o câncer, concorda Souza, que também trabalha em seu laboratório garimpado alterações genéticas relacionadas com vários tipos de tumores humanos.
Os mapas também revelaram que alguns genes individuais ainda podem ajudar os cientistas. É o caso do IDH1, presente no glioblastoma- tumor que ataca as células glias, responsáveis, entre outras coisas, pela sustentação dos neurônios.
A pesquisa mostrou que os portadores de mutação no IDH1 que desenvolveram a doença tiveram uma sobrevida maior sobre os que não tinham a mutação. E essa alteração genética também aparece com mais freqüência em indivíduos jovens, ao redor dos 33 anos.
Todos esses mapas genéticos tumorais - os mesmos grupos apresentaram no ano passado o detalhamento genético do câncer de cólon e de mama- serão cada vez mais freqüentes daqui para frente, afirma Souza.
"As máquinas de seqüenciamento genético utilizadas agora são bastante potentes."
Segundo Souza, um desses supercomputadores pode seqüenciar todo o genoma humano em apenas um ou dois dias.
"Todo o seqüenciamento do Projeto Genoma do Câncer [do Brasil] demorou ao redor de dois anos. Com uma dessas máquinas usadas agora seria possível gerar os mesmos resultados em menos de dez dias."

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Vacina antigripe não salva idoso, diz estudo

Pesquisa afirma que efeito de imunização na redução do número de mortes é desprezível e que vida saudável é fator protetor

Outra análise, feita nos EUA, aponta que vacina não reduz casos de pneumonia; médico diz, no entanto, que vacinação tem de continuar


France Presse - 26.out.05

Enfermeira aplica vacina antigripe em morador de Los Angeles, onde imunização de idosos é gratuita

CLAUDIO ANGELO
EDITOR DE CIÊNCIA FOLHA

Vacinar idosos contra a gripe pode não ser uma forma eficiente de prevenir pneumonia e morte, afinal. Dois estudos independentes publicados nas últimas semanas sugerem que o benefício da imunização que vem sendo observado nos pacientes é resultado de outros fatores -e não da vacina em si.
Os trabalhos, um americano e um canadense, foram os primeiros a avaliar o histórico de pacientes vacinados e não vacinados que deram entrada em hospitais com pneumonia. Em idosos, esse mal geralmente evolui a partir da gripe.
Ambos concluem que os idosos vacinados de fato adoecem e morrem menos. No entanto, esses pacientes também têm melhor nível socioeconômico e educacional -portanto, tendem a uma vida mais saudável.
Os novos resultados adicionam polêmica a um campo até agora incontroverso das políticas de saúde pública. Há pelo menos 15 anos a vacinação contra a gripe é amplamente recomendada para idosos, com base em uma série de estudos que mostravam uma redução na mortalidade dos vacinados.
Alguns países, como o Brasil, têm programas de vacinação gratuita. Só o Brasil gastou em 2006 R$ 118,6 milhões na compra de 18,6 milhões de doses da vacina. Em sua página na internet, o Ministério da Saúde faz coro: "Estimativas de estudos internacionais indicam que a vacina contra a gripe provoca redução da mortalidade em até 50% entre a população idosa".
O problema é que, até agora, as pesquisas que mostram benefício na imunização foram baseadas apenas em observações de pacientes, sem nenhum controle de outros fatores.
"Nós estamos numa caverna escura e não sabemos ainda o que acontece lá dentro", disse à Folha o epidemiologista Sumit Majumdar, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Alberta, no Canadá.
Na última edição do periódico "American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine", Majumdar e colegas começaram a iluminar a caverna.
Para testar se o benefício da vacina era real, o grupo canadense resolveu tentar responder à seguinte pergunta: qual é o efeito da vacina de gripe sobre a mortalidade de idosos no verão, época do ano em que não há vírus influenza circulando entre a população?

Usuário saudável
O estudo acompanhou de 2000 a 2002 um conjunto de 704 idosos internados no sistema hospitalar de Alberta com pneumonia. Metade dos pacientes havia recebido a vacina no inverno anterior, metade não. Mesmo sem exposição ao vírus, 8% dos vacinados morreram contra 15% dos não vacinados. Uma redução na mortalidade de 51%. Ou seja, o benefício aparece mesmo sem o vírus.
Os pacientes selecionados para o estudo também eram avaliados quanto a condições prévias de saúde e alguns hábitos -se andavam sozinhos ou se fumavam, por exemplo. No total, 36 variáveis que poderiam afetar a saúde foram consideradas. Quando os resultados do estudo foram reavaliados à luz dessas diferenças, a equipe constatou que o real efeito protetor era desprezível.
"O que nós descobrimos é que as pessoas que se vacinam são mais ricas e mais instruídas. Quando você soma isso tudo, não há um grande benefício", disse Majumdar. "Não estamos dizendo que a vacina mata as pessoas, mas que nós temos exagerado enormemente seus benefícios."
O outro estudo, conduzido por um grupo da Universidade de Washington (EUA) e publicado em agosto no periódico "The Lancet", chegou à mesma conclusão ao tentar medir o efeito da imunização na redução de casos de pneumonia num grupo de 1.173 pacientes. "Depois de ajustarmos para a presença e severidade de comorbidades [outras doenças] (...) a vacina contra influenza não foi associada a risco reduzido", afirmam os médicos, liderados por Michael L. Jackson.
Majumdar diz que os programas de vacinação são necessários, mas insuficientes. E que a única maneira de saber qual é o real benefício da vacina é conduzir estudos clínicos, algo que os governos se recusam a fazer por razões éticas -já que nesse tipo de estudo alguns voluntários não recebem a droga, para comparar sua eficiência. "Todo mundo sempre achou que o benefício era tão evidente que ninguém poderia negar a vacina a um grupo", diz Majumdar.
O Ministério da Saúde, procurado pela Folha, disse estar analisando a validade do estudo canadense.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

As avaliações escolares

Entrevista da Folha com José Francisco Soares, do Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) sobre um tema relevante. A educação precisa de indicadores. Mas precisa também de educadores que saibam avaliar os índices e tirar lições para a melhoria do ensino (clique aqui).

É uma avaliação não dogmática dos mitos escolares.

Um dos sofismas mais utilizados é sobre salários de professores:

1. Tem escolas que pagam menos para professores e têm melhor desempenho.

2. Logo o salário do professor não é relevante.

É a típica correlação malandra. É evidente que o fator que levou ao melhor desempenho não foi a redução do salário do professor. E é evidente que um professor melhor remunerado (e mais exigido) vai render mais do que um professor sub-remunerado.

Soares passa muito bem por esses mitos, assim como sobre o mito de que indicadores não são relevantes.
Escolas não aproveitam bem a avaliação de desempenho
Análise da atuação das instituições deve se tornar mais relevante do ponto de vista pedagógico, diz pesquisador

DA ALFABETIZAÇÃO ao ensino médio, o Ministério da Educação criou e aprimorou nos últimos 15 anos vários instrumentos de diagnóstico da qualidade do ensino. Essas avaliações fornecem um importante retrato da educação brasileira, mas seus resultados não estão chegando adequadamente às escolas e ajudando diretores a tomar decisões em seu dia-a-dia.Esta é a opinião de José Francisco Soares, do Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que acaba de lançar, em parceria com Nigel Brooke -outro pesquisador de ponta na área-, o livro "Pesquisa em Eficácia Escolar" (Editora UFMG). (ANTÔNIO GOIS, da Sucursal do Rio)

O pesquisador alerta também que o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), um dos instrumentos mais utilizados pelos pais para avaliar as escolas, esconde deficiências ao não relacionar a média final com o nível socioeconômico dos alunos. Com isso, escolas particulares se destacam em relação às públicas pelo fato de terem alunos de famílias de maior renda e escolaridade. Porém, na opinião de Soares, elas também não cumprem bem sua função. No livro recém-lançado, ele e Brooke reúnem os principais estudos empíricos que, desde a década de 60, tentam responder a uma questão que até hoje aflige gestores e pesquisadores: o que torna uma escola eficaz? É esse o tema que perpassa a entrevista com Soares.

Trechos:

JOSÉ FRANCISCO SOARES - Esse foi um dilema histórico que retratamos no livro. Logo após a publicação do relatório de James Coleman [de 1966, feito para o governo norte-americano e apontado como estudo pioneiro sobre o tema], duas visões pessimistas surgiram sobre o papel da escola.
Uma era de direita e influenciada pelas conclusões do próprio relatório [que mostrava que o nível socioeconômico dos alunos era o mais importante fator]. Outra, de esquerda e com maior repercussão no Brasil, era inspirada no sociólogo francês Pierre Bourdieu, que via a escola como reprodutora das desigualdades sociais.

Houve, depois, uma reação a essas visões pessimistas em estudos que procuraram demonstrar que a escola pode ser eficaz e fazer diferença para o aluno.

Hoje, já aceitamos o fato de que a escola, sozinha, não vai mudar drasticamente as condições de todos os alunos que chegam com nível socioeconômico muito baixo. É bobagem achar que a exclusão cultural a que uma criança é submetida não vai impactá-la, mas isso não pode significar que essa criança não é educável.

Se você tem um aluno de nível socioeconômico baixo, mas que está matriculado numa escola que o desafia, ele vai avançar mais do que se estivesse em outro ambiente. Temos vários exemplos de escolas que, na mesma rede de ensino, com iguais recursos e atendendo alunos com perfil semelhante, têm resultados fantasticamente diferentes em avaliações.

FOLHA - Quais evidências são consensuais nos estudos sobre o que torna uma escola eficaz?

SOARES - Há uma série de fatores, mas, se eu tiver que citar um único, diria que o mais importante é ter uma rotina pedagógica. Cada professor tem que ter clareza do que e de como ensinar. Onde estão os melhores resultados no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) em 2007? No interior de São Paulo, onde várias redes utilizam sistemas de ensino que, infelizmente ou felizmente, são externos.

Eles compram [de grupos privados] material pedagógico que coloca na mão do professor um cronograma bem definido do que vai ser ensinado, quando e como.

Não acho que um país como o Brasil deva ter apenas um método pedagógico. Defendo que cada escola possa escolher um sistema, mas o que não dá é para não ter nenhum, o que, infelizmente, é o padrão no nosso caso.

FOLHA - Quando as avaliações começaram a ser utilizadas no Brasil, houve resistência em aceitar suas conclusões?

SOARES - As faculdades de educação tinham um discurso pronto. Primeiro diziam que vivíamos numa ditadura e, por isso, não tinha como a escola funcionar. Depois foi o neoliberalismo.

Com a implementação em 1995 do Saeb [Sistema de Avaliação da Educação Básica], passamos a ter dados para comparar escolas e, com humildade, buscar respostas a partir dos dados. Projetos pedagógicos que eram tidos como revolucionários se mostraram pouco eficazes.

A avaliação também teve o efeito importante de mostrar para todos que o que buscamos é a criança aprender. A idéia de resultados é estranha para o professor. O discurso das faculdades sempre foi centrado no professor, mas as avaliações ajudaram a reforçar a idéia de que é o aluno o mais importante e é direito dele aprender.

FOLHA - Por outro lado, muitos educadores se queixam de pesquisas que, a partir de análises estatísticas, chegam com fórmulas prontas a serem aplicadas pelas escolas.

SOARES - Esse é realmente um problema sério. Muitos resultados de avaliações passaram a ser utilizados de forma pouco produtiva.

A escola é feita de uma interação de muitos fatores que se correlacionam e cuja evidência empírica não é tão sólida, por exemplo, como a que explica um fato econômico. Não dá para fazer com a escola a mesma análise que se faz na economia.

Há estudos empíricos que mostram, por exemplo, que o tamanho das turmas e o salário dos professores não têm impacto significativo no desempenho dos alunos. Com base nisso, vamos então falar para a sociedade pagar R$ 500 ao professor e montar turmas com 40 alunos?

FOLHA - Mas o senhor concorda que salário ou o tamanho da turma não faz tanta diferença?

SOARES - No caso brasileiro, não dá para defender turmas com 40 alunos. Dá até para dizer que baixar de 25 para 12 não fará tanta diferença, pois, se você reduzir drasticamente o tamanho das turmas, terá que contratar mais professores, e esses novos professores provavelmente não serão tão preparados.
Com isso, os resultados não serão os esperados. Não se deve pegar um fator isolado a partir de um estudo e daí criar uma política pública.

Também é preciso considerar que nas periferias de grandes cidades é importante ter turmas e escolas menores, pois é preciso, sim, um atendimento mais individualizado, de preferência em tempo integral.
Se você pega um aluno com problemas de comportamento e joga numa escola com 2.500 alunos e turmas grandes, será muito mais difícil trabalhar com ele.

Sobre salário, há vários exemplos de escolas ou cidades que, mesmo pagando menos, apresentam resultados melhores. Defendo, no entanto, que o salário aumente para podermos recrutar melhor quem vai dar aula.

Mas concordo com a idéia de que não dá para pagar mais com o tipo de organização e legislação que existe hoje na escola pública. A educação precisa de mais recursos para remunerar melhor seus profissionais, mas vamos ter que incluir nessa negociação a exigência de que a criança aprenda.


enviada por Luis Nassif

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Célula-tronco trata fraqueza muscular


Material celular humano retirado de gordura é usado com sucesso para reverter doença genética em camundongos


Roedor que recebeu injeção com "coquetel" celular recuperou a força e teve um desempenho físico 15% melhor nos testes

Feng Zhao/College of Engineering (EUA)

Células-tronco humanas crescem sobre estrutura artificia

IGOR ZOLNERKEVIC
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Quando a bióloga Natássia Vieira decidiu fazer uma lipoaspiração em 2002, não imaginava que seis anos depois ela assinaria um artigo científico no periódico "Stem Cells" com dez pesquisadores, incluindo Vanessa Brandalise, a sua cirurgiã plástica.
Na época, ao ler sobre o tema, a pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo) descobriu que a gordura que seria retirada dela era rica em células-tronco-material celular capaz de se transformar em diferentes tecidos do corpo humano.
Ao lado da orientadora Mayana Zatz, e com a gordura doada por outras 20 pacientes da cirurgiã, Vieira decidiu, então, começar um estudo com o objetivo de criar a longo prazo uma terapia para tratar as distrofias musculares progressivas, grupo de doença genética que causa fraqueza muscular.
Os resultados divulgados agora mostram que as células-tronco da gordura, ao serem injetadas na corrente sangüínea de camundongos, produzem proteínas importantes para o combate da distrofia.
"As células-tronco foram para o músculo e produziram todas as proteínas musculares, independentemente da que estava faltando", explica Vieira. "Isso é importante porque, para muitos dos pacientes, a gente não consegue achar a mutação genética [que causa a ausência de proteína que provoca a fraqueza muscular]."
Outra descoberta que fez os pesquisadores comemorarem foi que o organismo dos roedores aceitou as células-tronco sem nenhuma reação imune. "Não usamos [remédios] imunossupresores. Foi inesperado", conta Vieira. Parece que as próprias células-tronco produzem imunosupressores.
O que mais animou Vieira e seus colaboradores, porém, foi a "performance" dos camundongos nos testes de força física, após as injeções. "Os injetados foram 15% melhor nos testes em relação aos não injetados", diz Vieira. Houve melhora clínica mesmo com o músculo recuperado parcialmente.

Mistura celular
Antes de injetar as células-tronco direto nos roedores, Vieira resolveu saber o que aconteceria quando células de lipoaspiração se encontrassem com células musculares de pacientes com distrofia muscular. Era o primeiro indício de que os resultados seriam positivos.
Os dois tipos celulares foram cultivados juntos, no mesmo recipiente. Após 45 dias, as células se transformaram e deram origem a estruturas semelhantes a tubos, encontrados nas fibras musculares.
Segundo Vieira, os resultados obtidos nos cultivos celulares no laboratório e nos camundongos permitem afirmar que o grupo está no caminho certo.
Tanto nos animais de laboratório quanto nos seres humanos a distrofia aparece com as mesmas características.

Cintura enfraquecida
No homem, a falta de uma das proteínas provoca uma fraqueza maior nos músculos da cintura e dos ombros. "Alguns pacientes não conseguem nem levantar os braços", disse a cientista. Nos camundongos, a situação é semelhante.
"Quando você ergue um camundongo normal pelo rabo, ele faz força para segurar a sua mão e não ficar de ponta-cabeça. O camundongo doente não consegue. Ele fica parado, com as patas encolhidas."
Apesar da semelhança entre roedor e ser humano existem ainda outros estágios em que o estudo precisa passar, segundo a pesquisadora da USP.
""O próximo desafio é crescer um número de células-tronco suficiente para injetar em um animal maior, mais parecido em tamanho com um ser humano, como um cachorro." A distrofia nos cachorros, segundo a pesquisadora, é muito mais severa que nos camundongos. "Vamos ver se conseguimos o mesmo resultado."

Sjl Dystrophic Mice Express A Significant Amount Of Human Muscle Proteins Following Systemic Delivery Of Human Adipose-Derived Stromal Cells Without Immunosupression (Stem cells)

sábado, 23 de agosto de 2008

Bactérias cometem suicídio para ajudar as companheiras


Comportamento visa eliminar micróbios concorrentes e facilitar infecção


EurekAlert.org

Bactérias Salmonella (em vermelho) atacam tecido humano

RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL FOLHA

Sacrificar-se pelo bem comum pode ser um conceito humano, mas essa forma extrema de altruísmo também existe em bactérias: algumas delas se matam para facilitar a infecção pelo resto da colônia. Cientistas no Canadá e na Suíça explicaram agora como isso é possível.
O fenômeno biológico é conhecido como "cooperação autodestrutiva". Para que esse comportamento esteja codificado nos genes dos seres vivos é preciso que apenas uma parte dos portadores resolva se matar pelo bem dos outros. Os pesquisadores chamam o mecanismo capaz de mediar essa diferenciação entre duas populações de "barulho fenotípico".
O genótipo de um ser vivo é o seu conjunto de genes; já o seu fenótipo são suas características determinadas tanto pelo genótipo quanto pelo ambiente em que ele vive.
"Nós usamos expressão barulho fenotípico para nos referirmos à observação de que organismos geneticamente idênticos vivendo no mesmo ambiente às vezes mostram variações fortes nas suas propriedades biológicas", disse à Folha o chefe do estudo, Martin Ackermann, do Instituto de Biologia Integrativa, de Zurique, Suíça.
"Essa variação é presumivelmente uma conseqüência de processos celulares ao acaso que têm um papel em determinar a expressão dos traços biológicos", acrescentou o pesquisador suíço.
Se há um traço no genótipo dos seres vivos que a seleção natural, motor da evolução biológica, tenderia a fazer desaparecer é a predisposição ao suicídio. No entanto, há vários casos de seres vivos -mesmo mamíferos- que se sacrificam ou cooperam para o bem comum da colônia apesar de não reproduzirem.

Genes autodestrutivos
"Um dos pontos principais do nosso artigo é identificar as condições nas quais os genes para o auto-sacrifício voltado à produção do bem comum podem persistir e não serem eliminadas pela seleção natural", disse o pesquisador.
A equipe demonstrou experimentalmente o papel do "barulho fenotípico" em camundongos infectados com a bactéria Salmonella typhimurium.
A presença de outros micróbios no intestino do camundongo atrapalha a infecção pela bactéria. Para eliminar a concorrência, parte das bactérias ataca o tecido intestinal e causa uma inflamação -morrendo no processo.
"Para resumir, nós identificamos duas principais condições. Primeiro, há indivíduos que carregam esses genes, mas não expressam o comportamento autodestrutivo. E, em segundo lugar, esses indivíduos portadores do gene e que não expressam o comportamento precisam se beneficiar mais do bem comum do que indivíduos sem esses genes", disse.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Ouro nas Olimpíadas

Maurren Maggi conquista a primeira medalha de ouro do atletismo feminino brasileiro nas Olimpíadas.


Do blog do nassif

Andre Araujo
Perdemos a oportunidade de ter tido uma outra medalha de ouro quando a excelente Fabiana Murer foi surpreendida com a absurda falta de seu instrumento fundamental, a vara de salto, algo inconcebivel em uma Olimpiada. A atleta teve que protestar, discutir,entrar em choque com o juri, o que evidentemente a desestabillizou e ainda teve que saltar com outra vara e não aquela com a qual tinha feito todo seu treinamento. Seria como se na prova de Hipismo trocassem o cavalo do Rodrigo Pessoa.
E aonde estava o COB nessa hora, a quem caberia o protesto ou requerer o adiamento da prova? Não era a atleta quem deveria brigar, era o comando da nossa delegação. Esse COB consegue ser pior que a CBF, ineficiente, inutil, carissimo, arrogante, nunca está presente quando deve, são meros desfrutadores de mordomias a um custo estratosférico para o País. Com uma pequena fração do que gasta esse COB, que conseguiu multiplicar por dez o orçamento do PAN, quantas vocações de atletas no vasto Brasil são seriam incentivadas?
O patrocinio privado dá conta de atletas já destacados mas muitas crianças e adolescentes poderiam despontar se tivessem o apoio inicial, muitos não tem nem o dinheiro da condução para treinar. O episódio da Fabiana Maurer foi chocante e não se viu qualquer perturbação do COB, parece que não estão nem ai, a preocupação deles é com as verbas e com as conexões politicas em Brasilia.

Novo "antibiótico" trata doença sem matar bactéria


Brasileira nos EUA é co-autora de descoberta


IGOR ZOLNERKEVIC
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Uma equipe de 15 pesquisadores publica hoje na revista "Science" a descoberta do que promete ser um tipo revolucionário de "antibiótico". Entre aspas, porque, a rigor, a substância é um antiinfectivo.
"O nosso "antibiótico" não é tóxico para a bactéria", explica uma das autoras do estudo, a brasileira Vanessa Sperandio, da Universidade do Texas (EUA). Em vez de envenenar bactérias, como todo antibiótico faz, as moléculas do estudo grudam na superfície delas, evitando que percebam que estão dentro de um organismo e que está na hora de atacá-lo.
Algumas bactérias são como cães; atacam quando "farejam o medo". Elas percebem que estão dentro do corpo de um hospedeiro quando sentem a presença dos hormônios responsáveis pelo estresse, a adrenalina e a noradrenalina, que também controlam a imunidade.
"Já ouviu falar que quando estamos estressados é mais fácil ficarmos doentes? Quanto mais adrenalina e noradrenalina no corpo, mais rápido a bactéria produz suas toxinas ou penetra as células", diz Sperandio. "Se a bactéria não sente os hormônios, o sistema imunológico consegue se livrar dela tranqüilamente."
Esse "farejador de hormônios" existe em pelo menos 25 bactérias que atacam humanos. "São todas as bactérias que causam diarréias sanguinolentas", explica Sperandio.
Ela investiga o mecanismo do "olfato" dessas bactérias desde 1997. Em 2003, Sperandio e seus colaboradores notaram que era possível "entupir o nariz" dos microrganismos com uma molécula apropriada.
Depois de três anos analisando 150 mil moléculas, uma por uma, encontraram a molécula chamada de LED209 -que "enganou" três espécies em laboratório. "Também conseguimos tratar animais -coelhos e camundongos- infectados com pelo menos duas das bactérias que estudamos", diz.
O fato da LED209 impedir as bactérias de provocarem doenças sem eliminá-las é "um marco importantíssimo", comenta a microbióloga Roxane Piazza, do Instituto Butantan.

Resistência
Segundo Sperandio, as bactérias resistem hoje a quase todos os antibióticos que existem. Isso por causa da maneira como agem esses remédios. "Suponha que um antibiótico mate 10 bilhões de bactérias do seu corpo, mas dez delas sobrevivam. Essas bactérias resistentes serão a maioria na próxima geração", explica Sperandio.
"Passamos 40 anos sem fazer progresso em pesquisa de antibióticos, até concluirmos que precisamos usar mecanismos de ação diferentes."
O LED209 também anima os pesquisadores porque não é tóxico às células de mamíferos. "É promissora para se usar em humanos", diz Piazza. Ainda falta muito o que fazer, porém, para chegar a um novo remédio. Espera-se obter uma droga segura para testes clínicos em cinco anos. "Aí tem de vir uma indústria farmacêutica grande para tomar o projeto e levar para frente", diz a brasileira.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Vítimas da gripe de 1918 ainda são imunes ao vírus


Descoberta pode ajudar na produção de anticorpos contra eventual pandemia

Anticorpos tirados do sangue de pessoas expostas à gripe espanhola foram capazes de combater o parasita em camundongos


EDUARDO GERAQUE
DA REPORTAGEM LOCAL FOLHA

O fôlego do sistema de defesa humano contra o vírus da gripe dura, pelo menos, 90 anos. A constatação vem de um estudo realizado nos Estados Unidos.
Em artigo no site da revista científica "Nature", os cientistas demonstram como foi possível frear, em camundongos, uma infecção causada pelo vírus da gripe espanhola de 1918.
Os microrganismos injetados nos animais foram reconstruídos geneticamente.
Para construir a barreira imunológica nos roedores, o grupo, liderado por James Crowne, da Universidade Vanderbilt, usou anticorpos retirados de 32 pessoas que viveram naquela época. Todos os participantes da pesquisa, que tinham entre 91 e 100 anos de idade quando o estudo foi feito, relataram que perderam parentes na pandemia.
"Esse estudo é seguramente um dos poucos que puderam demonstrar a manutenção da nossa resposta imunológica após tanto tempo", disse à Folha o infectologista Esper Kallás, pesquisador da Unifesp.
Os americanos isolaram os linfócitos B do sangue dos idosos. São essas células que produzem os anticorpos.
Quando o vírus da gripe de 1918 entrou nos roedores, ele logo foi detectado e imobilizado. O que, para os autores da pesquisa, mostra que a resposta imunológica contra aquele invasor ainda estava ativa.
"O risco de termos uma nova epidemia como aquela é pequeno. Temos a capacidade de produzir vacinas eficazes contra o H1N1 [o vírus de 1918]", diz Kallás. Segundo o infectologista brasileiro, essa linhagem consta das vacinas que são aplicadas no Brasil todos os anos.
A gripe espanhola, que está completando 90 anos agora, segundo o livro "Influenza, a Medicina Enferma", da historiadora Liane Bertucci, também causou um pandemônio na cidade de São Paulo.
Aproximadamente um terço dos 528.295 habitantes da capital paulista foram infectados. Destes, 5.000 morreram. O número de coveiros teve de ser quadruplicado na cidade.
Mas, se o risco de uma nova pandemia de gripe espanhola é pequeno, o mesmo não pode ser dito em relação ao vírus H5N1, outro tipo de influenza, a gripe aviária. E aqui o novo estudo pode ajudar a medicina.
"Nós sabemos, pelos nossos estudos de biologia molecular, que o vírus de 1918 era um vírus aviário", disse Crowe.
Portanto, segundo o pesquisador, as lições aprendidas agora poderão ser úteis no futuro. "É possível ter uma noção maior do que esperar, em termos de respostas imunológicas, no caso de surgir uma outra epidemia de um vírus aviário."
Sem uma memória imunológica contra o novo inimigo, o sistema humano pode demorar pelo menos alguns meses para conhecer o novo invasor.
O cenário hoje seria mais dramático, porque as pessoas costumam viajar mais pelo mundo, o que poderia dar grande velocidade à epidemia.
Porém, segundo Crowe, já é possível imaginar a construção de anticorpos potentes contra o novo vírus a partir dos resultados obtidos por sua equipe.

Neutralizing antibodies derived from the B cells of 1918 influenza pandemic survivors - Nature

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A terceira onda migratória

Clóvis Rossi aborda um tema importante na sua coluna: a terceira onda de migração de cérebros, a disputa entre países por profissionais de alto nível (clique aqui). A coluna mostra, aliás, que o Rossi correspondente internacional continua imbatível.

No entanto, o pessimismo militante acaba prejudicando um pouco o raciocínio do Rossi analista, fazendo-o colocar o Brasil como vítima dessa nova onda. Já foi. Desta vez, creio que o jogo será diferente.

Já está ocorrendo uma migração importante no agronegócio. No começo, parecia uma invasão estrangeira de grandes multinacionais adquirindo grandes extensões de terra. Quem visita as novas fronteiras agrícolas, como Luiz Eduardo Magalhães, ou mesmo pólos como Petrolina-Juazeiro, percebe que o jogo é outro: são imigrantes tecnicamente aparelhados, com capital e tecnologia, que estão vindo se tornar brasileiros.

Como energia, pré-sal, Amazônia, as oportunidades futuras globais estarão por aqui. O grande desafio será montar estratégias na área científico-tecnológica – juntando Ministério de Ciências e Tecnologia, Fapesp, universidades federais e as estaduais de excelência – para prospectar o mundo e identificar cérebros na área acadêmica.

Por Andre Araujo

Enquanto isso a migração no sentido inverso, de 4 milhões de brasileiros residentes no exterior, sofre sua pior repressão em todo o mundo. graços ao ciclo xenofóbico de uma direita burra e precocnceituosa que se recusa a enxergar os beneficios de uma mão de obra capaz e ordeira, como é o caso das comunidades de brasileiros no exterior.

Essa repressão deixou de ser um episódio consular ou policial para ser politico. O Brasil não se deu conta de seu peso geopolitico e economico e se humilha perante Governos prepotentes, sem ter-se registrado nenhuma atitude firme contra essa atitude insultuosa à dignidade de um Estado, que não está sabendo proteger seus cidadãos aflitos no exterior. A Espanha abusou sem freios, o Brasil humildemente realizou uma reunião dita de cupula entre altos funcionários consulares e não arrefeceu um milimetro a arrogancia espanhola. A Espanha mandou ao Brasil 550.000 cidadãos entre 1900 e 1960, a maioria esmagadora pobres. O Brasil é credor migratório e não faz uso de força moral ou diplomática.

Agora o Reino Unido começa perseguição pior, a reação brasileira é a habitual: choramingas, protestos indignados e fica por ai.

Retaliação imediata e silenciosa nem pensar. Uma simplicissima: suspender as rotas aereas. Porque não fazer? Eles entenderão ràpidamente. O Brasil cresceu e ganhou musculatora mas esqueceram de avisar o Itamaraty que por modéstia e preguiça prefere funcionar seus consulador das 12 às 14 horas com a placa " FAVOR NÃO INCOMODAR".

Comentário

Chamo a atenção: períodos de intolerância étnica ou religiosa são fundamentais para os países que praticam a tolerância e políticas inteligentes de migração. A Espanha da Inquisição perdeu milhares de judeus e árabes, que constituíam a parte mais dinâmica da sua economia. A Inglaterra se fez atraindo pessoas que fugiam dessas perseguições. Depois, os Estados Unidos e o próprio Brasil se fizeram através dos deserdados econômicos e perseguidos da Europa e Oriente Médio.

Aliás, as Olímpiadas estão uma festa para os olhos. Assistir o nipo-brasileiro no tênis de mesa, depois as nordestinas do vôlei, depois as negras do futebol, depois o arco-iris de todas as cores do vôlei.

Vamos recuperar nosso papel de polo de atração da migração mundial.

Luis Nassif

sábado, 16 de agosto de 2008

Serra envia projeto de bônus de desempenho na Educação


Proposta de lei foi enviada à Assembléia Legislativa


FÁBIO TAKAHASHI
DA REPORTAGEM LOCAL FOLHA

O governador José Serra (PSDB-SP) enviou ontem à Assembléia Legislativa projeto de lei que visa implementar o bônus por desempenho para os profissionais da Educação. A previsão de gasto com a proposta é de R$ 500 milhões.
Para arcar com o valor, o governo paulista conta com a mudança da lei federal que aumentou o período extraclasse dos docentes para 33% da jornada.
Na rede estadual, o percentual atual é de 16,6%. Para cumprir a norma, aprovada pelo Congresso em julho, o governo estima ser necessário aumentar o corpo docente em um terço, o que custaria R$ 1,4 bilhão.
Estados e municípios pressionam a União para que altere a lei, sancionada pelo presidente Lula. A secretária de Educação paulista, Maria Helena Guimarães, disse no mês passado que o gasto extra poderia prejudicar o pagamento do bônus.
"Poderia [prejudicar], mas não vai", disse Serra. "Há uma questão legal, a União não pode legislar sobre regime de trabalho dos Estados e municípios."
Questionado se seu governo conta com a alteração da lei, Serra disse: "Sem dúvida".
O Ministério da Educação informou que espera posicionamento da AGU (Advocacia Geral da União) sobre o tema.
O bônus por desempenho substitui a gratificação que era calculada apenas com base nas faltas dos servidores e custou R$ 450 milhões neste ano.
O bônus, cujos detalhes já foram publicados pela Folha, vai dar até 2,4 salários a mais (20% do rendimento do ano) a todos os profissionais das escolas que atingirem as metas de melhoria anual estipuladas com base no Idesp -índice que considera o desempenho dos alunos nas provas do Saresp e em taxas de aprovação e abandono.
O bônus será proporcional ao desempenho da unidade (se atingir apenas metade da meta, será pago 1,2 salário). Se a escola ultrapassar o objetivo, a bonificação chegará a 2,9 salários.
Do valor, porém, haverá desconto proporcional ao número de faltas do servidor. "Introduzimos o mérito na remuneração", afirmou Serra.
A medida causa polêmica. "É uma boa tentativa para melhorar o ensino", afirmou a professora da pós-graduação da PUC-SP Regina Brito. "Mas agora é preciso avaliar o impacto."
Também pesquisadora da PUC-SP, Isabel Franchi Cappelletti é contra. "Avaliar o professor com uma prova aos alunos é injusto, pois não capta as dificuldades de cada região."
A Apeoesp (sindicato dos professores) defende que o governo deveria investir na melhoria das condições de trabalho dos profissionais.
Para entrar em vigor, o projeto tem de passar pela Assembléia. Serra, cuja base é maioria na casa, conta com a aprovação. O líder do PT, Roberto Felício, diz que consultará as entidades do setor. "Particularmente, sou contra. Precisamos é melhorar a carreira do magistério."