Em 1984, com o fechamento de um produtor multinacional, o Brasil viu-se sem soros antipeçonhentos. Nasceu o Programa Nacional de Auto-Suficiência em Imunobiológicos, que promovia a produção por laboratórios oficiais. Em 2004 o Ministério reconheceu ser impossível manter a auto-suficiência sem inovação e, em 2007, que temos de dominar o desenvolvimento tecnológico.
O Butantan antecipou estas metas, produzindo com tecnologia própria 82% das vacinas (150 milhões doses/ano) e 65% de todos os soros! Pensa à frente, antecipando a introdução de novas vacinas e o surfactante que reduzirá a mortalidade no dia do nascimento, hoje responsável por cerca de 50 mil bebês/ano.
O mercado de imunobiológicos brasileiro, com a distribuição gratuita e universal de soros e vacinas, é objeto de interesse comercial, não apenas pelo seu valor, mas por ter os últimos produtores públicos, com qualidade e segurança, a custos compatíveis com orçamento público - um pecado mortal! O Ministério da Saúde (MS), ante a investida das multinacionais, faz um exercício para definir o futuro modelo. Podemos imaginar:
Modelo colônia - Aquele em que a empresa multinacional faz o lobby junto ao MS, às sociedades médicas e até a instituições internacionais. Não se discutem prioridades, custos e perda do poder decisório. Um exemplo disto seria a substituição da vacina difteria-tétano-coqueluche, com 20 anos de sucesso, por uma vacina acelular (que o Butantan produzirá para crianças que têm reações adversas), aumentando, sem benefícios reais, o custo por ano de US$ 1,2 milhão para US$ 63 milhões. Uma nova vacina pertussis, criada pelo Butantan, terá a mesma eficácia e segurança, sem aumento de preço. Promoveram a introdução de uma vacina de rotavírus monovalente, contra a posição de mais de 70% do mundo, que reconhece que a vacina deve ser pentavalente e não pode ser administrada depois de 90 dias de vida, sob risco de obstrução intestinal.
Modelo refrigerante - Importa a vacina a granel, que envasa, não aprende tecnologia, servindo de fachada para contornar a licitação, permanecendo dependente. Um exemplo é a proposta da introdução da vacina 7-valente contra pneumonia. Contém sorotipos não importantes para o Brasil e induz substituições, criando pneumonias resistentes a antibióticos usuais. Custo de US$ 636 milhões, ao qual se somaria o alto custo de antibióticos de “terceira geração”.
Modelo caixa-preta - Adquire a tecnologia fechada, geralmente já obsoleta. Não aprende a desenvolver nem controla os preços para o MS, que determina quanto de royalties o Brasil paga. É um dependente crônico, que voltará sempre a comprar novas tecnologias. Isso hoje representa 40% da chamada produção nacional de vacinas.
Modelo Cingapura - Grandes empresas oferecem investimentos gigantescos para construir fábricas no Brasil que exportarão seus produtos, mas se recusam a investir em desenvolvimento no País. Recentemente ofereceram construir uma fábrica de rotavírus investindo US$ 300 milhões (custo da fábrica do Butantan: US$ 30 milhões). Numa segunda etapa, negociam o uso de prédios e equipamentos pagos pelo poder público, chegando aos países mais pobres a preços que tornam estes países dependentes de recursos filantrópicos permanentes, criando um mercado igualmente permanente. A influenza aviária tornou evidente o perigo dos países que não têm competência para desenvolver e produzir. Obviamente, os produtores obedecerão aos países onde têm suas fábricas instaladas, priorizando, no caso de uma pandemia, as vacinas para suas populações. O restante do mundo que se vire, pois instalar fábricas, independentemente de recursos financeiros e de pessoal treinado, leva seis anos - muito tarde se a pandemia ocorrer. No momento, ministros têm sido aterrorizados para comprar sobras de vacina a US$ 100 por vacinado. Agora são induzidos a começar a vacinar antecipadamente, com uma vacina que não sabemos se corresponderá à pandemia... Usando o estoque adquirido, terão de renová-lo.
Modelo Parceira Público-Privada Nacional - As universidades fazem pesquisas de bancada para publicar. A indústria farmacêutica nacional - com raras exceções - não desenvolve e prefere a caixa-preta! Com todos os incentivos, o panorama mudará pouco na próxima década.
Modelo Parceria Internacional Pública - O Butantan obteve acesso a vacinas de rotavírus e dengue desenvolvidas no Instituto Nacional de Saúde dos EUA e desenvolve a tecnologia de produção destas vacinas. Abrimos o caminho para sete empresas privadas (Índia, China e EUA) que produzirão a vacina pentavalente de rotavírus, adaptada a cada região e que a Fundação Path apóia com mais tecnologia para estabilizá-la na geladeira. Outras parcerias estão em andamento, como a vacina contra pneumonia (Universidade Harvard), que deve custar cerca de US$ 3, ante os US$ 159 da vacina 7-valente.
Modelo Desenvolvimento Nacional - A meta ideal é o País realizar desenvolvimentos próprios de produtos eficazes, seguros e de custo compatível para o Brasil e para países pobres. É o caso da nova vacina de difteria-tétano-coqueluche, que continuará com o preço de US$ 0,15 a dose; da vacina combinada BCG-hepatite B da maternidade, que economiza US$ 5 gastos para testar se a mãe contraiu hepatite B; da vacina contra influenza, que, usando o adjuvante do Butantan, poderá dividir uma dose em quatro, ampliando a vacinação, o que permitirá, sem aumento de custos, vacinar todas as crianças no primeiro dia da escola, evitando a pneumonia, a otite média, que cria surdos, e protegendo indiretamente toda a família.
O governo deve discutir, com cuidado, alterações do atual sistema de auto-suficiência, sob perigo de destruir duas décadas de sucesso.
Isaias Raw é presidente da Fundação Butantan
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
Pensando à frente
Rio proíbe, por engano, estudo com animal
Câmara Municipal enviou versão errada de projeto de lei ao prefeito Cesar Maia, que o sancionou
LUISA BELCHIORDA SUCURSAL DO RIO
Por um erro assumido ontem pela Câmara Municipal do Rio, o prefeito Cesar Maia (DEM) sancionou um projeto de lei proibindo pesquisas com animais na cidade.
O prefeito não recebeu as emendas adicionadas à lei, de número 4.685/2007, que liberam as pesquisas com animais a instituições e cientistas que provarem, por meio de uma comissão de ética, que os animais não estão sofrendo.
Segundo a diretoria de processamento da Câmara dos Vereadores do Rio, por causa de "um período de acumulação de projetos", as emendas não foram anexadas à redação final.
A Câmara afirmou que pediu a anulação da lei ao prefeito Cesar Maia e vai hoje votar a versão com as emendas. O prefeito disse que vai acatar o pedido.
O projeto original determina multa de R$ 2.000 por animal que sofrer "maus-tratos e crueldades" como abandono em vias públicas ou casas fechadas, espancamento e uso de instrumentos cortantes e substâncias químicas e tóxicas.
As restrições, que estão em vigor, inviabilizam as pesquisas feitas atualmente com animais no Rio, entre elas as de células-tronco, e a produção de vacinas contra febre amarela.
Sem comentários
Em entrevista à Folha, por email, o prefeito afirmou que vai anular a lei e aguardar a nova versão da Câmara. Não quis comentar, contudo, as críticas feitas à sanção da primeira versão do projeto. "A Câmara me informou que a lei é nula de pleno direito pois a emenda aprovada não foi incluída. Portanto, encaminharão o texto correto imediatamente", disse.
O presidente da comissão de ética da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), Otávio Presgrave, afirmou que, se a nova versão do projeto garantir autonomia para as pesquisas a partir do crivo de comissões de ética, a medida não incomodará a comunidade científica, porque, segundo ele, as principais instituições do Rio já regulam as pesquisas com animais pelos códigos de ética internacionais.
Mas Presgrave declarou que a comunidade, que se reuniu ontem para discutir o projeto, teme que nem as emendas garantam a liberdade para os trabalhos. Nesse caso seriam inviabilizadas pesquisas de doenças como a esquistossomose, as que analisam se produtos interferem na formação de fetos, além da produção de vacinas e o controle de qualidade de produtos que estão no mercado.
"A comunidade científica não é contra a regulamentação do uso de animais em pesquisas, mas o consenso é que, onde existe alternativa, não se usam mais animais. Onde não há alternativa, os animais são usados de forma ética e respeitando guias internacionais", disse o representante da Fiocruz.
Sofrimento
O vereador Cláudio Cavalcanti (DEM), autor do projeto de lei, disse ontem que reconhece que a lei pode fazer com que o Brasil perca dinheiro com pesquisas, mas afirma que isso é necessário para evitar o sofrimento dos animais.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
De um ex-médico
Caro Nassif
fui médico durante 15 anos. Minha formação foi a melhor que poderia ser oferecida dentro do Brasil, e eu um aluno bem normal, não era um destaque, mas tive notas bem acima da média e rendimento excepcional na residência médica. Após 10 anos de trabalho diurno, noturno e finais de semana, as santas casas (alegando estarem endividadas), iniciaram um período de inadimplência com funcionários. Recebiam pelos procedimentos médicos e não repassavam aos médicos, usando o money para pagar dívidas atrasadas com fornecedores de oxigênio e medicamentos e com salários de atendentes e do pessoal da limpeza. Tal era necessário para que o hospital continuasse a funcionar.
Isso por volta de 1998. Havia uma esperança que, com a CPMF as coisas melhorassem, mas nesse ano o valor pago pelo SUS por uma cirurgia já havia caído pela metade no seu valor real, pois os ministros Jatene e Serra, alegando corrupção, combateram todo o sistema e não os casos de corrupção. No caso de cesariana em homem e postectomia em mulher, nunca tentaram encontrar o paciente, prender o médico responsável, esclarecer o caso se tratava-se de apenas um erro de digitação do escriturário. Simplesmente cortaram o pagamento estatisticamente. Cirurgias seguidas de internação de 1 ou 2 dias não eram pagas (glosa).
Somando-se glosas, inadimplência dos compradores de serviços, tributação arbitrária inclusive sobre o que eu não havia recebido, obrigatoriedade (moral e legal) de atender os pacientes, mesmo sabendo que não iria receber pelo feito, acabei ficando com inveja do barbeiro da esquina, que cobrava 4 reais por um corte de cabelo de 15 minutos e recebia na hora, no cash, sem nota fiscal, sem cpmf e sem irpf.
Um tingimento com reflexos louros custa 175 reais, e o médico de uma histerectomia recebe 90 reais depois de 60 dias.
Para encurtar a história, passei a investir a grana que eu tinha e alguma herança de família em dinheiro na Bovespa. Ouvi muitos de seus conselhos sr. Nassif, porque quando o senhor aparece na TV a família toda fica em silêncio e eu fico todo orelhas.
Pedi afastamento do trabalho em 2001, recebi vários atrasados que pingaram nos 2 anos seguintes.
Hoje sou investidor, meu ganho real está acima de qualquer especialista do SUS e eu me pergunto porque alguns preferem ser médicos.
enviada por Luis Nassif
"Opinião Pública" x referendo
Vamos entender um pouco melhor o momento político atual na América Latina, as mudanças ocorridas na Venezuela de Hugo Chávez, e o alarido em torno da suposta emenda da eleição eterna.
É um tema que dará muito pano para manga para nossos cientistas políticos.
Os anos 80 marcaram a falência dos modelos autoritários no continente, especialmente após a crise das Malvinas e a crise econômica brasileira depois do segundo choque do petróleo. Há um movimento que trouxe a a redemocratização, mas não a assimilação completa do espírito democrático. A luta pelo poder transferiu-se dos quartéis para outras instâncias.
Numa primeira rodada, assumem os partidos de oposição e o que se convencionou chamar de “sociedade civil organizada”. Há os exageros e abusos de todo processo inicial de redemocratização.
Na rodada seguinte, o poder de fato passa a ser exercido por um ente fluido chamado “opinião pública”, que tem na mídia convencional seu principal agente.
Mantém-se a velha postura golpista, mas dentro das novas regras democráticas – esse é o dado curioso e diretamente inspirado no episódio Watergate. Na Venezuela, derruba Carlos Andrés Perez, um neoliberal; no Brasil, Fernando Collor, outro neoliberal (para usar uma qualificação de uso corrente). E, ao longo dos anos 90, torna-se fator freqüente de instabilidade, seja contra governos “neoliberais”, como o de Fernando Henrique Cardoso; ou de “esquerdas” como o de Lula. Na Venezuela, consegue, inclusive, derrubar por alguns dias o presidente eleito Hugo Chávez - aliás, um dado que deve ser bem pesado quando se analisam os episódios recentes na Venezuela.
O modelo de atuação é simples e já foi utilizado em outros momentos da história. Cria-se um alarido, em plena consonância com o chamado mercado, uma seqüência de denúncias, uma aliança pontual com a oposição – antes, PT; agora, PSDB e DEM - , um movimento da opinião pública midiática que influencia o Congresso e permite o julgamento político que leva ao “impeachment”.
Tudo de acordo com a Constituição. É a neo-democracia golpista do continente.
Não se pense em movimentos golpistas articulados – a não ser no caso da Venezuela -, com conspiradores acertando como será a queda. Trata-se de um processo gradativo de deturpação do papel da mídia, uma maneira torta de fazer jornalismo que passa a se confundir imperceptivelmente com a vontade de usurpar o poder político. E se funda em alguns pontos muito nítidos.
O primeiro, é a parceria com o chamado “mercado”, estratégia que passa pela desmoralização do poder político – com a notável contribuição dos políticos, saliente-se. Quando começou esse novo jornalismo, um dos pratos prediletos era fotografar o plenarinho da Câmara (sessão sem importância, onde deputados aproveitam para mandar recados para suas bases), vazio, e apresentar como prova de que os políticos são vagabundos.
O segundo, é demonizar qualquer forma de gasto que não seja com juros, especialmente gastos sociais.
O terceiro, é o vício permanente em pretender exercitar os músculos derrubando presidentes.
Como se contrapor a esse poder avassalador da mídia, de sua capacidade de produzir escândalos sobre fatos reais ou fictícios e ter a reveberação no mercado?
É nesse cenário que se passa a questionar a legitimidade da chamada “opinião pública”. Se o Congresso é ilegítimo para representar os eleitores, porque a chamada “opinião pública midiática” seria a legítima representante dos anseios da maioria? Se é para ascultar a maioria, abaixo os intermediários, abaixo as supostas pesquisas de opinião e venham os referendos populares.
Foi o que conceituados cientistas políticos, como Fábio Wanderley dos Reis e Wanderlei Guilherme dos Santos escreveram ultimamente, ironizando os que pretendiam falar em nome da maioria.
Só que, com os plebiscitos, substitui-se uma ditadura da minoria – representada pela opinião pública midiática – pela ditadura da maioria. Continua ditadura.
Esse é o dilema que irá sacudir o continente nos próximos anos, nesse confronto cada vez mais feroz entre modelo político e modelo midiático.
enviada por Luis Nassif
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
Do-it-yourself science
How much involvement can patient advocates have in genetics?
Some of the hype that accompanied the first publications of the human genome sequence in 2001 may have worn off. But these are still heady times for genomics, as demonstrated this week by the release of a greatly enhanced haplotype map or HapMap, which describes the most common forms of human genetic variation (see page 851).
The map builds on an earlier version published in 2005. It may, for example, shed some light on aspects of the genome that help to account for certain differences between people of different geographical origins (see page 762). There have been plenty of other research findings this year that demonstrate the power of genomics to deliver clues that could yield better medicine, including studies based on the HapMap that have uncovered lists of multiple genes that may be associated with the risk of developing specific diseases.
But there remain relatively few examples where this has led to better treatment options for patients and doctors. The difficulties of selecting relevant gene and protein markers, and then developing them into marketable tests that doctors will use, remain formidable (see page 770). And for patients, doctors and even some geneticists, there is growing frustration at the lack of clarity in some research findings, the difficulty in discerning which findings are of medical value, and the slow pace at which fuller knowledge of the links between genetics and disease is actually providing better diagnosis and treatment options.
On page 773 of this issue, Nature tells the story of Hugh Rienhoff, a trained geneticist and biotechnology entrepreneur, whose daughter was born with a collection of congenital defects. He has taken it upon himself to try to find out what the genetic cause might be — actually buying lab equipment and having her genes sequenced himself. He has even posted information about her condition, his theories as to what's causing it, and parts of her genetic sequence on the Internet.
Given the sharply falling costs of equipment and the wealth of information that is publicly available, we are getting to the point at which almost anyone with access to the Internet can do this. If that sounds a little scary, then perhaps it ought to. Scientists and patient advocates have always enjoyed a delicate relationship. Researchers are not prone to welcome what they may see as the intrusion of the public in the laboratory. And there is every chance that some people in Rienhoff's position will waste money pursuing dead ends. On the other hand, as more people begin to take an interest in rare or undiscovered disorders, more useful information is likely to be unearthed about both their genetics and their treatment.
But this means that clinical geneticists will have to revise the professional and ethical framework for collaborating with patients and their advocates, to help ensure that the information from the public provides clarity and not confusion. Some scientists are already thinking about how best to organize such information. On page 783, for example, Steven Brenner of the University of California, Berkeley, proposes a 'genome commons' to aggregate the accumulated knowledge on human genetic and phenotypic diversity.
Scientists and patient advocates have always enjoyed a delicate relationship.
At the same time, members of the public who choose to embrace a do-it-yourself approach to science need to be aware that they should not abandon existing, rational treatment options. And they should know that the fruits of their labours will rarely include the cast-iron answers that they may be seeking. For, as is so often the case in science, the most likely result of their efforts will be yet more unanswered questions for others to probe.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Serra e a busca do rumo
No domingo, no post “Política e cérebro emocional” comentei um artigo do Eduardo Graeff e sugeri que, ao contrário do que ele dizia, o caminho para o presidenciável do PSDB estaria em esquecer a herança fernandista, admitir os avanços do lulismo e dar um passo à frente: tornar-se um fundamentalista do desenvolvimento.
Terminava enfatizando a importância de um dos trechos do artigo do Graeff: “Também não basta ter valores. É preciso pregá-los sem medo de ser repetitivo e traduzi-los em declarações de princípio que mostrem ao eleitor que o candidato conhece seus problemas e sabe como enfrentá-los, mesmo sem entrar em detalhes”.
Em outro artigo, “O PSDB e o fundamentalismo” mostrava o erro fundamental de Nelson Rockefeller, de abandonar o discurso liberal justo na hora em que os ventos lhe eram favoráveis. Colocava um alerta: “O que está ocorrendo agora com o PSDB é essa mesma perda de rumo. É o partido quem está se apegando ao fundamentalismo, não o PT. Não tomem manifestações isoladas como sendo governo Lula. O segundo governo Lula está caminhando aceleradamente para a centro-esquerda, ocupando os espaços, dando seguimento a todas as idéias que FHC não teve vontade ou coragem de tocar”.
Em seu artigo de hoje no “Valor”, a excelente Maria Cristina Fernandes traz informações sobre a estratégia do presidenciável José Serra.
• Os batalhões do governador de São Paulo, José Serra, que aparece no topo da lista dos presidenciáveis da pesquisa CNT-Sensus, estarão aprisionados no PSDB, mas não necessariamente marcados a ferro e fogo por um discurso de oposição
• Nas declarações públicas sobre o leilão das rodovias federais, Serra não passou recibo das reiteiradas comparações em que o quilômetro rodado em São Paulo chega a ser até nove vezes maior do que o das novas estradas. Saudou o leilão como uma boa notícia e prepara-se para anunciar as novas regras as próximas licitações paulistas.
• Não é, portanto, uma candidatura de confronto que se arma. O discurso é o do desenvolvimento. O que, face à toada do PAC, é quase uma promessa de continuidade no estilo fazer mais e melhor. A aposta é que a recíproca também será verdadeira. E que Lula, apesar de melhor cabo eleitoral do que foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não se arriscaria a ter uma postura agressiva contra os candidatos de fora de sua base.
• A candidatura que se constrói nas colinas do Morumbi, é muito diferente daquela de 2002. Se naquele ano projetou-se em Lula o risco De La Rua, em 2010 é nas próprias hostes do governador paulista que se cultiva o 'risco Serra' - um candidato que vê a política monetária do governo Lula, como a de seu antecessor, excessivamente atrelada ao mercado financeiro e atribui a uma inexistente ameaça inflacionária o ritmo excessivamente lento da redução da taxa de juros. No baralho de 2010, Serra monta o jogo em busca de uma carta à esquerda do ás.
Serra começa a esboçar um movimento para se libertar da armadilha desse radicalismo maniqueísta e tolo praticado por parte relevante do partido e da mídia.
enviada por Luis Nassif
Dengue cresce, e ministro admite epidemia no País
Eduardo Kattah
O Brasil vive uma nova epidemia de dengue, com um aumento de 50% dos casos da doença registrados entre janeiro e setembro deste ano em comparação ao mesmo período de 2006. O alerta foi feito ontem pelo ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que classificou a situação de “injustificável” e “inadmissível” durante o lançamento da campanha nacional de mobilização contra a doença. Temporão se referia também às 121 mortes registradas nos primeiros nove meses deste ano, número que só fica atrás dos 150 óbitos confirmados em 2002, o pior ano da doença no País.
Segundo Temporão, o alto índice representa deficiência no atendimento à forma hemorrágica da doença. Conforme dados do Ministério da Saúde, de janeiro a setembro, o País registrou 481,3 mil casos da doença. No ano passado, no mesmo período, foram 321,3 mil infectados.
O ministro informou que, do total de casos neste ano, 1.076 pessoas contraíram a dengue hemorrágica, principalmente nos Estados de Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Maranhão. No quadro comparativo com 2006 do número de casos notificados, a região Sul foi a que apresentou maior curva ascendente (828,16 %), seguida por Centro-Oeste (99,95%), Norte (31,34%), Nordeste (30,43%) e Sudeste (19,81%).
Nesta última, o aumento de casos foi puxado pelo Rio (75,64%) e por São Paulo (20,75%) - com um total de 64.310 notificações até setembro contra 53.259 no mesmo período do ano passado. Minas e Espírito Santo apresentaram resultado negativo, -5,22% e -27,92%, respectivamente.
“É uma epidemia. E essa epidemia é preocupante”, disse Temporão, citando a dificuldade de combater o mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença, e o vírus por sua variedade de sorotipos, o que “coloca obstáculos” ao desenvolvimento de uma vacina. “Infelizmente, essa vacina não está no horizonte próximo”, destacou o ministro, que, antes de lançar a campanha, se reuniu com especialistas em Belo Horizonte.
A preocupação imediata do ministério será zerar o número de mortes. “O índice que nós alcançamos é inadmissível, o que demonstra problema de atendimento e fragilidade da organização do sistema de saúde.”
O biólogo Adriano Fernandes Ogera, da Coordenadoria de Vigilância em Saúde, vinculada à Secretaria da Saúde de São Paulo, disse que uma das maiores dificuldade enfrentadas no combate à dengue é a recusa de moradores em receber os agentes. “A maior parte dos moradores não se sente segura em recebê-los. Tentamos resolver o problema com parcerias, o que tem dado certo. Mas algumas pessoas oferecem resistência.”
INICIATIVAS
Ontem, o ministro anunciou iniciativas, como a distribuição de um caderno com informações sobre a dengue para todas as equipes do Programa Saúde da Família e uma parceria com a Associação Médica Brasileira e o Conselho Federal de Medicina para o envio de 300 mil CD-ROMs a médicos. Com o tema “Combater a dengue é um dever meu, seu e de todos. A dengue pode matar”, a campanha será veiculada de forma regionalizada, com jingles em ritmos diferentes. Começa em rádios e TVs do Sudeste e Centro-Oeste e vai até 24 de novembro. No Sul e no Norte será veiculada de 4 de novembro a 16 de dezembro e, no Nordeste, até março.
terça-feira, 16 de outubro de 2007
Salário não melhora ensino, diz secretária
Maria Helena, titular da pasta de Educação, diz que Estados com as melhores avaliações não pagam salários mais altos
José Serra afirma que São Paulo paga o que pode e considera sem cabimento comparação com salário do professor no Acre
FÁBIO TAKAHASHI
DANIELA TÓFOLI
DA REPORTAGEM LOCAL
A declaração foi feita em resposta à reportagem de ontem da Folha, que mostrou que o governo paulista paga R$ 8,05 por hora -39% menos que o Acre (R$ 13,16)- para professores em início de carreira e é apenas o oitavo melhor salário do país.
"O quadro mostra, com clareza, que não há uma relação direta entre salário e qualidade do ensino, embora a questão salarial seja fundamental para valorização dos professores", disse a titular da pasta do governo José Serra (PSDB).
Maria Helena cita o fato de Estados como Minas Gerais e Distrito Federal (governados por PSDB e DEM, respectivamente) estarem entre os três melhores desempenhos da quarta série no Saeb (exame do governo federal), embora não tenham os salários mais altos. Ficaram em 17º e 19º.
Questionada sobre o Acre, que é o campeão dos salários e aumentou 13,8 pontos no Saeb entre 2003 e 2005 (São Paulo avançou 1,1), ela disse que o Estado melhorou porque manteve a mesma política educacional desde o início dos anos 90.
Antonio Chizzotti, professor da Faculdade de Educação da PUC-SP, discorda: "Uma das questões fundamentais na qualidade de ensino é a remuneração do docente". Para ele, o professor precisa ter condições de estudar, comprar livros, ir ao teatro. "Tudo isso é formação", diz. "E não dá para cobrar bom trabalho de um funcionário a que se paga mal."
A declaração da secretária foi dada durante cerimônia no Palácio dos Bandeirantes, em que Serra sancionou seis projetos aprovados na Assembléia.
Serra considerou "sem cabimento" comparar São Paulo ao Acre, pois, disse, o Estado do Norte praticamente não gasta com aposentados e possui cerca de 70% a mais de recursos disponíveis por habitante (somando arrecadação estadual e transferências federais).
Serra reclamou também do fato de a reportagem não somar ao salário as gratificações pagas aos professores. A reportagem mostrou, porém, que o salário acreano (sem contabilizar a gratificação) é maior que a remuneração paga em São Paulo (incluindo gratificação).
Sobre o fato de Alagoas também pagar mais, Serra disse: "Viva Alagoas, está muito bom. No caso de São Paulo, não é possível. Aliás, o Estado de Alagoas quebrou por algum motivo. Não estou dizendo que foi especificamente esse assunto".
Após a entrevista coletiva, o governador afirmou à Folha que São Paulo paga "dentro das possibilidades do Estado hoje".
Entre as medidas apresentadas ontem estão a antecipação para este mês do bônus que seria pago em 2008; possibilidade de pagamento em dinheiro de parte da licença-prêmio; incorporação de gratificação que beneficiará os aposentados; e a seleção de 2.545 secretários de escola e de 12 mil professores coordenadores.
O ministro da Educação, Fernando Haddad, disse ontem que o piso salarial nacional para professores, aprovado na Câmara dos Deputados (R$ 950), pode ajudar a melhorar a situação dos docentes. "Mas, como professor, e no dia dos professores, não posso dizer que considero [o valor] ideal."
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Os indicadores de educação
Dois pontos centrais, nas modernas políticas públicas, são o uso intensivo de indicadores de acompanhamento; e processos de avaliação que permitam a remuneração variável, por desempenho.
Em geral existem bons bancos de dados nas áreas sociais, educação, saúde, famílias. Mas ainda há pouco uso adequado dos dados, para que sejam transformados em indicadores eficientes.
Uma das áreas mais complexas é a da educação. Primeiro, pela dificuldade em definir uma métrica que permita comparar desempenhos de diversas regiões. Depois, pelo fato de que muito do desempenho de uma escola depende do entorno, da situação social dos alunos.
***
Esse é o desafio da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Guimarães, responsável pelo grande avanço dos indicadores de educação na gestão Fernando Henrique Cardoso, na qualidade de presidente do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira). E que assumiu há meses a Secretaria da Educação do estado.
***
O sistema educacional paulista passou por uma razia na gestão Gabriel Chalita, um jovem delfim que privilegiou o marketing em detrimento de normas mínimas de avaliação e de gestão.
Um dos pontos centrais foi a questão da educação continuada, um método pedagógico que, segundo os especialistas, costuma ser eficaz quando bem aplicado. A idéia básica é a de que nem todos os alunos têm o mesmo ritmo de aprendizado. Então, abole-se a avaliação de aprovação a cada ano, ao mesmo tempo em que se montam sistemas de reforço para os alunos mais fracos.
O problema é que, principalmente a partir da gestão Chalita, desmontaram-se os sistemas de reforço. Apenas na 4ª e na 8ª séries (que reprovavam) tentava-se o reforço. Mas aí ocorria um déficit de aprendizado impossível de se tirar no curto prazo. E, pior, perdeu-se o referencial de avaliação e de comparação entre as escolas.
***
A primeira mudança, pós-furacão Chalita, foi a revisão dos sistema de avaliação ao longo ao ano para as 5.400 escolas, todas obedecendo à escala de nota de 0 a 10 e notas a cada dos meses.
A segunda foi estabelecer sistemas externos de avaliação. No Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), o professor aplicava a prova a ele mesmo dava a nota. Era impossível uma avaliação isenta. Contratou-se, então, um sistema externo de avaliação, através da Fundação Carlos Chagas.
***
O segundo ponto foi adaptar o Saresp à metodologia do SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica), o sistema nacional de avaliação, para permitir comparações. Essa avaliação, com metodologia consagrada internacionalmente, permite montar duas linhas gradativas de avaliação, para matemática e português. O SAEB é aplicado na Prova Brasil, da qual São Paulo não participou nos últimos anos.
***
A partir daí, será possível avaliar escolas individualmente. A idéia será, a partir do Saresp 2005, definir um marco zero e premiar toda escola que conseguir avanços a cada ano. A premiação permitirá até 16 salários, a serem rateados por todos os funcionários e professores.
Mas falta definir melhor os critérios de gestão, que irão se somar aos pedagógicos.
Modelo pedagógico
O avanço final será a definição de um modelo pedagógico desenvolvido pela própria Secretaria. A Secretária anterior, Maria Lúcia Vasconcellos, encomendou o desenvolvimento desse material didático, contendo conteúdos curriculares básicos para 5ª a 8ª séries, com a assessoria de dois educadores renomados, Náercio Menezes, da USP, e Francisco Soares, da UFMG. Esses cursos nos substituirão os livros didáticos.
Interior e capital
O sistema educacional médio paulista tem 2,6 milhões de alunos na Grande São Paulo e 2,4 milhões no interior. A qualidade das escolas estaduais do interior é infinitamente melhor que na capital. No caso da capacidade de leitura escrita na 4ª série, por exemplo, a diferença de notas é de 5 para o interior contra 3 na Grande São Paulo. Umas das razões é a maior estabilidade do corpo docente e das famílias.
Critérios de avaliação
Na avaliação das escolas estaduais, o desempenho dos alunos responderá por 70 a 75% da avaliação. De 25% a 30% serão assiduidade dos professores, estabilidade das equipes e critérios de eficiência de gestão, que estão sendo preparados pela Secretaria da Fazenda. Mas há dificuldades. Como saber se o maior ou menor gasto com ar condicionado se deve às diferenças de temperatura ou a desperdício?
domingo, 14 de outubro de 2007
Expansão da ciência e tecnologia é maior no interior paulista
Eduardo Nunomura
São Carlos, Campinas, Piracicaba, Bauru e Ribeirão Preto têm sozinhas mais mestres e doutores a cada 100 mil habitantes se comparados aos da capital. Nas cidades do entorno de Araraquara, há quatro vezes mais cientistas. O interior é responsável por um quarto da produção científica nacional e abocanha mais da metade dos financiamentos federais destinados ao Estado. Das universidades e dos institutos nesta região, sai o conhecimento que abastece e cria empresas tecnológicas. Três em cada quatro projetos de inovação aprovados pela Fapesp são de fábricas com sotaque caipira. Graças a esses números, São Paulo publica hoje tanto quanto Espanha, Austrália, Irlanda ou Canadá.
“A aprovação dos projetos é em função da demanda, o que indica uma vitalidade intensa do interior”, diz o diretor-científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique de Brito Cruz. “O interior está bem articulado e competitivo em relação à capital”, acrescenta Marco Antonio Zago, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Os dois são cientistas, um de Campinas e o outro de Ribeirão Preto.
Inovação é a palavra da vez nas pesquisas acadêmicas do interior. Inventos práticos, necessários e alguns com cheiro de revolução. No Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica, do Instituto de Física da USP São Carlos, um novo equipamento diagnostica tumores sem precisar de biópsia (o exame tradicional é doloroso e o resultado só sai em semanas). Um feixe de luz em contato com o órgão ou a pele diferencia um tecido normal de um doente. O aparelho já está em teste no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.
CONHECIMENTO
Com o mesmo princípio, surgem outros produtos de fototerapia dinâmica, como os semáforos à prova da falta de energia e o aparelho para detectar e tratar o HPV e alguns tipos de câncer. Por trás das invenções, está o dinâmico e versátil físico Vanderlei Salvador Bagnato e uma equipe de cem pesquisadores. Foram eles os primeiros latino-americanos a realizarem a condensação de Bose-Einstein. Um gás é esfriado, próximo do zero absoluto (0 Kelvin ou -273,15 graus Celsius), quando ocorre a condensação. Entender o que se passa nesse momento permitirá desvendar a natureza quântica da matéria.
“A sociedade me dá dinheiro para ver o átomo e tenho que mostrar para que serve isso. Serve para curar o câncer”, explica Bagnato. Nos últimos seis anos, seu laboratório produziu 28 patentes e destas, 12 viraram produtos. Qualquer experimento tem de mirar em educação ou saúde, mesmo que leve tempo. Os LEDs usados no semáforo antiblecaute ficaram prontos após seis anos. Outros projetos iam sendo tocados juntos para satisfazer à demanda por publicação de artigos, um dos fatores de avaliação dos pesquisadores. “O País tem de dar valor ao risco científico, senão vamos estudar só o conhecido e seremos apêndices dos outros.”
O físico Luís Alberto Vieira de Carvalho, de 37 anos, formado em São Carlos, com doutorado em Berkeley e pós-doutorado em Rochester, segue a linha do coordenador. Quer inovar naquilo que o Brasil não inova. Criou o campímetro portátil para exames de glaucoma nos rincões. O aparelho estrangeiro sai por R$ 80 mil. O nacional custa um décimo desse valor. Quando estudava no exterior, Carvalho trabalhou na produção de uma lente de contato customizada para a Bausch-Lomb (a empresa investia US$ 3 milhões por ano). No Brasil, faltam verbas. Assim, concentra-se na fabricação do Wave Front, aparelho para diagnosticar em alta resolução defeitos da visão. Será o primeiro da América Latina.
O Centro de Terapia Celular (CTC) de Ribeirão Preto, coordenado pelo médico Marco Antonio Zago, entrou na corrida mundial para deter o domínio das técnicas de manipulação das células-tronco. Quanto mais se souber como elas se diferenciam em órgãos do corpo humano e como são ativadas, maiores as chances de inúmeras doenças serem tratadas. Ou evitadas. As células-tronco mesenquimais, por exemplo, têm capacidade imunológica. Saber como agem pode evitar a rejeição de transplantes.
Em abril, o imunologista Júlio Cesar Voltarelli, do CTC, encheu de esperanças pacientes de diabete tipo 1 que são obrigados a injetar altas doses de insulina. Pela técnica, uma quimioterapia desliga o sistema imune do paciente, que por algum motivo ataca as células do pâncreas, produtoras de insulina. Células-tronco do próprio paciente são então reinseridas nele para recompor o sistema de defesa. O tratamento, já realizado com sucesso em uma dezena de adultos, deverá ser feito com adolescentes e para outras enfermidades, como a esclerose múltipla. Voltarelli, contudo, já reiterou que é cedo para afirmar que se trata da cura.
Mas não é só de futurologia, riscos e esperanças que vive a ciência e tecnologia do interior paulista. A bióloga Aparecida Maria Fortes lidera uma pesquisa em Ribeirão Preto para produzir o fator 8 e o 9 recombinantes, utilizados no tratamento de mais de 7 mil hemofílicos. Hoje, o Brasil tem de exportar o plasma sanguíneo para a França, onde é purificado e liofilizado (seco) para ser então importado. O problema, além do custo de R$ 100 milhões, é que vai e volta sangue contaminado. Por engenharia genética, o fator 8 e o 9 são livres desse risco.
“Já produzimos em plaquinhas, na cultura in vitro, mas queremos pensar no nível de biorreatores e depois no de escala industrial”, afirma Aparecida. A previsão é de que em um ou dois anos o Brasil fabrique o produto. Já há interesse da indústria farmacêutica. A pesquisa, que recebe apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), permitiu à equipe do CTC dominar a técnica que pode ser usada em outras moléculas para fins terapêuticos, como o fator de crescimento.
QUEBRA-CABEÇAS
No Centro de Biotecnologia Molecular Estrutural (CBME), também na USP São Carlos, uma equipe multidisciplinar luta contra doenças tropicais, como leishmaniose, malária e esquistossomose. Ao isolarem a enzima GAPDH do Trypanosoma cruzi, o vetor da doença de Chagas, os pesquisadores detectaram a estrutura da proteína e, a partir dela, poderão procurar pequenas moléculas (potenciais remédios) que se encaixarão nela. Como num quebra-cabeça. “Cinco ou seis anos atrás, saíamos do nada. Hoje, um laboratório como o nosso realiza um forte desenvolvimento comparável aos melhores do mundo”, diz Adriano Andricopulo, de 35 anos, que fez pós-doutorado em Michigan.
O Instituto de Física da USP São Carlos capta R$ 10 milhões por ano, 40% desse total vindo de indústrias. Foi crescendo na base do puxadinho, com corredores virando salas para acomodar mais pesquisas. “Nosso grande salto ocorreu nos anos 80, com a expansão do quadro de professores, cuja regra era que todos fossem para o exterior fazer doutorado”, explica o diretor Glaucius Oliva, também coordenador do CBME.
Os três laboratórios acima fazem parte do programa Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão da Fapesp. São 11 no total, 5 no interior paulista. Criados em 2000, eles desenvolvem pesquisas na chamada fronteira do conhecimento, viabilizam parcerias com empresas e governos para aplicação das tecnologias e, o que é raro na academia, dividem as descobertas com a população. Este último envolve desde a criação de jornais e programas de TV até a inclusão de jovens estudantes no desenvolvimento científico. É a ciência semeando ciência.
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Grasping for Clues to The Biology of Itch
Chronic itch afflicts millions of people, but little is known about the underlying mechanisms
For most people, itch is an occasional, short-lived annoyance, provoked by a run-in with bloodthirsty insects or poisonous plants. But for Mary Ellen Nilsen, itchiness became a life-altering experience. In 1998, at age 38, Nilsen had a shingles outbreak, a resurgence of the chickenpox virus. Antiviral drugs cleared up the painful shingles rash on her face and scalp, but a ferocious itch took its place. "It was relentless," Nilsen says. Over a 13-month period, Nilsen scratched and scratched, despite her best efforts not to and despite her horror at the growing lesions she saw in the mirror. At the time, Nilsen says, she had no idea that the damage she was doing to herself was more than skin deep, but she ended up in a Boston emergency room with brain tissue protruding through a hole she'd scratched in her skull."She gave herself frontal-lobe brain damage," says Anne Louise Oaklander, a neuroscientist and neurologist at Harvard Medical School in Boston, who treated Nilsen and described her case at a recent meeting* here. Oaklander blames the infuriating itch on severe nerve damage caused by the virus--damage that also left Nilsen unable to feel pain from her scratching-induced wounds. Although Nilsen's experience is extreme, to say the least, chronic itch is far from rare. Millions of people worldwide suffer from incessant and largely unexplained itchiness brought on by kidney or liver disease, HIV, or various other ailments. Chronic itch disrupts sleep, reduces the quality of life, and undermines the health of those who suffer from it--yet there is little doctors can do to help.
A Knockout Award in Medicine
The one-two research punch that allowed the creation of designer mice has earned the 2007 Nobel Prize in Physiology or Medicine. Mario Capecchi, a Howard Hughes Medical Institute investigator at the University of Utah in Salt Lake City, Oliver Smithies of the University of North Carolina, Chapel Hill, and Martin Evans of Cardiff University, U.K., will share the prize for developing the techniques to make knockout mice, animals that lack a specific gene or genes. Such mice have allowed scientists to learn the roles of thousands of mammalian genes and provided laboratory models of human afflictions in which to test potential therapies.
The techniques "truly provided a revolution in mammalian biology," says Raju Kucherlapati, a geneticist at Harvard University. "It is not an exaggeration to say that there is no mammalian biologist today who does not use these tools in one way or another."
Biologists have long studied mutant mice for insights into the mammalian body. But for decades, they were limited to rodents whose DNA had been disrupted in random places by natural mutations or the application of mutagenic chemicals. In fact, most of the time, biologists studying a mutant mouse strain didn't even know which gene was broken. The ability to mutate a specific gene at will seemed a distant dream.
Working independently in the 1980s, however, Capecchi and Smithies each crafted ways to slip foreign DNA into a specific place in the chromosomes of mammalian cells. A similar strategy, exploiting a natural DNA-swapping process called homologous recombination, had been used to alter genes in yeast and other organisms, but most people assumed it wouldn't work in mammals. Indeed, in the early 1980s, Capecchi's grant application was rejected by the National Institutes of Health in Bethesda, Maryland, with the advice that he should forget the idea.
He persevered, using money cobbled together from other projects. And a few years later, both he and Smithies, then working at the University of Wisconsin, Madison, showed that targeting specific genes in mammalian cells via homologous recombination was indeed possible. But the work was in cells in culture dishes, and the technique seemed far too inefficient to be used to make whole animals with genetic alterations.
Enter Martin Evans, then at the University of Cambridge, U.K. He led a group that in 1981 reported growing embryonic stem (ES) cells from mouse embryos. Evans, too, had faced skepticism. Experts had doubted whether such cells, which can become any cell in the body, could be grown in the lab. Even Evans was confused when he first saw the cells in culture, says Elizabeth Robertson of the University of Oxford, U.K., who was a postdoc in the lab. "He came to us and said, 'Someone contaminated my media!' " because there were strange-looking cells growing in it. Lab members had to convince him that the cells were ES cells, she says.
A few years later, Evans and his colleagues showed that they could produce live mice by injecting cultured ES cells into a developing embryo. The result is a chimera, an animal whose tissues are a mix of the ES cells and those from the host embryo. In many of those chimeras, the added ES cells by chance produce the animal's sperm or eggs, and when these chimeras mate, some of their offspring carry the stem cells' genes in all their tissues.
Capecchi and Smithies both quickly saw that ES cells offered an opportunity to generate live animals with a desired mutation in every cell. Researchers could target genes in ES cells and then sort out the cells that carried the desired modification, using them to create chimeras. Some of the chimeras' offspring would have the altered gene in all their tissues, and by breeding these animals together, biologists could create mice that completely lack the two working copies of a given gene. Although they never formally collaborated, Evans "brought the ES cells to my lab in his own pocket," Smithies says, while Capecchi spent time in Evans's lab learning the technology.
Every biologist soon wanted a favorite gene punched out, and a handful of companies quickly began competing with places such as the Jackson Laboratory in Bar Harbor, Maine, to provide knockout strains to drug companies and academic labs. To date, researchers have knocked out at least 11,000 genes in mice, observing what goes wrong in development or adulthood and thereby gaining a sense of what the gene does. By deactivating specific genes this way, for example, Capecchi and his colleagues went on to identify ones that shape limbs, organs, and the overall mammalian body plan. Both Smithies and Evans developed mice lacking the cystic fibrosis gene, one of many knockout mouse strains created to mimic a human illness. Indeed, there is now a worldwide effort to knock out every mouse gene (Science, 30 June 2006, p. 1862).
Skeptical grant reviewers were not the only hurdle Capecchi overcame on his way to scientific stardom. As a child in war-torn Italy, he survived alone--often begging and stealing on the streets--between the ages of 4 and 9 while his mother, a poet, was imprisoned in the Dachau concentration camp for her anti-Fascist writings. After the war, she tracked down a very malnourished Mario in a hospital, and a few days later they were on a boat to the United States to live with her brother in Pennsylvania. The young Mario expected the streets to be literally paved with gold, he told a press conference in Salt Lake City on the day he won the prize. What he found instead, Capecchi says, "was opportunity."
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Evolutionary genetics: Making the most of redundancy
Edward J. Louis1
Single genes, chromosomal regions and even entire genomes can undergo duplication. What good can come of these extra copies? Evolution seems to use several tricks to take advantage of the situation.
Gene mutations often result in abnormal levels or function of their protein products. Consequently, the divergence rate of DNA sequences that encode genes is generally slower than that for non-coding sequences. So how does new genetic material arise? One valuable source is sequences formed through gene and genome duplication events.
The commonest consequence of genomic duplication seems to be the loss of all or part of duplicated sequences through deletion1 or degeneration2, causing non-functionality. This can be a powerful evolutionary force — for example, gene loss in response to whole-genome duplication led to rapid speciation in yeast3. Alternatively, although it is much less-well understood, one or both of the duplicated sequences might acquire new functions, as they are under less selective pressure, and can afford to undergo mutations that would lead to new characteristics and functions. On page 677 of this issue, Hittinger and Carroll4 analyse one such pair of duplicated genes with divergent functions.
Cancer: Micromanagement of metastasis
Patricia S. Steeg1
Although they were discovered only in the early 1990s, many regulatory functions of microRNAs — naturally occurring short RNA sequences — have already been reported. The latest news is that they mediate cancer spread.
To successfully spread, or metastasize, a tumour cell must complete a complex set of processes, including invasion, survival and arrest in the circulatory system, and colonization of foreign organs1. How are these events regulated? In a paper published in this issue (page 682), Ma et al.2 propose that microRNAs (miRNAs), which regulate levels of messenger RNAs (mRNAs), coordinate some of the intricate gene-expression programmes implicated in cancer metastasis.
Doctors not to blame over HIV infection by tainted blood
Canadian court acquits medics accused of negligence.
A Canadian court has acquitted four doctors and a US blood products company of criminal negligence in the case of four haemophiliacs who were infected with HIV after receiving transfusions of tainted blood in the 1980s.
After a five-year police investigation and a lengthy trial that involved more than 100 witnesses and 1,000 exhibits, Judge Mary Lou Benotto of the Ontario Superior Court of Justice in Toronto effectively said that the doctors and the company were not only acquitted but fully exonerated.
“The allegations of criminal conduct on the part of these men and this corporation were not only unsupported by the evidence, they were disproved,” Benotto wrote in her 1 October decision. “The events here were tragic. However, to assign blame where none exists is to compound the tragedy.”
The case is the latest of numerous global investigations into the circumstances in which thousands of patients were given infected blood even after it became known, in autumn 1984, that heat treatment killed HIV in blood products. More than 1,000 Canadians, about 700 of them with haemophilia, were infected by HIV from transfusions, almost all of them before mid-1985.
The Canadian court case addressed the infection of 4 people in British Columbia and Alberta in 1986 and 1987. They received an HIV-infected blood-clotting product made by Armour Pharmaceutical, then a maker of blood products based in New Jersey.
The now-elderly doctors charged were Roger Perrault, then the national director of the Canadian Red Cross blood transfusion service; John Furesz, then director of Health Canada's Bureau of Biologics (BDB); Wark Boucher, who headed the BDB's blood product division; and Michael Rodell, then a vice-president of Armour Pharmaceutical.
The Canadian Hemophilia Society said it was “surprised and disappointed” by the outcome. “This verdict sends the wrong message to those responsible for the health of the public,” Pam Wilton, its president, said in statement.
But David Scott, an Ottawa lawyer who defended Furesz, said: “These charges were undoubtedly politically motivated. If those in charge of the criminal process succumb to political pressure to lay criminal charges in inappropriate cases, they will unwittingly undermine the public confidence in the administration of justice.”
Lawyers for the Crown didn't say whether they plan to appeal within the 30-day time frame allowed. “I cannot imagine them doing so,” says Edward Greenspan, the Toronto lawyer who represented Perrault. “But then again I couldn't imagine them spending 17 months in a court of law proving nothing.”
Kill king corn
Biofuels need new technology, new agronomy and new politics if they are not to do more harm than good.
Zea mays has become the very emblem of plenty, with rich golden cobs of corn (maize) overspilling from some of the most effectively farmed arable lands on the planet. Jatropha curcas, on the other hand, is an unprepossessing and indeed toxic plant, better suited to scrubland and hedges. Yet in the world of biofuels, ugly-duckling jatropha has the potential to be, if not a hero, then at least one of the good guys, and a harbinger of better things to come. The golden-headed siren corn, on the other hand, is inspiring a wrong-headed gold-rush — to a dead-end of development that is polluting the modest aspirations the world might have for biofuels in general.
The common complaints about biofuels — and they seem to become more common by the day — are that they are expensive and ineffective at reducing fossil-fuel consumption, that they intensify farming needlessly, that they dress up discredited farm subsidies in new green clothes, and that they push up the price of food. All these things are true to some extent of corn-based ethanol, America's biofuel of choice, and many are also true of Europe's favoured biodiesel plans.
As far as the greenhouse goes, figures from the International Institute for Sustainable Development's Global Subsidies Initiative put the cost of averting carbon dioxide emissions by using corn-based ethanol at more than $500 a tonne of carbon dioxide. What's more, the heavy use of nitrogen fertilizer in growing corn leads to significant emissions of nitrous oxide, an even more potent greenhouse gas.
Despite this, the generous tax allowance of 51 cents a gallon given to ethanol blenders in the United States has made corn peculiarly profitable (provided that tariffs continue to keep out far more efficiently produced ethanol from the sugar plantations of Brazil). In a recent article in Foreign Affairs, C. Ford Runge and Benjamin Senauer of the University of Minnesota in Minneapolis point to estimates that this artificial price-hike will drive world corn prices up by 20% by 2010. This has a knock-on effect on other staple crops — more land for corn means less for wheat, for example. Higher prices are good news for farmers, including some of those in developed countries. But they can be bad news for the very poor, who spend a disproportionate amount of their income on food. According to World Bank studies, for the poorest people in the world a 1% increase in the price of staple food leads to a 0.5% drop in caloric consumption.
This sorry state of affairs has the small benefit of providing a stark, contrasting background against which to sketch out what a successful and sustainable biofuels industry might look like. It will be based not on digestible starch from staple crops such as corn or cassava, but for the most part on indigestible cellulose, with some room for biodiesels that, because they grow on marginal land, do not compete with food production. In the medium to long term, it will not seek to produce ethanol — a poor fuel — but a range of more complex fuels delivered by carefully designed microbes.
A successful biofuels industry will not be based on digestible starch from staple crops such as corn.
A rosy biofuels future will enjoy the benefits of free trade, allowing the countries and peoples of the tropics to ship some of their abundant sunlight north in the form of fuel. It will also require serious amounts of agronomic research — as we report on page 652, one of the most significant problems with jatropha is that, as yet, remarkably little is known about how best to grow and improve it. One focus of such research must be in the development of plants, such as jatropha, that make do on little water, and those that require low inputs of nitrogen. This is inherently more feasible in the case of fuels, where all that needs to be taken out of the system are carbon and hydrogen, than in the case of food, where there is a need to export nitrogen in the form of protein as well. Another focus will be on systems that actively store carbon in the soil, improving it for future agricultural use and at the same time doing a little bit more to take the edge off the carbon/climate crisis.
Biofuels are unlikely ever to be more than bit-players in the great task of weaning civilization from Earth's coal-mine and oil-well teats. But they may yet have valuable niches — including some that allow them to serve some of the world's poor, both as fuels for their own use and as exports. Provided, that is, that someone kills king corn.
Of Attraction and Rejection — Asthma and the Microbial World
In this issue of the Journal, Bisgaard and colleagues7 propose an alternative explanation; that is, that bacterial colonization of the airways may induce neutrophilic inflammation in the airways and thereby cause asthma. In their prospective study, in which they followed children at risk of asthma from birth to age 5 years, detection of S. pneumoniae, H. influenzae, Moraxella catarrhalis, or a combination of these organisms in aspirates of the hypopharyngeal region at 4 weeks of age was a significant predictor of asthma, reversible airway obstruction, blood eosinophil concentration, and total IgE at age 5 years.
story
Pluripotency Redux — Advances in Stem-Cell Research
Deciphering the molecular basis of pluripotency will facilitate the development of procedures for efficiently deriving patient-specific stem cells. In somatic-cell nuclear transfer, which has held the greatest promise for generating such cell lines, the nucleus of a somatic cell is introduced into an enucleated oocyte or mitotic zygote and is "reprogrammed" to an embryonic state, resulting in the formation of a blastocyst from which embryonic stem cells can be derived. Although this procedure has been demonstrated in animals, it has yet to be accomplished with human oocytes or zygotes. An alternative approach to reprogramming a somatic cell is to fuse it with an embryonic stem cell, but the resulting hybrid pluripotent cell is tetraploid and of limited practical application.
Against this background, a study published last year by Takahashi and Yamanaka1 surprised and excited stem-cell biologists. Using a novel strategy, the investigators showed that fibroblasts derived from tissues of adult and fetal mice could be induced to become embryonic-stem-cell–like cells with the introduction of four genes expressing transcription factors. Twenty-four genes were initially chosen as candidates on the basis of their preferential expression in embryonic stem cells or their known roles in the maintenance of such cells or in cell-cycle regulation. These genes were introduced into fibroblasts isolated from mouse embryos and adult tail tips in a combinatorial manner through retroviral transduction.story
Governo limita tratamento de hepatite na rede pública
Pela nova regra, a fibrose deve ter nível acima de 2
ANGELA PINHODA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O Ministério da Saúde publicou ontem no "Diário Oficial" da União uma resolução que restringe a abrangência do tratamento para a hepatite C crônica na rede pública.
Pela nova regra, terão direito a tratamento pacientes com fibrose a partir do nível dois, em uma escala de degeneração do fígado de um a cinco, sendo cinco a mais grave. A resolução de 2002, que estava em vigor antes, previa que teriam acesso a tratamento pacientes com fibrose a partir do grau um.
No entanto a restrição não vale para as pessoas que, além de hepatite C, são portadoras do vírus HIV. "O governo quer esperar as pessoas piorarem para dar tratamento", disse Carlos Varaldo, coordenador do Grupo Otimismo de Apoio ao Portador de Hepatite, que reúne portadores da doença. Ele disse ver motivos econômicos na decisão.
A coordenadora do Programa Nacional de Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Gerusa Figueiredo, negou. Segundo ela, a restrição, que já seria feita na Europa e nos EUA, é motivada pela quantidade de efeitos colaterais dos medicamentos e pelo índice de eficácia deles ser menor do que 80%.
Ela afirma que, como há novas drogas sendo testadas, pessoas com grau um poderiam utilizá-las dentro de três anos com menos efeitos colaterais. De acordo com a coordenadora, havia um erro de redação na regra de 2002. O texto mencionava que teriam direito a tratamento pessoas com grau de fibrose de moderada a grave, o que, segundo ela, corresponde à faixa do grau dois em diante.
Para Juvêncio Furtado, da diretoria da Sociedade Brasileira de Infectologia, a passagem do grau um para o grau dois leva, em média, cinco anos. Por isso, ele diz que há casos em que é melhor adiar os efeitos colaterais. Mas ressalta: "Aos 60, 65, talvez seja melhor tratar, pois pode ser a única chance".
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
Ceará intensifica combate à leishmaniose após 15 mortes
Lauriberto Braga, FORTALEZA
Quinze pessoas morreram e outras 254 contraíram leishmaniose visceral - popularmente conhecida como calazar - neste ano no Ceará. Os números preocupam as autoridades de saúde do Estado porque a meta para este ano era erradicar a doença. Por isso, o combate à leishmaniose será intensificado a partir de hoje. Duzentos médicos, enfermeiros, veterinários, mobilizadores sociais e agentes de endemias de dez municípios serão preparados para fazer o diagnóstico e tratamento.
No ano passado, 32 pessoas morreram com a doença. De 1986 a 2006 - período de grande incidência da doença, considerada como uma das principais endemias do mundo -, foram registrados 137 óbitos no Ceará.
Segundo orientação do Ministério da Saúde, os municípios cearenses foram divididos em três níveis de risco de transmissão: intensa, moderada ou esporádica sem transmissão. A separação baseou-se na média de casos de 2002 a 2006. As cidades com transmissão intensa são Caucaia, Barbalha, Bela Cruz, Canindé, Crateús, Crato, Fortaleza, Granja, Ipu, Juazeiro do Norte, Maracanaú, Mauriti, Novas Russas, Sobral e Viçosa do Ceará.
Em Caucaia, situada na região metropolitana de Fortaleza, o combate a esse tipo de leishmaniose utiliza as campanhas de vacinação anti-rábica pdetectar a quantidade de animais doentes. Na cidade são feitos também exames de sorologia. Em duas campanhas, foram examinados 40 mil animais, sendo que 767 deles tiveram de ser sacrificados.
O foco da doença é o mosquito Lutzomyia longipalpis, o único responsável pela transmissão do protozoário leishmânia tanto do cão para o homem como do homem para o cão. Outros animais também podem ser contaminados pela doença, como raposas, gambás e roedores.
O aumento do número de mortes no Ceará está relacionado à dificuldade de se estabelecer o diagnóstico precoce, imprescindível para o início do tratamento. Sintomas como febre, inchaço no baço e no fígado, emagrecimento e apatia são semelhantes aos da dengue.
Ao picar um animal ou homem com leishmaniose visceral, o mosquito transmissor - também conhecido como mosquito-palha, birigüi, barigüi, bererê e tatuquira - contribui para o ciclo de proliferação da leishmânia, passando a doença por meio de outras picadas. Entre as medidas indicadas para o combate do mosquito estão: manter os quintais, estábulos e galinheiros limpos, livres de fezes, folhas e frutas em decomposição; recolher o lixo e garantir sua adequada coleta; e manter os cães bem tratados, vacinados e dentro de casa.